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NOTAS SOBRE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 set. 1895, p.2.

De Egba

Inaugura-se hoje a Exposição Geral de Belas Artes, no edifício da Escola Nacional de Belas Artes, com a presença do Sr. Presidente da República.

Ontem efetuou-se ali a cerimônia do envernizamento, para a qual fomos convidados.

A impressão que se sente da atual exposição é que, se ela não é superior a do ano passado, não lhe fica também em plano sensivelmente inferior. O número dos quadros expostos é tão grande como o dos expostos em 1894, embora seja menor o número dos expositores.

Notamos entre estes a ausência dos Srs. Victor Meirelles, Pedro Américo, Rodrigues Lopes, Parreiras, Pedro Peres, Decio Villares, Teixeira da Rocha, Vasquez, e de todos os pensionistas do Estado.

Muitos destes artistas estão afastados da escola por motivos que a nós não incumbe indagar e outros não concorrerão voluntariamente.

Diversos artistas estrangeiros receberão convite para concorrer a esta exposição, mas, como o Governo só em data de 22 do corrente foi que autorizou a despesa a fazer-se com o transporte das suas obras, estas não poderão tomar parte na exposição.

Em compensação, aparecem no Catálogo alguns nomes novos, entre nós, como os de Mme. Berthe Worms, Srs. Marques Guimarães, Alvaro do Valle, H. Darier, Carlos de Lacerda Malevolli [sic], Eugenio Teixeira, que não fazem figura somenos nesse certame artístico.

Em uma primeira visita não é fácil destacar logo as obras que mais dignas sejam do apreço geral.

Há quadros bons e que fazem honra aos artistas que os assinam, mas não nos parece que haja nenhum que se destaque tão superiormente dos outros, a ponto de isolá-lo como a obra prima do ano.

Quando se entra chama logo a atenção do visitante um quadro do Sr. Rodolpho Amoêdo, (n. 18) - Passeio Matinal, em que esse procurou harmonizar o verde cru, com o encarnado vivo, o branco e o amarelo, e que produz um efeito que não se nos afigura positivamente simpático. Nesse quadro notam-se as qualidades de pintor do Sr. Amoêdo, mas somos de opinião que a cinza das cores e a incorreção do desenho prejudicam o efeito de um assunto aliás feliz. O outro quadro que atrai logo a atenção geral é a grande composição alegórica do Sr. Belmiro de Almeida, a Aurora do Quinze de Novembro, quadro decorativo de grandes proporções, em que o artista foi bastante feliz na composição, e cuja execução acusa todas as suas grandes qualidades de desenhista e colorista.

Entre as paisagens, notamos: dois quadros dos Sr. Belmiro de Almeida, que produzem uma nota individual no conjunto geral, uns estudos de efeitos de sol, sobre a paisagem de um verde claro e quente, e um de uma manhã coberta de véus diáfanos de nevoeiro; do Sr. Benjamim Parlagreco, irmão do conhecido professor da nossa Escola e morador de Nápoles, duas boa paisagens, 173 e 174 – a primeira, com duas figuras muito bem metidos [sic] e muito bem pintados no primeiro plano, e um fundo bem indicado; a segunda é uma sentinela perdida no meio de uma mata, junto a uma fogueira, na qual aquece as mãos; os quadros do Sr. H. Bernardelli, bem observados, dando a entonação da nossa vegetação, com colorido talvez um tanto monótono; uns belos estudos das montanhas de Minas, do Sr. Aurélio de Figueiredo, em que há uns admiráveis efeitos de névoas nas montanhas; uma paisagem (n. 24) do Sr. Angelo Agostini, representando um trecho de mata, com uma linha férrea e umas figuras de índios; o lindo quadro do Sr. Fachinetti, representando a pedra de Itapuca, de que já falamos nestas colunas, e que é um perfeito espécime do estilo peculiar deste artista; três quadros da Sra. D. Maria Agnello Forneiro, discípula do Sr. Fachinetti, e que o acompanha no seu modo artístico; a “Vista do Rio Caravellas” (n. 106) e “Campo de Queimados” (n. 110), do Sr. Brocos, bem entonados; alguns trabalhos do Sr. Alberto Delpino.

