. NOTAS SOBRE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 8 set. 1897, p. 2. - Egba

NOTAS SOBRE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 8 set. 1897, p. 2.

De Egba

Ao lado da obra do Sr. Henrique Bernardelli, também se destaca o quadro de Souza Pinto, Paisagem e animais na Bretanha, que já esteve exposto em outro lugar nesta cidade e a que já tivemos oportunidade de nos referir aqui.

Esse quadro, feito na maneira moderna do autor, é uma bela paisagem, admirável de perspectiva e tratamento artístico; e os seus animais tem corpo, tem forma e tem vida. Absorve a atenção, prejudicando de algum modo os efeitos dos quadros que lhe estão vizinhos.

Souza Pinto é hoje um artista que está fazendo carreira brilhante em Paris, e a quem a crítica europeia tece os maiores elogios. Ainda, no número de Agosto do Magazine of Art, no compte rendu do Salão, lê-se o seguinte sobre o artista português: “A luz poética com que o Sr. Souza Pinto, um filho de Portugal, banha as suas figuras não é menos deliciosa do que a distinção da sua maneira de tocar, que fazem com que seus quadros - uma mescla dos estilos do Sr. George Clausen e do Sr. Bontet de Monvel - se destaquem dos que os rodeiam”.

O Sr. Rodolpho Amoedo expõe seis trabalhos, dos quais dois são retratos e duas aquarelas.

Gostamos mais de sua obra este ano do que da do ano passado.

O retrato de Mme. L. V. (n. 16) é um belo trabalho, de boa técnica e ótimo desenho, em que o artista venceu com maestria dificuldades fáceis de perceber. O fundo do retrato é harmônico: os vestidos, muito bem feitos; e o tufo de flores rubras ao lado esquerdo do pescoço, não obstante a nota viva que imprime ao quadro, pela contraste com as outras tintas, dá-lhes o preciso relevo.

É porventura o melhor retrato da exposição e faz honra ao artista que o pintou.

O retrato de Mme. N. C. (18) é fiel, agradável de impressão e tem certo caráter.

O quadrinho Tarde de Maio é forte na cor, e as aquarelas, de boa técnica.

A exposição do Sr. Benjamin Parlagreco é bastante numerosa e impressiona bem. O Sr. Parlagreco é incontestavelmente um artista que tem talento e que sente bem a paisagem. A sua pintura tem cor e desenho. É pena que seja um tanto amaneirado e que às vezes prejudique o efeito de seus quadros com a introdução de animais, principalmente no caso atual com a vizinhança das vacas do Sr. Pinto. Devemos salientar entre os trabalhos expostos os quadros (n. 52), Margens do Rio Santo Antônio, que tem certa poesia; o n. 48, A roda do moinho, que tem muita vida e bastante perspectiva aérea e um bom efeito de sol, e os quadros 50 e 51, em que a paisagem é bem característica das terras frias.

Dos retratos, gostamos do do Sr. C. Parlagreco.

Dos três quadros expostos pelo Sr. Almeida Junior, preferimos o n. 15 Tanque Velho, em que há muita perspectiva aérea e bastante luz; o n. 13, Caçando, grande tela em grisaille, é suave mas monótona de cor, e fria e efeito.

Os dois retratos da Sra. Diana Cid, como técnica, são bem pintados e bem desenhados, mas faltos [sic] de movimento. Os fundos são agradáveis e decorativos e há certa delicadeza em todo o conjunto.

O estudo do nu, se bem que fiel em cor, é algo duro e falto [sic] de modelação.

As flores do Sr. Ernesto Papf são bem pintadas, embora a técnica seja um pouco pesada.

Os dois quadrinhos do Sr. Gustavo dall'Ara são bem desenhados, mas causam impressão desagradável pela sua cor escura.

O Sr. O. Pereira da Silva mandou apenas dois quadros em que o artista se não revela com a felicidade de costume. A Petite Jardiniére é muito bem desenhada, e a Cabeça de expressão é excelentemente pintada bem como as mãos, mas é prejudicada pelo fundo amarelo.

O Sr. João Baptista da Costa, que se acha atualmente estudando na Europa, mandou dois quadros, uma paisagem muito verde, e um quadro de flores. Nenhum deles revela ainda progresso, embora saibamos que o artista tenha se aplicado seriamente ao estudo em Paris. Dos dois, gostamos nais das flores, umas rosas bem tocadas.

O Sr. Modesto Brocos, atualmente na Europa, mandou apenas dois retratos, bem desenhados, mas desagradáveis de cor.

Gostamos também da marinha do Sr. V. Lopes Rodrigues, um operoso e modesto artista.

Poucos quadros mais restam da exposição e estes quase todos de amadores que, guardadas as devidas proporções, revelam estudo e progresso da parte dos seus autores.

O Sr. Augusto Girardet expôs 16 trabalhos de gravura em ágata, topázio, concha, aço, e em gesso, em todos nos dá ensejo de admirar a perfeição e a delicadeza de sua excelente técnica.

Será impossível destacar entre tantas peças finas e delicadas, todas trabalhadas com a consciência e a perfeição do artista consumado. Só citaremos a de n. 90, cuja delicadeza de formas, admirável em tão diminutas proporções, nos encantou.

Os gessos são bem modelados.

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O Sr. Augusto Weguelin adquiriu o pastel (n. 29), Vestal do Sr. H. Bernadelli e o Sr. Dr. Chapot-Prevost, a aquarela (n. 36) Choça Abandonada do mesmo Sr. H. Bernadelli, e o quadro do Sr. Oscar Pereira da Silva, Cabeça de Expressão (n. 80).


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição Natalia Mano Goulart Saraiva

NOTAS SOBRE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 8 set. 1897, p. 2.

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