. O SALON DE 1908. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 1 set. 1908, p. 1. - Egba

O SALON DE 1908. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 1 set. 1908, p. 1.

De Egba

O VERNISSAGE - A INAUGURAÇÃO

Visconti - Baptista da Costa - Pintores estrangeiros - Impressões - A exposição é menos concorrida que as anteriores.

Inaugura-se hoje, às 2 horas da tarde com a presença do presidente da República e das altas autoridades do país, a 15ª Exposição Geral, o nosso “salon” oficial.

A época é de novidades a outrance [sic] e de muita coisa. Quando o ilustre Rodolpho Bernardelli, há quinze anos realizou com sacrifício para continuar com trabalho maior a ideia das exposições anuais - essas exposições eram a grande nota de arte plástica. Este ano, porém, só em pintura nós tivemos quatro ou cinco exposições de artistas nacionais e vamos ter ainda a da Exposição Nacional. E além dessas tivemos a Exposição de Arte Italiana, a exibição de pintores franceses, espanhóis, chilenos… Não se pode dizer que com o Progresso a arte não se desenvolveu também.

A 15ª Exposição devia ressentir-se um pouco. Entretanto há pelo menos duzentos trabalhos e se é notável a falta de Rodolpho Amoedo, de Henrique Bernardelli, de Selinger [sic], há a entrada do elemento estrangeiro com excelentes quadros de [...], de Borbessau [sic], de Bompard, Helsbey [sic], Zier e outros.

Ontem, à cerimônia do “vernissage”, que é aqui muito diferente da de Paris, compareceu, como de costume, muito pouca gente. E, assim, à vontade, foi possível examinar os quadros expostos com cuidado e vagar.

O maior expositor é o Sr. Elyseu Visconti. O notável artista expôs todos os estudos magníficos para o pano de boca do Theatro Municipal, que, aliás, é excessivo, os estudos para os “plafonds” do mesmo teeatro, que são magníficos. Além dos estudos, há um quadro admirável “Maternidade”, e várias aquarelas e paisagens verdadeiramente esplêndidas.

O nome de Visconti está de tal forma discutido que vale traduzir dos “Archives Biographiques Contemporaines, informações a seu respeito:

“Elyseu d'Angelo Visconti, pintor e desenhista, de origem italiana nasceu no Rio de Janeiro a 1 de agosto de 1867 [sic]. Iniciou seus estudos na Escola de Belas Artes de seu país natal, onde teve como professores Amoedo, Bernardelli e Zeferino da Costa. Aí foi distinguido com o prêmio de […] (viagem) em pintura.

Essa recompensa dada no Brasil de uma maneira mais liberal do que na França, permitiu ao jovem artista de terminar seus estudos em Paris, onde acompanhou os cursos da Escola de Belas Artes, notadamente os de Eugene Grasset, de arte decorativa.

Visconti estreou nos salões da “Societé des Artistes Français”, em Paris, enviando em 1895 um retrato de Alberto Nepomuceno e “Os convalescentes”; e em 1896, dois estudos de nu, dos quais um muito notável foi adquirido pela Pinacoteca do Rio de Janeiro. Desde então tem enviado trabalhos de um sentimento muito pessoal e de harmonioso colorido aos salons da “Societé Nationale des Beaux Arts”: “São Sebastião”, e um estudo de nu (1898); “Juventude” e “O beijo” (1899); retrato de “Mme. Nicolina de Assis” e de “Mlle. Lindheimer” (1905); “Maternidade” e […] (1906); “A carta” e “No Luxembourg”, estudos de ar livre (1907), etc.

Na Exposição Universal de Chicago (1896) Visconti fez-se representar por diversas paisagens que obtiveram uma medalha de prata. Em Paris (1900), uma tela de delicada poesia: “As oréadas” que mereceu a medalha de prata e foi adquirida pela Escola do Rio de Janeiro, e em S. Luiz (1906) um “São Sebastião” já exposto em Paris, e “A humanidade [sic] guiando P. A. Cabral”, além de peças de cerâmica que mereceram uma medalha de ouro. Visconti é também o autor do pano de boca do Theatro Municipal do Rio de Janeiro (1906). O pano, muito vasto, representa “A influência das artes sobre as civilizações”, e cada período da arte personificada na antiguidade, por Orfeu; na idade média por Dom Ambrosio; sob a renascença, por Palestrina; e na época moderna, por Beethoven, e Carlos Gomes, o célebre compositor brasileiro, uma imensa frisa ilustra “O amor arrastando a virtude”, e o teto indica “A passagem do dia” onde o “Cruzeiro do Sul precede a Aurora e a Manhã”, “As horas que fogem” e “O Dia morrendo nos braços da Noite”, alegoria engenhosa tratada por um pincel prestigioso. Dois [,,,] também merecem ser citados: “A arte lírica e o drama”, de um belo efeito de luz.

Este artista, particularmente dotado, produziu também toda uma série de ilustrações para doze selos postais e quatro bilhetes postais no concurso aberto no Brasil em 1906, sob os auspícios do Sr. Betim Paes Leme, então diretor dos Correios, e que uma decisão do ministro Lauro Muller impediu de ser levado a efeito. Toda a imprensa dos dois mundos, entre outras a “Ilustração”, de Paris, comentou e reproduziu as realizações do Sr. Visconti, que obtiveram em concurso todos os prêmios, por unanimidade de votos. A sua execução torna assegurado ao Brasil o primeiro lugar na arte philatelica. São dignas de nota as vinhetas representando: “A Republica. O [...]. O comércio. A abolição da escravatura. O balão dirigível. As artes. A industria. A mulher brasileira”.

Além de Visconti, citemos os trabalhos de E. Latour, já vistos na sua exposição: Menge, Christophe, João Baptista da Costa, que é neste salão o segundo triunfador com as suas paisagens. Timotheo da Costa [João Timotheo da Costa], Norfini, Carlos Oswald, de Agostini, etc.

Há também o Sr. A. Petit, como sempre abundante e muitas telas que parecem do Sr. Petit.

A seção de esculturas tem apenas três trabalhos: um busto do Dr. Passos por Bernardelli; uma Daphnes de Moreira Junior e duas figuras da Dança por G. Renda. Na gravura de medalhas: como sempre Girardet e um seu discípulo de talento: A. Mattos [Adalberto Mattos]. A seção de arquitetura é de uma extraordinária pobreza. Os nossos arquitetos têm tanto que fazer que nem lhes sobra um pouco de tempo para expôr. Daí apenas um concorrente: o Sr. Marques Guimarães, do Porto, com um único projeto.

A exposição é talvez menos concorrida que as anteriores.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

O SALON DE 1908. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 1 set. 1908, p. 1.

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