. O SALÃO de 1906. O Paiz, Rio de Janeiro, 1 set. 1906, p.1. - Egba

O SALÃO de 1906. O Paiz, Rio de Janeiro, 1 set. 1906, p.1.

De Egba

O “vernissage” - Os mestres e os novos - Artistas estrangeiros - A pintura - A escultura - A inauguração.

O vernissage do salão de 1906 teve uma concorrência anormal. Do meio-dia às 4 horas da tarde as galerias da Escola Nacional de Belas Artes regurgitavam.

O Dr. Félix Gaspar, ministro do interior, acompanhado do seu secretário Dr. Rodrigues Barbosa, compareceu. O professor Rodolpho Bernardelli, diretor da escola; o secretario Dr. Diogo Chalréo; os professores Dr. Araújo Viana, Baptista da Costa e Ludovico Berna receberam S. Ex. que percorreu as galerias mostrando-se satisfeito pelo progresso das artes no Brasil.

O vernissage, elegante e fino, correu animado. Entre as numerosas pessoas presentes, notamos: os professores Zeferino da Costa, Girardet, Homem de Mello e Morales de Los Rios, Leo d’Affonseca, D. Julia Lopes, Henrique Oswald, Raul Pederneiras, Raphael Pinheiro, almirante Teffé, D. Adelina Lopes, Julião Machado, Santos Maia, Dr. Paula Alvarenga, Francisco Guimarães, Cunha Vasco, Aurelio de Figueiredo e D. Maria Clara da Cunha Santos, além dos artistas expositores.

Grupos formavam-se discutindo, destacando as belezas dos quadros, enquanto alguns pintores terminavam o envernizamento de seus trabalhos.

As galerias regurgitavam. Há muitos anos que não se realiza um vernissage tão concorrido e lindo. Seria devido essa animação à presença do ilustre ministro do interior?

* * *

Mas se o vernissage animou por sua alegria, desalentou muitos amadores pelo número reduzido de telas que expôs. Foi a impressão geral. Entretanto, estudando com calma, lamentando embora abstenções de mestres, dissipa-se facilmente essa impressão, porque se compreende o valor real das exposições anuais.

O salão tem por missão principal patentear a criação de artistas novos e o desenvolvimento, a transformação ou evolução dos antigos. De modo que o visitante pode regozijar-se com o salão que hoje se inaugura. Nele talentos novos se afirmam.

Os Srs. Arthur Timotheo da Costa e Carlos Oswald revelam excepcionais qualidades de técnica e imaginação.

Há, de fato, grandes abstenções. O Sr. Henrique Bernardelli, o incomparável pintor, cuja técnica segura não tem igual, trabalhador incessante, não enviou nem uma obra sua. Do Sr. Elyseu Visconte [sic] há apenas uma tela, Segredo. O nome do Sr. Rodolpho Amoedo eminente pintor da Partida de Jacob, não figura também no catálogo.

Essas abstenções são, entretanto, de uma maneira paradoxal à primeira vista, prova do progresso das artes no Brasil. Os mestres citados não puderam terminar trabalhos para o salão, porque andaram o ano todo ocupados com grandes decorações.

Em compensação, artistas que há muito não apareciam nas nossas exposições anuais, expõem este ano com excepcional brilho e há uma serie de autores estrangeiros, interessante e variada.

Se na geração que surge convém destacar os Srs. Arthur Timótheo, Carlos Oswald e Eduardo Bevilacqua, entre os artistas feitos é preciso notar, principalmente, os deliciosos pastéis do Sr. Arthur Lucas e as paisagens incomparáveis do Sr. Baptista da Costa.

Belmiro de Almeida.

Depois de alguns anos de ausência, o Sr. Belmiro volta a aparecer, faz parte do júri de pintura e parece destinado a ser um dos triunfadores do presente salão. Mas a greve dos estivadores, perturbando o serviço de descarga, impediu que suas grandes telas, Amuada e Dame à La rose, estivessem ainda ontem na exposição.

O Sr. Belmiro voltou da Europa mais forte, decidido a trabalhar como sempre e com uns fiozinhos de prata pela barba original ... Mas, apesar de não terem ainda chegado seus grandes quadros, o Sr. Belmiro alcançou ontem real suc- [...]


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

O SALÃO de 1906. O Paiz, Rio de Janeiro, 1 set. 1906, p.1.

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