. O SALÃO DE 1913 - São seis candidatos à medalha de prata. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 11 set. 1913, p.5. - Egba

O SALÃO DE 1913 - São seis candidatos à medalha de prata. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 11 set. 1913, p.5.

De Egba

Feitas as ligeiras observações primeiras sobre a obra apresentada pelos quatro candidatos ao prêmio de viagem deste ano, cabe-nos agora prosseguir na análise rápida do Salão, não [...] extravagante preocupação de comentador do catálogo, mas como parcela do público que vê e não pode parar senão diante do que o impressione, por isto ou por aquilo.

Com a modificação última no regimento, os candidatos ao prêmio de viagem [...] passaram a sê-lo à medalha de prata, excetuados os quatro já referidos, detentores, desde o certame passado, desse galardão.

Deles nos ocuparemos de preferência, a ver se não os surpreende o resultado do júri sem o nosso despretensioso julgamento.

Dissemos já que o Salão é dos novos. Não importa nisso a afirmação [...] que o seja exclusivamente desses candidatos esperançados.

Contudo, muito fizeram eles digno de menção especial.

Alvaro Teixeira, com duas telas, apregoa o grande esforço dispendido depois da medalha de bronze.

Do nu Desalento de Orfeu, o pintor passou ao da Queda da Phalena, mais cuidado, como o primeiro, porém, metido em paisagens de fantasia, a que desta vez falta a poesia com que a outra soprou.

Enterro do fiel é já uma composição mais significativa, onde Alvaro Teixeira se revela melhor, copiando o mal cuidado quintal.

Pena é que o artista se não esmerasse mais no desenho das figuras, muito duras, como no verde da vegetação, muito pouco real.

Não já assim Pedro Bruno, que surge agora melhor aparelhado que da outra vez, ainda que conservando o assunto e até mesmo os elementos picturais.

Harmonias de praia representa um poético recanto de Paquetá, iluminado pelo sol, com uma faixa de praia onde há um barco e duas figuras.

Há nesse quadro, entretanto, o que faltava no outro, isto é, um ambiente seguro, luz, ar, perspectiva aérea em resumo, mais vida.

Tudo isso é feito como o artista vê, sem preocupação de agradar a este ou àquele, de um modo inteiramente seu, o que aliás só o faz merecedor de encômios nesta terra de imitadores.

E assim consegue emprestar aos seus quadros a simpatia que pessoalmente desperta.

Eurico Alves enviou doze trabalhos, quase todos conhecidos por já expostos.

Rachel é uma deliciosa página bíblica em que o moço artista distila a delicadeza do seu sentir em arte. É a figura da legenda sentada à beira do poço, enquanto as ovelhinhas passem tranquilas o [...] e o [...]

Num cenário todo suavidades, [...] com carinho, a tela de Eurico agradaria de todo, se não fora um ou outro cochilo que não bastam para a desamar. É que, parece, Eurico não acabou o quadro, com o mesmo desvelo com que o levou até certo ponto. Ainda assim recomenda-o sobremaneira.

Finalmente, Navarro da Costa, o nosso marinhista que enviou ao certame uma larga tela intitulada Sol de Inverno.

Navarro é já hoje um artista conhecido do nosso meio pela encantadora maneira de ver a nossa marinha.

Nada menos de três grandes trabalhos tiveram nos Salões do ano a sagração dos prêmios regulamentares.

Remanso, o último, tinha qualidades inúmeras de fatura fartamente prodigalizadas nas palavras dos mestres e na crítica oportuna, a par de pequeninos defeitos, que fomos os primeiros a assinalar.

Em 'Sol de Inverno, o artista conscientemente procurou corrigir uns e outros e conseguiu uma tela digna de figurar entre mestres da especialidade, sem se fazer desmerecido.

O céu de porcelana de Remanso, em desacordo com a fatura larga e pastosa do resto, desapareceu no trabalho ora exposto, em que igualmente fugiu Navarro às cores berrantes que lembravam no outro a preocupação instante dos [...] n’água.

É um dos bons quadros da exposição.

Na escultura dois são os concorrentes: Antonino de Mattos e Bibiano Silva.

Não é novidade já que se trata de dois moços de assinalado valor.

Antonino tem os incitamentos da crítica e os cuidados do mestre a trabalhar-lhe o temperamento calmo. Sua obra até agora revela habilidades extraordinárias que longe, muito longe o levarão, palmilhando a senda trilhada com ruidoso sucesso por Corrêa Lima.

Discóbolo [Imagem, Imagem] é um trabalho de artista já feito, com dificuldades galhardamente vencidas, agradável à vista do entendido como do profano.

Muito diverso se revela Bibiano Silva. Viram todos, no ano passado, aquela figura máscula, toda nervos e músculos de Liberto, com o rosto erguido num gesto de desafio, quebradas as cadeias que o cingiam.

O símbolo, por uns achado acima das forças do autor, e por outros taxado obra de gênio, e por todos elogiado, com pequeníssimas restrições, teve a sua significação decifrada agora.

Bibiano é um torturado que se recrutava ali em Liberto, quebrando as cadeias que o vinham acorrentado.

E ainda mais oprimido pela injustiça da suspeita terrível, Bibiano tomou a ombros a ingente empreitada de muito mais fazer, sozinho, recluso num vão escuro, e estudou, frequentou os hospitais, leu Sófocles, Lessing, na ânsia de vencer na cruzada de honra.

E saiu Philotetes da retorta predestinada.

O que é a obra do moço todos têm visto ali naquele recanto do salão. É um cidadão, vivendo das glórias e lutas da sua pátria, abandonado em região deserta, tendo a pungi-lo a dor cruenta de uma chaga incurável no pé.

É uma vítima do mais terrível dos sofrimentos, perene, ininterrupto, cruel que ali se estorce em atitude que só por si tiraria o sono a escultores já consagrados.

Mas Bibiano, venceu também na outra feição da sua obra e o observador diante de Philotetes mede-lhe nas crispações dos músculos, na expressão dolorida, na contorção que todo o envolve e que se faz toda a sua razão de existir, o máximo sofredor da mais cruel das dores imaginadas.

Que o visitador pare diante do trabalho de Bibiano, estude-o, sinta-o, e certo, como nós, se convencerá de que ele o é de um grande espírito, de um talento de escol, revelado com precocidade, que o torna ainda mais admirável.

Os júris das diferentes seções reuniram-se ontem, resolvendo acerca de todos os prêmios, devendo, porém, ser oportunamente sujeitos à aprovação do Conselho Superior.


Imagens

ALVARO TEIXEIRA

ANTONINO DE MATTOS

EURICO ALVES

BIBIANO SILVA

NAVARRO DA COSTA


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

O SALÃO DE 1913 - São seis candidatos à medalha de prata. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 11 set. 1913, p.5.

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