. O "SALÃO" - Rápida viagem pela galeria dos concorrentes. O Globo (Edição extraordinária), Rio de Janeiro, 16 ago. 1926, p. 8. - Egba

O "SALÃO" - Rápida viagem pela galeria dos concorrentes. O Globo (Edição extraordinária), Rio de Janeiro, 16 ago. 1926, p. 8.

De Egba

Seis candidatos ao prêmio de viagem

Opiniões de Eloy Pontes e Paulo Boneschi

O “Salão” deste ano, em virtude do critério de escolha, apresentou-se menos atopetado e com melhor aspecto do que o último. De um modo geral se pode dizer que os novos se esforçaram imenso, quer os que disputam o prêmio de viagem, quer os que se inscrevem para conquistá-lo de futuro. Houve mesmo revelações, que já constituem mais do que promessas. Para darmos notícia justa, minuciosa e segura da concorrência, seguiremos a ordem do catálogo, que, por sinal, está menos mau do que os catálogos dos outros anos.

Se em primeiro lugar encontramos “Vitória-régia” de Adelaide Desierto Nascimento, tela de pouca monta, calcada em assunto esvaído, logo em seguida podemos registrar os trabalhos de Alcebiades Noronha Miranda, revelando um temperamento de artista muito sensível. A sua “Ronda do silêncio” transuda poesia triste e marca a existência de qualquer coisa que nenhum esforço técnico substitui, que é inteligência. Cogita-se de um novo, do qual se deve guardar o nome. Alfredo Galvão (“Retrato e Noiva”) assim, assim... Almeida Junior [Luiz Fernandes de Almeida Júnior], prêmio de viagem realizado, apresenta dois nus de bom gosto. “Radiosa” consegue mesmo vencer os embaraços que o gênero oferece. “Pensador”, um velho de cabeça atormentada, seria melhor se se chamasse “Pensativo”... Ninguém pensa em coisas sérias naquele jeito... Em todo o caso, vá. Telas do pintor falecido Americo Frederico da Rocha, cinco, que autorizam a lamentar a sua morte. Ali estava um artista apreciável. André Vento, que conquistou medalha de prata há oito anos, e nunca mais concorreu ao prêmio, expõe “Adoração ao sol” e “Adormecida”, duas telas de valor evidente. Fica-se pensando porque o pintor se detêm por ali. “Adormecida” (nu), nos diz que André Vento tem querido desbaratar o que dele toda a gente esperou sempre. Agenor de Barros, insignificante. Annibal Mattos, velho trabalhador, trabalhador incansável, filho de uma tenaz aplicação, nos dá quatro telas. “Barcas na Guanabara” é a melhor das quatro. A paisagem marinha, melancólica e tranquila, com longes de nuvens baças, tem um primeiro plano de águas transparentes, de poesia segura e sóbria. Aí está um artista que tem caminhado com garras de força de vontade. Archimedes José da Silva, João Felippe Azevedo, B. Pinto, personagens do fundo da cena. Uma das revelações é Bath. da Câmara, que atingiu ao que se pode desejar, a um novo com “Desejos”. Cogita-se de uma tela em que há movimento, audácia e brilho de composição. “Desejos” é mesmo a alegria de um canto do “Salão”. Entretanto “Mãe e Pátria”, do mesmo, falhou. Bas Domenech, outro produto da perseverança. A perseverança, porém, não lhe dá tudo que pode e que ele merece. Belmiro de Almeida, mestre, grande medalha de ouro em 1921, não sabemos bem por que escolheu um modelo esquisito para “Nu de mulher”. Como aquilo fala verdade! As carnes flácidas caem, pompeiam as adiposidades e tudo traduz de tal sorte a severa realidade dos fatos, que se poderia dizer, como os contempladores leigos: “só falta falar” Grande artista! Só um grande artista saberia fugir aos tropeços que o modelo ofereceu. Benno Treidler, marinhista obstinado, pintou o Iate Clube Brasileiro de todos os modos, em todas as posições, de forma a nos deixar a ideia de ter folheado um álbum de gravuras. Augusto Bracet, professor, pequena medalha de ouro. Parece que trabalhou pensando na grande medalha. Trabalhou com afinco. Temperamento pouco emocional, confiando no desenho aquilo que nem só ao desenho se confia, Bracet, este ano, saiu-se um pouco da algidez. Os dois retratos e “Cismando” são obras que justificam a designação do autor para uma cadeira da Escola, até que venha o concurso... Sobre os esforços de Augusto Bracet se poderia escrever um estudo mais longo sem desaire. Diríamos que, depois da sua viagem à Europa, é a primeira vez que ele se apresenta à altura das expectativas, se não fora o receio de melindrar com elogios. Pedro Bruno também outro caso de aplicação real. Do ano passado para cá evidenciou progresso, conquanto seja um artista firmado e sagrado pela pequena medalha de ouro. “Romântica” é obra de mestre, com a circunstância de ser ao mesmo tempo, obra que revela um temperamento poético apreciável. “Cristo ao luar” deve ser citado, com louvores. Candida Cerqueira (“Retrato”) é aluna da Escola.

