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NOTAS SOBRE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 6 set. 1896, p.3.

De Egba

Edição feita às 13h07min de 30 de Novembro de 2010 por Egba (Discussão | contribs)
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Já externamos a nossa opinião sobre a impressão geral que nos causou a Exposição de Belas Artes do corrente ano. Ao dizer, porém, que a considerávamos inferior a do ano passado, fizemos notar que havia, entretanto, trabalhos que mereciam ser vistos analisados, trabalhos que de algum modo davam interesse a esse certame artístico anual.

Vamos agora fazer os comentários que os trabalhos acima aludidos nos despertaram, externando com sinceridade nossas impressões.

Pela arrumação e arranjo dos quadros nos dois salões de que se compõe a Exposição, afigura-se que o próprio júri tratou de estabelecer uma seleção entre os trabalhos expostos, acumulando no primeiro salão os que lhe pareceram de mais valor artístico e desterrando para o segundo os que eram mais fracos. Se esse foi realmente o critério que presidiu a arrumação das obras expostas, devemos dizer que não foi ele em todos os casos rigorosamente justo.

Na primeira sala, quem entra sente logo a sua atenção atraída para dois retratos em tamanho natural do Sr. Daniel Bérard, um patrício nosso que estudou na França com Lenri Lherman e Gustavo Jacquet, e que é atualmente professor de desenho figurado na Escola Nacional de Belas Artes.

O Sr. D. Bérard veio de Paris precedido da reputação de notável pintor de retratos, e aqui justificou plenamente este conceito com os trabalhos que tem apresentado no pouco tempo que está no Rio. Trouxe-nos uma arte consumada que nos consola de não ter entre nós Carolus Duran e os Edenfelt.

O retrato de Mme. B. (n. 48) é simplesmente magnífico. A figura, soberba de beleza e de vida, destaca-se admiravelmente do fundo cinzento em uma atitude talvez um pouco espetaculosa, mas de efeito; há graça donairosa na maneira como está colocada a capa violeta, salientando perfeitamente o vestido de seda creme. A harmonia da tonalidade seria talvez mais completa, se não fosse a manga esquerda de um verde muito vivo, que dá como que uma nota demasiado aguda. O braço e a mão direitos são primores de modelado.

No retrato do Sr. G. de O., talvez não impressionando tão fortemente, há mais harmonia de conjunto, há o mesmo desenho correto, há a mesma exatidão na maneira de pintar a carne, e grande naturalidade e tranquilidade na postura. As mãos são as de um abade, ou de um parteiro, roliças, polpudas, macias, flácidas.

Devemos notar também um busto de menina, de uma adorável expressão de ingenuidade.

Aos retratos do Sr. Bérard seguem-se três pelo Sr. Rodolpho Amoêdo, que não são positivamente, dos trabalhos que tem sabido do pincel do ilustre artista, os que gostamos mais. Achamo-los secos, de uma coloração algo crua, como que colados sobre a tela e um tanto inanimados. Vê-se sempre que são feitos por um artista que sabe desenhar, mas que, por qualquer causa que não sabemos explicar, não atingiu desta vez ao nível artístico a que nos acostumou.

Há, sem dúvida, em alguns deles belos trechos de pintura, como acessórios bem feitos, mas isso não é tudo. É digno de ser visto o retrato do professor C. de C. (n.9), no qual não são tão marcados os senões que apontamos, onde o rosto é finamente pintado e toda a figura executada com certo caráter.

O Sr. Modesto Brocos também expõe três retratos, um de senhora e dois de homens. Gostamos mais do primeiro, apesar de serem todos três muito bem desenhados; mas achamo-los um tanto duros, um pouco monótonos de cor e pretensiosos nas posturas escolhidas.

Pelo pintor português Salgado há um retrato do Dr. F. de Araújo, um esboço não acabado, mas uma boa impressão forte e cheia de vida.

Entre os retratos devemos ainda citar: o de mulher (n.96) pelo Sr. Madruga Filho, cujo desenho é bom e cuja fisionomia é expressiva e o de mulher também (n.132), pelo Sr. Antonio Vianna, de um tom um pouco triste, mas de bom desenho, e que mostra que o seu autor tem talento.

