. NOTAS SOBRE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 2 set. 1900, p.3. - Egba

NOTAS SOBRE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 2 set. 1900, p.3.

De Egba

Exposição Geral de Belas Artes - Com a presença do Sr. Presidente da República, acompanhado de sua casa civil e militar, estando presente o Sr. Dr. Epitacio Pessoa, Ministro do Interior, foi inaugurada ontem a Exposição Geral de belas Artes do corrente ano.

O Sr. Presidente da República foi recebido à porta do edifício da Escola pelo Sr. Professor Amoedo, Vice-Diretor em exercício, que acompanhou S. Ex. Durante a sua visita pelas salas da Exposição.

Parece que o Sr. Presidente da República saiu bem impressionado da Exposição, principalmente pela seção de arquitetura que lhe mereceu especiais cumprimentos.

A concorrência à abertura da Exposição foi bastante numerosa, principalmente de senhoras e de artistas.

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O número de trabalhos de verdadeiro mérito expostos é diminuto, conforme já o fizemos sentir, mas uma visita às salas de pintura deixa ver que há quadros interessantes, de grande merecimento.

Talvez tivesse causado melhor impressão, pelo menos, uma impressão mais elevada e digna, houvesse feito uma exposição menos numerosa, mas de nível superior. Ao que parece, porém, convém encher a grande sala destinada à pintura, e por isso preferiu-se fazer uma exposição em que o número dominasse a seleção.

Por nossa parte contentar-nos-emos, pois, em mencionar unicamente uma diminuta proporção dos quadros expostos:

Começaremos falando de João Baptista da Costa, que é este ano o artista que apresenta o trabalho de maior vulto, o quadro denominado - Um transe doloroso.

É uma cena dolorosa a que ele representa: o interior de um quarto em que em uma cama esterteja nos últimos arrancos da agonia uma pobre criança; ajoelhada no chão, a cabeça apoiada em uma das mãos, uma mulher ainda moça, uma mãe que soluça, e que tem a outra mão segurando o filho; em plano posterior, sentado sob o peso de um acabrunhamento profundo, está o pai, um rude operário, na imobilidade entorpecedora de uma grande calamidade. Junto à cama, de pé, uma menina olha lacrimejante e espantada para aquele espetáculo cujo mistério ela ainda não pode compreender. Um cão, o amigo dedicado e fiel daquele lar humilde, parece compreender e partilhar do drama de dor que ali está tendo o seu último ato.

Há mais do que sugestão; há grande expressão na maneira de apresentar o fato doloroso; há profundo sentimento e muita harmonia de concepção.

Pintado com grande liberdade, possui simplicidade e vigor, embora se note talvez certa desigualdade, como que certa desarmonia no acabamento.

É um trabalho, porém, que se nota imediatamente e prende longamente a atenção, e revela os admiráveis progressos que o talentoso artista tem feito. Por ele afirma-se o Sr. João Baptista tão bom pintor de figura como paisagista, e causa-nos satisfação vê-lo entrar em um novo gênero com tamanho brilhantismo.

João Baptista expõe mais três paisagens, todas elas dignas de nota, e um quadro de deliciosos pêssegos, polpudos, úmidos, verdadeiramente apetitosos.

Na paisagem, João Baptista tem uma simplicidade que agrada sobremaneira; vê-se que tem satisfação em pintar o que vê; porém vê com tamanha penetração e sente com tanta simpatia o que vê, que nunca deixa de tirar da natureza a própria comoção que ela causa. Como que nos diz com o seu pincel aquilo de que temos como que uma indefinida sensação. Há nas suas paisagens certos efeitos de luz e de atmosfera, que encanta [sic]; sente-se nelas uma simpatia íntima e profunda com a natureza, que desperta em quem as vê uma impressão indescritível como a própria natureza nem sempre produz.

O quadro Um trecho do Rio Grande é um belíssimo estudo, muito atraente e com uns gansos tão excelentes como a paisagem.

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Belmiro de Almeida tem na Exposição apenas um quadro, um pequeno retrato de menina, de que já falamos, quando esteve exposto na Casa Vieitas, com todo o entusiasmo que ele desperta.

Belmiro é um mestre consumado no desenho; e o seu retratinho exposto tem na Exposição uma nota tão especial, tão individual, tão sua e tão atraente que há de fatalmente ser um ponto em torno do qual hão de parar demoradamente os visitantes da Exposição.

Nada mais interessante nem mais gracioso do que a figurinha da menina, que se destaca do fundo de uma paisagem, que tem seu quê de primitiva, com uma saliência de recorte, viva e expressiva.

Do tratamento com que é feita a roupagem, mostra a grande habilidade do pintor e a sua técnica tão notável pela finura como pela simplicidade.

Belmiro é hoje um artista de merecimento incontestável e apreciado, e que sabe sempre criar um interesse novo com cada novo trabalho que expõe, e na atual Exposição talvez nada seduza tanto como o encantador retratinho que ele mandou.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

NOTAS SOBRE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 2 set.1900, p.3.

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