Ou muito nos enganamos ou Candido Portinari (concorrente ao prêmio de viagem) está sendo estragado pela “entourage”. Trata-se duma inteligência forte, que se deixou dominar pelas impressões de Zolunga. Entretanto, Portinari tem personalidade. Se não é o que lhe andam segredando os adversários da aplicação, não se inscreve também entre os insignificantes, que tanta tinta e tanta tela estragam, estragando a paciência alheia. Os dois retratos que Portinari apresenta [1 e 2], como títulos ao prêmio de viagem, cheios de excelentes notas pessoais, marcam, ao mesmo tempo, uma certa insistência de processos, que parece dizer que o artista se considera feito e acabado. Isto é um mal evidente. Henrique Cavalleiro se destaca nas paredes pela diferença dos demais. Com defeitos ou sem eles, Cavalleiro tem as virtudes da personalidade. Revela-se como caricaturista exímio em duas aquarelas. Essas aquarelas constituem mesmo a nota curiosa do “Salão”. “Paisagem” e “Serra da Bocaina” são telas que se avizinham da perfeição. “Mocidade” e “Sonho místico”, painéis, são duma poesia penetrante. Esses trabalhos apontam Henrique Cavalleiro aos que se acostumaram a estimar o talento. “Sonho místico” obedece a um critério tão firme que as figuras humanas se casam às figuras das pombas, que adornam o painel. Celso Kelly, talento original, com falta de aplicação, expõe dois retratos. Há ali alguém, que poderá vir a ocupar um posto se a tenacidade, o amor às perspectivas auxiliarem. Oscar Turati [sic], Alberto Delpino, Affonso Dias Martins, Domingos Dias da Silva, Diva de Moura Ferreira, segundos planos... Edith Aguiar, pequena medalha de prata, tem em “Elsa” (pastel) uma prova de capacidade. Que gênero inexpressivo o pastel! Que esforço perdido! “Claro e escuro” e “Anêmonas” bons. Por que é que o Eduardo Bevilacqua, prêmio de viagem de 1906, pintou aquele “S. Lourenço”, tão peco e por que é que o expôs? Elaine Sanceau, Emilia Marchesine, Ernesto Quissac, Euclydes Fonseca, Eugenio Proença Signaud [sic], Levino Fanzeres, Francinet Alves, fundos de cena... Fausto de Souza, concorrente ao prêmio de viagem, concorre... As duas telas, que apresenta, se não chegam a impressionar ninguém, não fazem mal aos outros. “Antes do baile” revela qualidades. Revela. Gaspar Magalhães, Francisco Acquarone, Gastão Formenti, verbos de encher... Georgina de Albuquerque é a alacridade de cores bem distribuídas, salvando um recanto de parede, onde se amontoaram coisas fantásticas. “Malmequer”, “Dia de verão”, “Alta na encruzilhada” três telas que valem por três testemunhos de um talento, que une a técnica ao bom gosto. Que estranha poesia nasce da pintura de Georgina de Albuquerque! Seu elogio está feito. Não estivesse e aqui lhe deixariam-nos um punhado de adjetivos estimulantes. Gerhard Orthof, alemão, com um retrato magnífico, com palhetadas audaciosas e originais. Germinal Artezi, moço, com tendências para a extravagância. A extravagância, porém, só não cai no ridículo quando há talento. É o caso de Artesi. Os retratos de Mlles. Amelia Bastos e Marina Fernandes definem uma personalidade. O pincel que os fixou tem direito a contar com o futuro. Gilda de Oliveira [sic], Hallais de Oliveira, N. N. [?], para quando forem anunciados... Guttmann Bicho, filho da constância, com excelentes qualidades, prêmio de viagem em 1921, dá-nos quatro telas, todas de boa água. “Ar livre” é mesmo uma das obras-primas do “Salão” (bem entendido). Haydéa Lopes Santiago, quando diminuir a velocidade, quando abandonar a “fato presto”, quando esquecer o desejo de expor muito, poderá muito. Seu “Romance”, entretanto, impressiona bem. “O portão da chácara”, “Tarde de verão”, “Hora da missa”, caracterizam bem o seu colorido. Desejaríamos, entretanto, vê-la fixada numa tela em que reunisse todas as virtudes que se espalham, que se distribuem, que se perdem e diluem quase no seu labor extenso. Helios Seelinger, mestre, talento original, exemplo em a extravagância, às vezes, se salva pelo engenho incontestável, com “Pedro Malazarte” fixou todos os aspectos, todas as facetas, todas as perspectivas da sua maneira. Maneira pessoal. Pena é que Helios não encontre motivos para trabalhar mais do que trabalha. Heraclito Ribeiro dos Santos, Heribert Niaud, Hilda Eisenlohr, Hilda Soares Torres, Irene Ribeiro França, Seelinger Fleury, João Braga, João Fahrion, Jordão de Oliveira, José dos Santos: comparsaria... Arthur Lucas, que uma enfermidade pertinaz não venceu, apresenta “Terra , Céu, Mar, e Primavera”, esforço que comove! Lucilio de Albuquerque, professor, grande medalha de ouro, com “Fim de pescaria” se penitenciou. É pena que o pescador, que puxa a rede, esteja tão duro, parecendo colhido de modelo artificial. Luiz Kattembach, novo, é uma inteligência evidente. Seu “Bailado pagão” apresenta alguém.

