. NOTAS SOBRE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 8 set. 1895, p.2. - Egba

NOTAS SOBRE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 8 set. 1895, p.2.

De Egba

O Sr. Henrique Bernardelli é o artista que maior número de trabalhos expõe no atual certame artístico. É um nome feito e é lente da Escola. Distingue-se tanto no desenho da figura como na pintura de paisagem; parecendo-nos, todavia, que é superior no primeiro gênero. É uniforme no conjunto dos seus trabalhos, que possuem, quase todos, bom desenho, e que são pintados quase sempre em uma tonalidade escura. É um artista operoso e que está em pleno desenvolvimento de suas aptidões artísticas, sendo muito justamente considerado com um dos melhores artistas nacionais. As suas paisagens distinguem-se por um verde escuro muito cru, são um tanto opacas, como que tendo pouco horizonte e falta de transparência no ambiente.

Dos seus quadros agrada-nos mais os seguintes: um pequeno retrato, rosto apenas (n. 56), semelhando pintura antiga, bem desenhado e expressivo, tendo sobretudo a mão na qual descansa o rosto, esplendidamente modelada; o “Repouso” (n. 67), um bom trabalho, um bem harmonioso interior de “atelier”, que recebe luz direta do janelão, muito bem desenhado notando-se, porém, um pequeno cochilo nas linhas de perspectiva da mesa etc.; um retrato (n. 56 b), vigorosamente pintado, mas de fundo falso; “Marabú”, bela cabeça de negro, com um fundo esquisito e colado à figura; as “Galinhas” (n. 53), um episódio familiar bem apanhado, mas de entonação escura; “Apadia” (n. 66), de bom efeito, de uma entonação menos escura;. “Carandaby” (n. 63), bela mancha de cor e de desenho.

Nos quadros “Prólogo” e “Epílogo”, as paisagens revelam as qualidades acima apontadas e têm figuras, que se nos afiguram deslocadas e amesquinhadas pelo vigor da paisagem. No primeiro é de muito mau efeito a figura da Índia, pouco característica, de postura contrafeita e com uma tanga inútil pela sua má colocação. No segundo, a figura do aventureiro português, morto por uma flecha, está colocada fora de foco do quadro, fazendo por isso a atenção desviar-se do interesse do episódio representado.

Gostamos também dos quadros “La Bazia” e “Veneza”, de boa entonação clara e interessante pelo motivo.

Expõe também alguns trabalhos a pastel e a aquarela, processos em que o Sr. Henrique Bernardelli se distingue, e dos quais achamos o de n. 73 - “Jambo”, bem modelado - de boa coloração e boa observação, e dois retratos bem parecidos.

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Seu irmão mais novo, o Sr. Felix Bernardelli, que trocou o arco do violino pelo pincel, e que tem andado a estudar em Roma e em Paris, mandou uns doze quadrinhos em que se nota na sua maneira de fazer certa semelhança com a de seu irmão Henrique. Não é ainda um artista feito, mas tem inegavelmente vocação artística e é feliz na escolha dos assuntos dos seus quadros.

Entre os seus trabalhos salientam-se: A “Culpa”, fraco de desenho, mas interessante de assunto, que desafiaria o pincel de um pintor de mais pulso; a “Ilha de Capú” [sic], de bonito efeito e bem entonado, em tanto escuro talvez para o ambiente Nalvano [sic], e um belo quadrinho, representando um rabequista e o seu instrumento.

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A Exposição foi ontem muito concorrida, notando-se entre os visitantes alguns dos nossos melhores amadores.

Recebeu também alguns quadros novos da Europa, do artista português Malhôa e do artista italiano Parlagreco, de que depois falaremos.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição Vinícius Moraes de Aguiar

NOTAS SOBRE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 8 set. 1895, p.2.

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