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O. G. ARTES E ARTISTAS. O Paiz, Rio de Janeiro, 7 set. 1897, p.3.

De Egba

Edição feita às 15h54min de 20 de Novembro de 2010 por Egba (Discussão | contribs)
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Exposição de Belas-Artes

A quarta exposição, organizada pela Escola Nacional de Belas-Artes, foi pouco concorrida.

Muitos artistas que mandavam seus trabalhos aquele certame estão fora da capital e além disso, a pequena classe de pintores está dividida formando dissidência contra o programa de ensino oficial.

No entanto, apesar do pequeno número de obras de arte ali exposto, notam-se trabalhos excelentes que reúnem todas as boas qualidades exigidas pela estética.

Pretendemos fazer rápida análise, senão de todos os trabalhos ao menos da maior parte, e começaremos pelo fim, salientando um desenho a creiom, estudo feito para os afrescos da catedral de Gênova, de Cesar Machari, professor, senador e artista italiano. Foi exposto pelo proprietário, um dos irmãos Bernardelli, e deve ser bem observado principalmente pelos alunos do curso de desenho para que vejam o que se pode chamar perfeição, independência e certeza.

A seção de gravura de medalhas e pedras preciosas é ocupada pelo professor da escola - Augusto Girardet, artista consciencioso, trabalhador e modesto.

É um gênero este em que os artistas quase que desaparecem. Um quadro excita logo a curiosidade do observador no sentido de conhecer o nome do autor; outro tanto não se dá com a gravura em pedras preciosas - o artista poucas vezes é relembrado, e ainda mesmo que se trate de uma celebridade os seus produtos somem-se nas mãos dos entendedores, são conservados como preciosidades dentro dos cofres e o nome do artista esquecido.

As ágatas de Girardet são de uma perfeição rara. De desenho rigoroso e talhadas com delicadeza, apresentam todas as minuciosidades que uma forte lente pode descobrir em trabalhos desta ordem. Ao lado das ágatas figuram as conchas e um topázio gravado para ser visto por transparência, trabalho esse de muito valor e que merece ser observado com cuidado para ser apreciada a paciência do artista, em obter todos os traços do modelo.

Na secção de escultura apenas aparece o modelo em gesso de um retrato que vai ser fundido em bronze; é de Rodolpho Bernardelli, e dir-se-ia vivo aquele busto, em que o gesso, apesar das suas más qualidades para exprimir a forma humana, parece ter adquirido a flacidez da carne e o aveludado cutâneo.

Rodolpho Bernardelli procura sempre nas suas esculturas obter, juntamente com o desenho meticuloso da forma, a mais perfeita expressão; e o resultado desses dois cuidados combinados é conseguir a vida nos seus produtos artísticos, colocando-se assim entre os grandes escultores.

Não é o primeiro retrato que esse artista exibe; muitos existem nesta capital, mesmo em casas particulares, e neles há sempre o sopro do idealismo, um que de sedutor, de atraente, que fascina ainda mesmo em se tratando de bustos de homens, e nessa qualidade, que revela a alma do artista e o seu justo sentimento do belo, repousa o seu merecimento estético.

Sem tais condições não há arte, e a prova, para não sairmos da exposição de que nos ocupamos neste momento, basta citar os quadros vindos de Paris, de D. Diana Cid, sobretudo um dos retratos, que qualquer artista teria deixado no cavalete como um esboço. No entanto, essa forma indecisa e antipática, tem hoje não só grande número de cultores como até apreciadores e defensores - é a maldita escola simbolista, invadindo o cérebro dos artistas, produzindo uma loucura suigeneris que ameaçaria arruinar a arte se espíritos esclarecidos não lhe tivessem saído ao encontro para dar-lhe decisiva batalha.

O n. 60, Estudo do nu, é mais bem trabalhado do que qualquer dos dois outros, mas ainda assim nota-se não o cunho do acabado, do completo e do definitivo, sente-se que falta ali qualquer coisa, que o corpo humano não tem aquela forma duvidosa e que esses ‘’velados’’ são simples pretextos para evitar a dificuldade do desenho rigoroso, emprestando ao quadro um tom de esboço.

O. G.


Transcrição de Fabiana Guerra Granjeia

Atualização da grafia por Andrea Garcia Dias da Cruz

O. G. ARTES E ARTISTAS. O Paiz, Rio de Janeiro, 7 set. 1897, p.3.

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