. NOTAS SOBRE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 9 set. 1895, p.1. - Egba

NOTAS SOBRE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 9 set. 1895, p.1.

De Egba

O Sr. Rodolpho Amoêdo, vice-diretor e lente da Escola, apresentou este ano meia dúzia de trabalhos que forçosamente atraem a atenção do visitante, pela maneira como são feitos. A sua pintura atual é do gênero que se chama bonita, e revela audácia da parte do artista; são tours-de-force nem sempre felizes. É muito trabalhada; as tintas são muito vivas e cruas e produzem impressão garrida e violenta.

O desenho é deficiente, sobretudo nas extremidades, notando-se certas faltas de proporção.

Dos seus trabalhos, o de n. 18 - “Passeio Matinal” tem as cores muito vivas e não se harmonizando; a luz demasiada intensa. A cabeça de mulher do primeiro plano tem certa distinção e o pequeno chapéu de sol, muito bem feito, dá uma nota muito fresca; o quadro “Refeição Matinal”, tem certa dureza; mostra mais habilidade do que arte; “Melancolia” (n. 20), é regularmente feito; agradável de mancha; não parecendo mesmo artista, discordando da última maneira de fazer do Sr. Amoêdo; o quadro “Más Notícias” (n. 21) é o melhor trabalho, que o ilustre artista expõe este ano; tem bom conjunto; a figura apresenta-se bem, parecendo mais um retrato do que um quadro de gênero. A almofada e o vestido são bem pintados. É pena que a cabeça seja um tanto dura.

Do diploma que compôs para os prêmios a distribuir-se aos expositores laureados, já dissemos em tempo o que pensávamos a respeito; resta-nos agora somente lamentar com o artista que a pobreza de elementos artísticos desta Capital não permitisse que em vez de feitos pela fototipia fossem eles gravados, o que constituiria por certo obra mais artística e mais digna da Escola.

O Sr. Almeida Junior também enviou pequeno número de trabalhos. Escolhe assuntos da vida da roça paulista que ele eleva com a sua arte, perita diretamente da natureza: tem uma certa realidade, cingindo-se talvez demasiado rigorosamente ao que vê, o que parece indicar que lhe falta imaginação.

O seu desenho não é sempre correto e sente-se por vezes certa opacidade na sua maneira de pintar.

O seu quadro “Cozinha da roça” é de bom efeito, não tanto por causa dos objetos iluminados, como dos que estão na penumbra. A figura e as galinhas são um tanto fracas de desenho. O quadro “Cena da roça” é de um bom conjunto, o motivo é bastante comum.

Tem um cavalo muito bem pintado: a “Cabeça de estudo” (n. 13), é o mais sólido dos seus trabalhos, tanto de desenho como de colorido; a “Caipora pitando” (n. 14), é um assunto pequeno para as proporções do quadro, a coloração atijolada nos impressiona como artificial; o “Recado difícil” é o mais fraco conjunto.

O Sr. Benjamin Parlagreco, irmão do Sr. Carlos Parlagreco, professor da escola, é napolitano e acha-se atualmente entre nós. Expõe seis seus quadros, todos de assuntos interessantes, principalmente para quem não conhece a vida e a paisagem de Nápoles.

É amaneirado e uniforme na sua maneira de fazer e não se salienta por grande correção de desenho.

Dos seus quadros destacam-se: o “Vigia” (n. 174), que é melhor, representa um episódio interessante, bem observado: o quadro “Bela-Vista”, é uma bonita paisagem, de colorido agradável.

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A concorrência na Exposição, ontem, foi muito grande. O Sr. Edmundo Lenzinger adquiriu o quadro “Vigia”, do Sr. Parlagreco, que já havia vendido ao Sr. Barão de Quartim o quadro “Bela Vista” e ao Sr. Jannuzzi o quadro “Órfã”.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição Vinícius Moraes de Aguiar

NOTAS SOBRE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 9 set. 1895, p.1.

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