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NOTAS SOBRE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 set. 1898, p. 4.

De Egba

Inaugura-se hoje a exposição geral de Belas Artes do corrente ano.

Ontem, como é de praxe, realizou-se ali a cerimônia do vernissage, que foi bastante concorrida, embora não entrasse ainda nos costumes da nossa alta sociedade, como acontece em Paris coma abertura dos Salões e em Londres com a das exposições da Royal Academy, fazer da véspera de inauguração oficial um dia seleto, exclusivo, para a reunião dos representantes das artes e das letras, e do escol da melhor sociedade, principalmente do que ela possui de mais elegante e garrido no gênero feminino.

A impressão que a atual exposição há de produzir nos visitantes será forçosamente satisfatória e agradável, e essa impressão torna-se a tanto mais intensa quantos se produz e perdura, quando ainda há poucos dias se admirava tantos e tão preciosos exemplos da pintura europeia.

A seção de pintura compreende nada menos 254 trabalhos, representando 47 expositores na sua maioria: a de arquitetura 12, trabalhos de três exposições, e a de escultura quatro trabalhos, de quatro artistas, e a de gravuras de medalhas e de pedras preciosas, cujo único expositor é o Professor Augusto Girardet, com seis trabalhos, todos, como costuma acontecer com este artista, despertando interesse.

Em uma visita passadeira como não podia deixar de ser a de ontem, seria impossível notar imediatamente todos os quadros de valor que ali se acham reunidos. Vê-se, porem, que se trabalhos muito durante o ano, que se há telas de subido merecimento artístico, e alguns dos expositores, principalmente dos mais jovens, ascensão progressos notáveis.

Predominam muito salientemente os artistas, e embora o júri de admissão fosse ainda bastante complacente, o nível dos trabalhos expostos é muito mais elevado do que nestes últimos anos. Nota-se também que algumas amadoras, Mlle. Mary Manso Sayão e as Sras. DD. Anna [Anna da Cunha Vasco] e Maria da Cunha Vasco, pelo talento que revela, pelos progressos consideráveis que fizeram, afirmam sem direito de estar lado a lado dos mestres e dos artistas de nome feito.

Mas de espaço trataremos circunstanciadamente da Exposição. Queremos, entretanto, desde já chamar a atenção para alguns dos quadros que mais nos impressionaram.

Almeida Junior, que o ano passado pouco mandou, vingou–se bem este ano: expõe sete trabalhos, destacando-se dentre eles logo a grande tela decorativa – Partida da Monção, no estilo da escola moderna de Puvis de Chavannes, de belo efeito poético, uma soberba cabeça de Beata, uma boa cabeça de estudo, uma paisagem ao ar livre, mas um tanto fora de efeito, e um vigoroso esboceto – S. Jerônimo.

Souza Pinto, o grande pintor português, mandou o quadro En Prairie, que tanto barulho fez o ano passado em Paris, uns Cavalos admiravelmente pintados e metidos em um campo, um belo estudo ao ar livre, muito decorativo.

Madruga Filho, um pensionista do Estado que está em Paris, enviou umas magníficas paisagens, dá um toque largo e vigoroso, um retrato do Sr. Regis de Oliveira e um interessante retrato de menina do jardim.

A exposição de Henrique Bernardelli é numerosa, como de costume, e contém bons retratos como de Rodolpho Bernardelli, o do próprio artista e um pequeno de senhora, e muitas paisagens pequenas, mais bem feitas e bem observadas.

Rodolpho Amoêdo tem um retrato de Aurélio de Figueiredo, bem pousado; um dominó, que parece sair de uma aventura amoroso, e um amenina ao sol, uma sinfonia de cores muito luminosa.

De Aurélio de Figueiredo há a grande paisagem decorativa, de que já falamos por ocasião da sua exposição, e um belo estudo de por de sol.

Há dois belos estudos do nu e uns estudos, alguns bastante fantásticos, de Eliseu Visconti, um interessante quadrinho do Weingärtner, umas excelentes aquarelas Benno Treidler, dos pasteis de Parlagreco, uma marinha bastante vigorosa e uns estudos de paisagem de Joaquim Fernandes Machado, uma paisagem, uma nota muito alegre de João Macedo, umas vistas e guaches de Insley Pacheco, um retrato em forma de medalha, do Sr. Brocos, uma bela cabeça de mulher, de Angelo Agostini, duas cabeças de velho, do Sr. A. Petit, etc.

Da Sra. D. Mary Manso Sayão há seis trabalhos, quatro naturezas mortas, bem tocadas, e dois retratos, dos quais um, o da própria autora, é excelentemente pintado, coma cabeça muito bem modelada, destacando-se de um fundo quente.

Cumpre-nos também salientar as belas aquarelas das Sras. D. Anna e D. Maria da Cunha Vasco, tão largamente feitas, tão bem iluminadas, embora mostrem que as inteligentes amadoras acompanham muito de perto a maneira do mestre.

Interessaram-nos também quatro aquarelas, finalmente desenhadas e tocadas, da Sra. D. Anna Porto-Alegre, uma discípula de Pedro Américo.

Chama também logo a atenção um vigoroso retrato, crayon, do maestro Francisco Braga do artista C. Villaça.

No salão de pintura admira-se o belo esboço em barro, da imagem de S. Lucas, que Rodolpho Bernardelli vi fazer para a igreja da Cruz dos Militares, e os trabalhos de Augusto Girardet, entre os quais o modelo de medalha comemorativa de Carlos Gomes, com ótimo retrato do falecido artista.

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Ontem mesmo foi adquirido por um conhecido jornalista e sócio do Centro Artístico o quadro Velha Beata, de Almeida Júnior.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição Gisele Soares

NOTAS SOBRE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 set. 1898, p. 4.

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