M. Constantino, candidato ao prêmio de viagem, trabalhou muito, demonstrando progresso do ano passado pra cá. É um concorrente respeitável, que faz lamentar não poder o “Salão” mandar para a Europa pelo menos três dos atuais concorrentes. “Infância de Giotto” é obra de mérito. “A rosa branca” é obra magnífica. “Retrato”, de Corbiniano Villaça, aproxima-se da perfeição rigorosa, que é pseudônimo de obra-prima. M. Constantino é um nobre artista, que dispõe já de elementos primorosos. Manoel Faria, trabalhador incansável, apresenta sete quadros, todos com estigmas de evolução, principalmente no que respeita ao colorido. “Lago dos nenúfares” é ótimo. A medalha de prata será prêmio mesquinho para quem assim concorre aos prêmios do “Salão”. Maria Francellina, Maximiliano Valdes, razoáveis. Mario Tulio, com “retrato”, mereceu gabos. Marques Junior (que vadio!), prêmio de viagem, apresenta “Ventarola verde”, menos do que devia. Meinhard Jacoby, alemão, grande e nobre inteligência de artista. “Volta do serviço”, “A escolha dos instrumentos”, “Corte de cana”, que excelentes provas! “Branco em branco” é uma das telas melhores do “Salão”, revelando um temperamento excepcional munido duma excepcional maneira de fixar impressões. Miguel Capllonch: e esta? Que ideia! Miriam Falcão Lima, Murillo Gonçalves de Souza, Odelli Castello Branco, Odilon Paiva, Olga Mary Pedrosa, Padua Dutra, Palmyra Pedra, multidão do fundo de cena. Orozio Belem (que a revisão teima em chamar de Osorio e com razão) é uma das afirmações novas do “Salão”. Progressos magníficos. “O orientalista Dr. Paulo Boneschi” é trabalho de polpa. “Yáyá” inscreve o Sr. Orozio Belem no rol dos que podem disputar o prêmio em futuro próximo. Otto Bunguer, alemão muito bom em “Ressaca”, uma única tela, que é ato de prudência. Paula Fonseca, prêmio de viagem de 1923, foi perder na Europa o que sabia aqui. “Mercado de Florença” é detestável. Não se diria do mesmo paisagista que tão bem mereceu o prêmio há três anos! Paulo Mazzucheli, Porciuncula de Moraes, Pureza Cardoso, Raul Pedrosa, Sara Costa, Suzana Mesquita, puff! Príncipe Paulo Gargarin [sic]: “Em descanso” (marinha) único quadro exposto. Por quê? Receios e susceptibilidades. No entanto Gargarin é um artista de altas qualidades. Joaquim da Rocha Ferreira é a grande revelação do ano. Entrou com o pé direito. Aí está um talento, que os elogios não devem desmerecer. Com aplicação Rocha Ferreira há de ser um dos maiores artistas contemporâneos nacionais. Os três retratos, que expõe, são três provas duma excepcional envergadura. Não veio precedido de reclames. É alguma coisa!... Roselli Koch Torres. Outra concorrente autorizada aos prêmios do “Salão”, que se apresenta sem padrinhos valiosos. Por isso mesmo dá prazer elogiar “O pó de arroz”, tão bem feito e tão sensível e o retrato a pastel, que nada deixa a restringir.