No retrato, nesse difícil gênero de pintura é muito limitado o número dos trabalhos expostos; notam-se, porém, os seguintes: os ns. 128 e 130, pela Sra. D. Diana Cid, bem desenhados e harmoniosos; do Sr. H. Bernardelli, três trabalhos, um retrato, de mulher, pintado e desenhado com vigor, e, os outros dois, em pastel e bem semelhantes; do Sr. Belmiro de Almeida, (n. 49), semelhantes e com caráter; de Mme. Berthe Worms, o retrato da Sra. D. Julia de Almeida (n. 96), pintado com chic e em que é bem acentuada a fisionomia da distinta escritora; do Sr. Marques Guimarães, o retrato da mãe do artista (n. 157) cuidadosamente pintado, e o retrato do Sr. Julião Machado (n. 158), um tanto fantasista.

Entre os quadros de gênero, merecem menção: do Sr. Brocos, o quadro n.101, a “Redenção de Chain” [sic] de grandes proporções em que há quatro figuras, uma preta velha, uma mulata filha, e seu netinho já quase branco e o pai deste, de pura raça caucasiana e no qual o artista procurou mostrar as gradações do cruzamento, da raça branca com a raça de cor, bem pintado e bem desenhado, sobressaindo a figura da preta, feita com grande verdade, e a “Feiticeira” (n. 103), igualmente bem pintado e com muito caráter; do Sr. Álvaro do Valle, os quadros “Junto ao Fogão” (n. 16) e o “Proletário” (n. 17), o primeiro de uma entonação apropriada a um interior, e o segundo pintado com expressão; do Sr. Felix Bernardelli, alguns quadros simpáticos, destacando-se o de n. 82, a “Culpa”; do Sr. Henrique Bernardelli, o interior de “atelier” (n. 67 - “Repouso”) o modelo descansando sentado, lendo, bem desenhado e bem composto; os “Galinhos”, (n. 53), episódio familiar brasileiro bem interpretado, e a aquarela “Livre Operário” (n. 75), que é bem desenhada e pintada com largueza; do Sr. Belmiro de Almeida, a “Cega de Narni” (n. 52), bem sentido e fino de cor; “Lieta” (n. 51), comunicativo e modernamente pintado, e Ciociaretto (n. 50); do Sr. Almeida Junior, os quadros: Cozinha da Roça (n. 10), bonito efeito de interior, o Caipira pitando (n. 14), bem pintado; do Sr. Rodolpho Amoêdo, Más Notícias (n. 21), cabeça bem pintada e expressiva; do Sr. Aurélio de Figueiredo, os quadros: n. 27, o Gatinho, com duas figuras de criança bem pintadas; Quer Uvas (n. 26), uvas bem feitas; o Ruído da Concha (n. 31), uma menina tendo ao ouvido uma concha pintada com verdade; do Sr. Weingärtner, um retrato de uma senhora vestida à japonesa em um ambiente japonês, meticulosamente pintado.

No gênero natureza morta, destacam-se: “Peixes” (n. 4), pintados com frescura e “Cebolas” (n. 6), um belo estudo a pastel, do Sr. Pedro Alexandrino; “Mangas” (n. 40), do Sr. João Baptista, largamente pintado; “Um jejum de preceito” (n. 161), bem feito e harmonioso; “Copo com Camélias” (n. 159), e “Uma Camélia em um copo de água”, (n.165), em que as flores são finamente pintadas e “Aperitivos” (n. 163), pintado com verdade, do Sr. Marques Guimarães.

A Exposição é pobre de marinhas; nota-se apensas uma pequena “pochade” do Sr. Lacerda, e uma outra do Sr. Castagneto.

Na seção de escultura dois trabalhos, a Vida e a Morte, da Sra. D. Adelaide U. da Silveira, regular para uma amadora; e a “Moema” do Sr. Rodolpho Bernardelli, um esboço em gesso, modelado com grande verdade.

A seção de arquitetura tem um único expositor, o Sr. Marques Guimarães, que apresenta diversos prospectos e plantas de um teatro de segurança para o Rio.

A seção de gravura de medalhas e pedras preciosas tem também um único expositor, o Sr. Augusto Girardet que apresenta uma medalha comemorativa da inauguração da estátua do general Osório, e alguns trabalhos em pedras duras, que são cuidadosamente tratados.

Na seção de gravura em água forte igualmente se apresentou um único expositor, o Sr. Antonio Piccinni, que é um artista de muito valor e consciencioso. Destacam-se entre os seus trabalhos o Avaro (n. 197), soberba composição e perfeito desenho; o Contador de histórias (n. 198) e o Salve Regina (n. 199), que são vigorosamente feitos.

Na seção de litografia, um bom retrato do almirante Saldanha da Gama, pelo Sr. Valle de Souza Pinto.

A seção de artes aplicadas é muitíssimo pobre; apresentou-se apenas o Sr. Benedicto Filho, com três trabalhos.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

NOTAS SOBRE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 set. 1895, p.2.

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