. O. N. O "Salão de 1906". Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 9 set. 1906, p. 5. - Egba

O. N. O "Salão de 1906". Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 9 set. 1906, p. 5.

De Egba

As 218 telas que formam a galeria de pintura na 13ª Exposição, inaugurada a 1º do corrente na Escola de Belas Artes, dizem eloquentemente o que está de há muito na consciência de todos, isto é, que o nosso meio não comporta ainda grandes produções.

Há, porém, nessa opinião, que é um estigma aos ricos, pelo desamor à arte nacional, uma pequena injustiça.

Diz-se a cada momento que os nossos endinheirados preferem às produções nacionais, trabalhos de mestres estrangeiros e oleografias sem valor artístico.

É uma acusação, sob certos aspectos, verdadeira.

O que, porém, não se pode deixar de reconhecer, porque é a impressão de quantos tem visitado o “Salão”, é a ausência de - arte nacional - isto é, de produções de artistas, senão nacionais, ao menos saídos da nossa Escola de Belas Artes. O predomínio dos artistas estrangeiros é tal, que desnacionaliza quase a Exposição.

Treidler, Alaux, Amau Jean [sic], Bassi, Henri Bouvet, Brejoud [?], Caprile, Chapuis, Max Claude, Collin, Bordallo Pinheiro [Columbano Bordalo Pinheiro], Diana Dampt, D’All’Ara, D’Orgence [sic], Ema Vass [sic], Malhôa, Fernandes Gomes, Lindermann, Francisco Manna, Marguerite Danin [sic], Marve [sic] e alguns outros absorvem com abundante produção a pequena lista de artistas nacionais.

A que atribuir a deserção do elemento indígena?

Bernardelli, Visconti, Amoedo, Zeferino e outros nomes feitos, que nos anos anteriores têm concorrido sempre, esqueceram-se desta vez do “Salão”?

Outros nomes que, nas exposições anteriores, marcaram promissoras esperanças, conquistando prêmios de viagem e menções honrosas, tais como: Latour, H. Leelinger [sic], d. Clelia Nunes, J. França, Th. Braga, etc., também deram-se férias...

É, como se vê, uma pretensão encher a boca com - arte nacional - (falando das artes do desenho), quando o balanço das nossas produções artísticas (e as exposições anuais da Escola não são outra coisa) acusa um predomínio avassalador da - arte estrangeira.

Não vai nisso absolutamente um exagero de chauvinismo, que seria até certo ponto censurável e ridículo. Sirva a observação apenas para atenuar a increpação que pesa sobre a burguesia carioca, que dizem indiferente e infensa aos nossos artistas do pincel. Não há - arte nacional - a proteger, desde que os nossos patrícios deixam o campo livre à concorrência estrangeira.

Dos quadros expostos, um existe que conquistou gerais simpatias.

É uma tela de Chambelland [Carlos Chambelland] - Olhares curiosos -, que representa uma cena muito simples e muito inocente ...

São três ingênuas mocinhas, que se entreolham sorrindo e parece se interrogarem - quel diable vont ils faire? - vendo sumir-se na orla da praia um gracioso par …

A “Dame à La rose” de Belmiro, é outro quadro de valor, que salva da indigência a galeria deste ano.

Belmiro é um nome conhecido entre nós e não é de estranhar que sobressaia, [...] quando os mestres debandaram.

Representa o seu quadro uma dama parisiense, tendo em uma das mãos uma rosa e nos lábios um sorriso brejeiro ...

“Livre de preconceitos” é um título que faz pensar em um quadro reacionário de pintor moralista.

Puro engano! Thimótheo da Costa [Arthur Timótheo da Costa], que tem mais talento d [sic] que idade, quis apenas um golpe nesse preconceito tolo que a civilização criou - o vestuário.

O seu quadro é a apologia da nudez.

Representa uma mulher nua, estendida preguiçosamente na praia, como que a seduzir o oceano, que lhe lambe os pés...

A cena de si não merece reparo. Mas o título...

Dar-se-á o caso de que o artista chame sinceramente à roupa de preconceito?