Manoel Santiago, concorrente ao prêmio de viagem, forte concorrente. Não se trata de um pintor apenas de esforço, que tudo confia ao desenho. Cogita-se dum talento, cheio de poesia, de sensibilidade, de engenho improvisador. Santiago afirmou-se mesmo, em “Currupira” uma das inteligências mais seguras de quantas pleiteiam louros. “Currupira” é uma composição encantadora, executada com graça infinita. “A cabocla”, “A carta”, nus artísticos, confirmam os louvores, que queremos consignar aqui sem reservas. Há outros trabalhos de Santiago. Sarah Villela de Figueiredo, concorrente ao prêmio de viagem, com três retratos. Os retratos do professor Bernardelli e do Sr. A. de Medeiros, são duas afirmações magistrais. Sarah Villela tem mesmo um “savoir-faire” que a aponta a quem quer que percorra as galerias do “Salão”. É uma concorrente que embaraça. Sylvia Meyer continua expondo pasteis bons. Oswaldo Teixeira [Oswaldo Teixeira da Rocha] deixa um pouco a desejar. É um aplicado. Com o tempo... Orlando Ternz [sic], que se apresentou há um ano com brilho, volta à carga com grandes quadros. Fora melhor que os fizesse menores. Fazendo-os menores Ternz devia abandonar a pintura lisinha, acabadinha, antigazinha. Entretanto, atado a ela, Ternz nos dá “Retrato antigo”, “Retrato” e “Bahiana faceira”, três obras de mérito. A segunda delas, então, justifica as esperanças que, há um ano, pusemos na sua capacidade. Gostamos menos de “Perfis”, por motivo que acima ficou aludido. Timotheo da Costa [João Timotheo da Costa] pode-se gabar, sem medo, de haver dado o melhor quadro do “Salão” com seu “No atelier”. “Estudo de tronco”, “Adolescente”, bons. O mesmo não dizemos, para sermos justos, de “Paisagem”. Ugo Pablo [sic], com “Retrato” e “Ruína” mereceria elogios que “Quando a frialdade é precoce” não merece.