O Sr. Aurélio de Figueiredo expõe diversas paisagens e marinhas e dois grandes painéis religiosos.

Estes, embora um tanto antiquados de gênero, merecem ser citados por certo arranjo de conjunto. Do seu “paraíso fin de siècle” não podemos dizer que gostamos, embora a paisagem seja interessante. Mais interessantes são as paisagens 23 e 34, em que se sente a veia poética tão característica no talento do Sr. Aurélio, e as marinhas – Brumas Matinais – de efeito fantástico, e a de n.19, bem estudada.

O Sr. J. Baptista da Costa, atualmente estudando na Europa, é o expositor que maior número de trabalhos apresenta, na sua maioria paisagens, vistas do Rio, algumas bem apanhadas, de um colorido bonito, frequentemente cru e por vezes falso. O quadro Barra da Tijuca (n.34) é bem observado e mais justo de tom, e o de n.29 tambem merece menção. O de n.38, Barreira, é bom.

Os trabalhos do Sr. Oscar Pereira da Silva, do Sr. Eliseu Visconti e do Sr. Raphael Frederico já foram ali expostos o ano passado, e sobre eles então dissemos o que pensávamos.

A obra do Sr. Oscar Pereira da Silva é bastante numerosa e interessante, e contém alguns dos melhores quadros da exposição.

O Sr. Eliseu Visconti tem diversos estudos felizes, entre os quais se destaca o de n. 138 – Risonha.

O quadro A Comunhão dá testemunho de seriedade, de propósito e de firmeza de vontade, mas recente-se ainda de certa hesitação.

O retrato do maestro A. N. é um bom estudo; há caráter na figura, que pousa bem.

Os dois quadros enviados pelo Sr. P. Weingärtner, e que mereceram tão extensa descrição, por parte do nosso correspondente em Roma, não nos agradaram. De um desenho que nem sempre é impecável, e é por vezes duro, o Sr. Weingaätner sacrifica o efeito do conjunto a um estudo demasiado rebuscado, minucioso e inútil dos detalhes. Esta maneira de pintar pode mostrar que o seu autor é hábil, mas nunca um artista verdadeiro.

O Sr. Manoel Lopes Rodrigues é muito desigual nos trabalhos que expõe; o único de que verdadeiramente gostamos, é a bela Cabeça de Velha (n.90), que parece indicar-lhe a direção a tomar.

A Sra. Bertha Worms deu-nos o ano passado coisas melhores. A sua pintura é séria, o desenho é regular, mas há certa falta de vida e de luz. O n. 69 é uma boa pochade.

O Sr. Benno Treidler tem um pincel hábil e é um bom colorista. Mandou quatro aquarelas lindas, das quais a de ns. 45 e 46, de estilo e de efeito, são as que mais nos agradaram.

O Sr. H. Bernardelli contentou-se este ano em expor dois pequenos trabalhos, um pastel regular e uma pochade graciosa.

O Sr. Lix Bernardelli mandou sete quadros que não são superiores aos que expôs o ano passado, nem pela originalidade dos motivos, nem pela sua execução. Gostamos do de n. 59.

O Sr. Henrique Tribolet, que tem seis trabalhos, é discípulo do Sr. Fachinetti. Não possui ainda a habilidade de fatura do mestre, mas faz supor que terá maior largueza de vistas e execução mais independente.

O Sr. Raphael Frederico enviou estudos regulares de atelier, próprios para preparar quadros e não para fazer parte de uma exposição.

Antes de terminar, devemos ainda chamar a atenção para os trabalhos da amadora, que se assina como o nom de guerre de Annita. Vê-se logo que se trata de uma discípula do Sr. Pacheco. Tem alguns estudos a óleo, e duas ou três guaches de um colorido bonito e agradável.

Cumpre também mencionar os nomes dos Srs. Macedo e Machado, dois talentosos alunos da Escola Nacional de Belas Artes.

Na seção de gravura, sobre pedras preciosas, os trabalhos do Sr. Enrico Girardet são das melhores coisas da exposição: gravuras todas muito finas e admiravelmente desenhadas.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS SOBRE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 6 set. 1896, p.3.

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