“Retrato de preto” é outro quadro de Thimotheo e um dos melhores da Exposição.

Como o diz o título, representa um negro, de nariz chato e beiços encarnados, chupando uma ponta de cigarro.

O artista apanhou admiravelmente a expressão do negro desabusado das nossas cidades: uma expressão de audácia e capadoçagem muito do “Treze de Maio”.

Na época que corre, não poderíamos apelidar esse quadro - O inimigo do argentino?

Baptista da Costa que, na paisagem, é incontestavelmente um mestre, apresenta algumas telas magníficas.

Bevilacqua é outro artista moço, mas cujos progressos se acentuam de ano para ano.

Apresenta apenas dois trabalhos - Infância de Orpheu e Retrato - que tem sido merecidamente apreciados.

Não é nosso intento oferecer uma lista completa dos quadros bons, reservando o silêncio para os maus. Esta crônica é apenas uma impressão geral, e não a critica dos trabalhos expostos.

Feito este reparo, que tem por fim prevenir desde já qualquer omissão injusta, entremos na secção de escultura.

Corrêa Lima, Julieta França e Nicolina Assis são três artistas já conhecidos do público.

D. Julieta França, que acaba de regressar da Europa, onde esteve como pensionista da Escola, tem talento, extraordinária força de vontade e perseverança, mas fala-lhe o sentimento delicado de Artista.

“Confidence”, além de alguns defeitos e modelado, é de concepção pouco elevada.

Sabemos como toda a gente o sabe hoje - que a Arte é a Natureza ... sim, mas a Natureza refratada no espírito.

Copiar na tela ou modelar no mármore uma cena grosseira da vida, é, quando não envergonhar ao próprio homem, pelo menos alienar as suas simpatias.

“Confidence”, parece-nos uma aberração do sentimento estético e nem sequer tem o mérito de ser o que a Artista quis representar.

A artista imaginou uma mulher sua sentada nos joelhos de um homem também nu, que lhe diz confidências ao ouvido; mas fê-lo sem expressão, sem cobrir a realidade com o véu da fantasia, que é o traço subjetivo do artista.

Holz definiu algebricamente a Arte na fórmula - Arte = Natureza - x. Ora, é justamente esse x a incógnita que ao artista cabe descobrir. A Natureza é para ele o que a luz solar é para o fotógrafo: um elemento essencial, mas que não lhe dá nem tira mérito. O x é apenas um fugitivo momento, um trecho da Natureza, a que o artista imprime o cunho do seu temperamento.

Esse momento pode ser heroico ou ridículo, simples ou solene, mas deverá ser sempre alguma coisa de mais ou de menos do que a Natureza: nunca, porém, a Natureza mesmo.

D. Nicolina de Assis, também chegada há pouco da Europa, onde esteve a expensas do Estado de São Paulo, apresenta apenas dois trabalhinhos.

Ambos feitos com muita Arte, não podem servir para medir o mérito, já comprovado em trabalhos de maior vulto, da escultora paulista.

Como pretende fazer brevemente uma exposição sua, dela nos ocuparemos mais detalhadamente em ocasião oportuna.

Em conclusão: o salão de 1906 é digno do nosso meio. Telas em geral pequenas, representando temas trivialíssimos, ausência completa de trabalhos de concepção - eis a mercadoria mais vendável em uma sociedade onde as grandes fortunas são ainda grãos de areia, comparados com os rendimentos de um Rockfeller ou de um Morgan...

A luta pela vida, o mercantilismo característico do nosso tempo, o espírito prático, o Mercantilismo na Arte, se me permitem a expressão - já se acusa com sinfonia de uma remodelação do ideal artístico, figura abstrata, é certo, mas nem por isso alheia às circunstâncias do meio, como a planta, na feliz comparação de H. Taine que, cresce e floresce conforme a seiva que a nutre e o ambiente que ela absorve.

É por isso que os quadros de gênero desapareceram das nossas pinacotecas e cederam lugar às - cenas da roça - e - cabeças de velho - ...

O. N.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

O. N. O "Salão de 1906". Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 9 set. 1906, p. 5.

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