´Armando Vianna, candidato ao prêmio de viagem. Há um ano, pintou um grupo de senhoras, favorecidas pela luz vermelha de sombrinhas [Imagem]. Este ano repetiu a façanha. Com menos êxito. “Primavera em flor”, entretanto, justifica as preferências que já se acentuaram sobre Vianna, no empenho de mandá-lo à Europa. “Antes da festa”, é obra de valor incontestável. “Travessura”, deixa a desejar. A perna do garoto, sentado na pedra, é aleijada. Armando Vianna, entretanto, pelo que já fez, é um dos mais fortes talentos novos, é uma afirmação digna, é um valor em evolução constante. Não há quem, de boa fé, não se emocione diante das suas telas. Isto é o que se deve estimular. Desenho é fácil, mas há que “haver talento”... Vicente Leite trabalhou muito. Antes trabalhasse menos, concentrando as suas aptidões. Artista de qualidades evidentes, novo, constitui promessa que ninguém contesta. Virgilio Lopes Rodrigues, denunciando progressos, é um paisagista de sentimento. Visconti, o mestre, expõe uma obra-prima autêntica, com “Retrato”, “Baiana” e “Piedade” não contestam os elogios que Visconti devia ter aqui, numa lista de adjetivos, que não escrevemos por inúteis. Grande, nobre e ilustre artista! Yvonne Visconti, filha do mestre, expõe “Paisagem”, tela de valor.

E é tudo que a pintura nos deu. Esse tudo foi muito. Os concorrentes ao prêmio, Armando Vianna, Manoel Santiago, Sarah Villela, Manoel Constantino e Candido Portinari, representam cinco afirmações moças, que merecem os estímulos da crítica. Vianna é mesmo um dos candidatos que muito merece, pela obediência que vem observando, aos conselhos da tenacidade. Santiago e Constantino são dois temperamentos excepcionais. Sarah é um talento másculo. Portinari será um artista de valor o dia em que der de ombros aos que afirmam que lhe sobram as virtudes que a aplicação concede até mesmo aos mestres incontestáveis.

Em escultura, registramos o “Velho filósofo”, de Antonino Mattos, excelente. Francisco de Andrade com “Golpe mortal” lavrou um tento. Armando Braga, Cunha Mello, Homero Silva, Honorio Peçanha, Cavina, José Rangel, Lotte Reuter [sic], Laurindo Ramos, Magalhães Corrêa, Paes Leme, Yáyá Castro, Vicente Laroca, bons. Orestes Acquarone apresenta “Gaúcho”, que é prova de um talento digno de menção. Verdié, o mestre, em “Tamanduá brasileiro”, escultura em madeira, atingiu ao extremo, que justifica a situação que desfruta.

Eloy Pontes.

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A XXXIII EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES

IMPRESSÕES RÁPIDAS

O conjunto do salão oficial deste ano apresenta-se mais forte e mais agradável do que nos anos anteriores.

Nas telas há mais luz, mais cor, mais vibração. Parece que um sopro novo de vida esteja animando a nossa mocidade artística.

A seção de escultura é menos rica e menos original.

A de arquitetura é positivamente nula.

A de artes aplicadas não apresenta interesse nenhum, a não ser uma série de pranchas aquareladas em que a paciência de um chinês ao serviço de um cérebro alemão, esquartejou em mil elementos anatômicos os lindos motivos ornamentais da arte aplicada indígena.

Que utilidade artística têm esses elementos isolados, quase todos “geométricos” e “comuns” às artes primitivas?

