. O "SALON" OFICIAL DE BELAS ARTES - AS ESCULTURAS. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 21 ago. 1927, p. 16. - Egba

O "SALON" OFICIAL DE BELAS ARTES - AS ESCULTURAS. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 21 ago. 1927, p. 16.

De Egba

Os jornais foram unânimes em afirmar o triunfo do atual Salon das Belas Artes, reflexo natural do espírito de tranquilidade e de confraternização que ora reina entre os artistas e que sucedeu aquela situação anômala de lutas mesquinhas, de mal estar moral que só acabou com o afastamento do último diretor em comissão.

Com efeito, não só todos os grandes mestres das nossas artes plásticas expõem como, ainda, voltam a expor artistas há muito afastados de exposições do Salon. Os irmãos Bernardelli, por exemplo, velhos mestres que, há cerca de vinte anos, não tinham a menor relação com o palácio das Belas Artes, ao saber do simpático movimento de confraternização artística operada em torno do nome de Correia Lima, atual diretor da Escola, foram os primeiros a dar o exemplo. E atrás deles vieram os outros.

Dos grandes nomes das nossas artes (e isto é realmente notável), só não expuseram os artistas que se acham ausentes do Rio, como Belmiro de Almeida, Helios Seelinger, Decio Villares, etc.

Um Salon organizado desta forma, com todos os bons artistas au grand complet, só podia ser um Salon magnífico.

A parte da escultura não peca por pródiga em matéria de trabalhos, mas, em compensação, o que lá está, é muito interessante.

Vamos encontrar, dominando o recinto das estátuas, a figura do Progresso um detalhe do monumento à República que será erigido na cidade de Niterói e da lavra do mestre Correia Lima. É um bronze simpático de linhas, seguro de desenho, e palpitante de vida.

Numa fatura bem diversa, logo em frente, encontramos um gesso que também impressiona e que agrada. A Besta Humana do sr. Armando Braga, um novo de grande valor que se apresenta lindamente.

O único defeito que ali notamos foi o da ausência absoluta dos atributos essenciais da bestialidade na mesma estátua, o que lhe dá um ar, quiçá, de alegre caricatura. Não obstante, tem excelente construção e vida, que é o principal.

Rodolpho Bernardelli expõe apenas um busto, o retrato do industrial Granado, que não desmerece em nada a obra do escultor dos nossos melhores monumentos públicos. É dos trabalhos mais procurados e olhados com maior simpatia do Salon.

Antonino de Mattos expõe sete trabalhos, cada qual mais interessante.

Honório da Cunha Mello enviou uma Eva que o organizador do Salon achou de bom aviso colocar atrás da Besta Humana do sr. Braga.

Acontece, porém, que por ocasião da última ventania, uma janela mal fechada foi sobre a Mãe dos Homens e fê-la pó, de onde se concluiu que frágeis não são apenas as Evas de carne e osso, mas ainda as que são feitas em gesso, como a da escultura de Mello.

Olhemos com simpatia para o Ubirajara de Pereira Barreto, aluno de Correia Lima, que serenamente evoca, com orgulho, a raça dos que dominaram, um dia, o berço da nossa nacionalidade. E detenhamo-nos diante das esculturas de Magalhães Correia, o terrível Armando, que com muito conhecimento de causa expôs um delicioso Pulo da Onça... Junto a esse bronze, o magnífico busto de sua senhora.

Façamos, porém, um destaque especialíssimo ao bronze de uma senhora que, por discípula de Bourdelle não foi recusada pela comissão vestibular. O seu Arrependimento de St. Hubert é uma obra admirável, quer como concepção, quer como linha geral de composição, fugindo, como foge, à linha vulgar dos agrupamentos acadêmicos. É uma peça fortíssima, merecedora dos mais entusiásticos aplausos.

A exposição apresenta, ainda, esculturas de Francisco Andrade, Paulo Mazzuchelli, Humberto Cozzo, Florisbella Monteiro, Carlos del Negro, Homero da Silva, Isaura de Andrade, Josephina Vasconcellos, Bente, Newton Sá, Rayal [?], Acquevones [?], Paes Leme Veidie [sic], Torres [Roselli Koch Torres] Cavina Larocca e Yáyá Castro.

Incorporada à seção de escultura vimos uma maquette de Raul Saldanha da Gama que, particularmente, impressiona. Maquette do monumento comemorativo à fundação da cidade do Rio de Janeiro.

Se não nos falha a memória, a colônia portuguesa domiciliada nesta cidade, uns anos atrás, pensou em erguer a Mem de Sá e seus companheiros um monumento que fosse concebido por um artista brasileiro e que, com entusiasmo e orgulho, enaltecesse o fato histórico que se comemora a 20 de janeiro. Tal ideia, porém, ao que parece foi relegada ou esquecida. O natural, entretanto, é que os poderes públicos, por um concurso ou por aquisição do projeto de Saldanha da Gama tornassem efetiva uma ideia que, antes de ser dos portugueses, devia ser nossa.

O monumento, como se vê pela gravura que dele damos, seria tão alto como o maior dos nossos arranha céus, e, posto no ponto já por uma lei municipal determinado (e que fica próximo ao antigo Calabouço), não ergueria, apenas, alto, o padrão do nosso orgulho de ser, mas o nosso nome artístico, tão desprezado de todos, quando se trata de oferecer um monumento à cidade.


Imagens

1). Monumento aos fundadores da cidade do Rio de Janeiro. – 2). Busto por Armando de Magalhães Correia. – 3). Busto de Rodolpho Bernardelli. – 4). “Ubirajara”, de Pereira Barreto. – 5). Correia Lima – A estátua do Progresso, parte integrante do monumento à República.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

O "SALON" OFICIAL DE BELAS ARTES - AS ESCULTURAS. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 21 ago. 1927, p. 16.

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