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NOTAS SOBRE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 5 set. 1895, p.2.

De Egba

Edição feita às 22h55min de 25 de Outubro de 2010 por Egba (Discussão | contribs)
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O Sr. Marques Guimarães, artista português recentemente chegado entre nós, é um dos expositores que maior número de quadros apresentou, revelando aptidão para todos os gêneros de pintura. Além disso, é o único concorrente à seção de arquitetura com um projeto de teatro de segurança para o Rio de Janeiro. É também escultor, e conquanto não apresentasse trabalho nenhum nesse ramo de arte, deve ter-se distinguido nele porque foi o escolhido para substituir o pranteado Soares dos Reis, de quem era discípulo e colaborador, como professor de escultura na Escola de Belas-Artes do Porto.

É, pois, um artista que veio para cá com o nome feito. Realmente, quem examina os seus numerosos trabalhos reconhece que está diante de um pintor distinto, que tem amor à sua arte, que tem sentimento, que sabe desenhar com correção e cujo colorido é simpático. Em todos os seus quadros nota-se que o artista dedica grande cuidado a tudo quanto faz, e que trata com o mesmo caprichoso esmero todos os planos das suas telas, sem contudo ser excessivamente meticuloso, nem prejudicar o efeito.

Dos seus quadros, o de n. 161 - "Um jejum de preceito" - é bem estudado, todos os diversos objetos ali representados são bem observados e parece-nos ser o mais harmonioso.

As suas outras naturezas mortas revelam, a par de muita observação, pincel fino e delicado e boa distribuição de cores.

O Sr. Marques Guimarães expõe também três paisagens - "Manhã de Inverno", "Tarde de Verão" e "Capoeiras", dos quais gostamos mais desta última, e que estão mal colocados, como aliás quase todos os seus quadros.

Os dois retratos que mandou - o de sua mãe e do artista Julião Machado - são bem tratados, principalmente o primeiro, que é muito harmonioso.

Seu, notamos também um diploma para uma associação de Caridade, feito com muito gosto e chic.

Se de alguma falta se ressentem os trabalhos do Sr. Marques Guimarães, é de certo vigor, aliás explicável.

O Sr. Marques Guimarães, que é ainda moço, já tem feito muito e parece fadado a um futuro brilhante - o que nos deve causar satisfação a todos nós, porque o Sr. Marques Guimarães é também meio Brasileiro, pois que, conquanto nascido em Portugal, é filho de pais Brasileiro.

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Uma seção interessante da Exposição é a pertencente aos artefatos da "Companhia Argentífera".

Em duas vitrinas acham-se arrumadas diversas obras de prata e metal, tais como serviços de chá e de mesa, charuteiras, cigarreiras, talheres, colherinhas de chá e de café, copos, vasos, etc., das formas as mais variadas e artísticas, e de diversos estilos.

Os trabalhos de lavor e cinzel são, realmente, delicados e revelam um gosto e um apuramento que fazem honra à nossa indústria artística e que em nada desmerecem perto do que de semelhante nos vem do estrangeiro.

Notamos algumas peças finamente esculpidas e douradas, de belo efeito.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

NOTAS SOBRE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 5 set. 1895, p.2.

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