A originalidade da arte indígena consiste tão somente na “maneira” de compor esses elementos. Isolados perdem eles todo valor artístico.

Mas visitamos rapidamente as diferentes seções e notamos as nossas impressões pessoais.

SEÇÃO DE PINTURA

PEDRO BRUNO

É por excelência o pintor brasileiro de ar livre: Ao equilíbrio da composição, à delicadeza do colorido, à discrição dos jogos de luz e sombra, alia uma técnica segura e um desenho impecável.

O conjunto do quadros de Pedro Bruno é espontaneamente harmônico, de uma poesia calma e serena.

Desconhece, esse artista, os contrastes violentos das cores que encontramos, por exemplo, nos quadros de ar livre pintados por Georgina de Albuquerque, cheios de efeitos cromáticos artificiais.

“Mãe”, “Sol de outono”, “Guanabarinas”, “Cristo ao luar”, “Romântica”, constituem um conjunto de obras suficiente para firmar a fama de um artista.

JOÃO TIMOTHEO

A esse artista cabe a honra de ter pintado uma pequena joia que constitui, a nosso ver, o “clou” do salão desse ano: “No atelier”. Bem composto, bem desenhado e valorizado, esse quadro de João Timotheo foi executado com técnica larga e “pastosa”.

A figura do adolescente é grandemente expressiva e bem ambientada: o colorido quente e vibrátil.

João Timotheo apresenta mais uma cabeça: “Adolescente”, um “Estudo de tronco”, interessante e uma paisagem “Tijuca”, de efeito bastante decorativo.

HENRIQUE CAVALLEIRO

É um dos pintores modernos mais fortes. Suas paisagens, limpas de cor, cheias de luz e vibrações, são pintadas duma maneira larga e sintética.

Massas e cor são as preocupações principais desse jovem artista.

Não gostei do “Retrato do Dr. Hernani de Irajá”, a não ser como “tentativa”, no gênero.

ALMEIDA JUNIOR

O notável artista Almeida Junior não nos quererá mal se, em vez de cumprimentá-lo pelos dois nus de mulher: “Nu romano” e “Radiosa”, apresentamos-lhe os nossos sinceros parabéns pelo ar livre “Estudiosa”, que possui qualidades artísticas pouco comuns. É um trabalho que honra o autor.

ELYSEU VISCONTI

O mestre apresenta-se com três trabalhos: “Retrato”, ótimo de técnica e duma psicologia notável; “Piedade” bem pintado (lindo o esforço da cabeça) e “Baiana”, que não nos parece à altura da fama do autor.

JACOBY MEINHARD

Entre os quatro trabalhos enviados pelo notável pintor alemão destacamos, pelas qualidades técnicas e pela singular expressão, o retrato “Branco em branco”.

MANOEL FARIA

Este jovem paisagista concorre ao “Salão” deste ano com sete trabalhos, entre os quais nos apraz salientar a grande tela “Lago dos nenúfares”.

Manoel Faria é pintor “realista”: incansável e cuidadoso observador da nossa natureza, procura reproduzi-lo em suas

Paulo Boneschi.

(A CONCLUIR)


Imagens

“Infância de Giotto”, de Manoel Constantino, à esquerda, e “Prof. Henrique Bernardelli”, de Sarah Villela de Figueiredo

“No Atelier”, de João Timotheo da Costa

“Primavera em Flor”, de Armando Vianna

Retrato de Roberto Rodrigues, de Candido Portinari

“O Curupira”, de Manoel Santiago

“Lago do Nenúfares”, de Manoel Faria, à esquerda, “Adoração ao Sol”, de André Vento, ao centro, e “Poesia da Tarde”, de Vicente Leite


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

O "SALÃO" - Rápida viagem pela galeria dos concorrentes. O Globo (Edição extraordinária), Rio de Janeiro, 16 ago. 1926, p. 8.

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