. NOTAS SOBRE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 12 set. 1901, p.3. - Egba

NOTAS SOBRE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 12 set. 1901, p.3.

De Egba

Exposição de Belas Artes - Se é possível, temos ainda maior nossa satisfação ao apreciar os esforços dos que ora começam a aparecer, porque, se os seus trabalhos por via de regra não apresentam as perfeições de técnica nem a cabal realização dos temas como os dos mestres, esses esforços, justamente por demandarem maior energia e persistência, são mais dignos de animação e revelam a sua sinceridade no desejo de exibir o resultado da sua aplicação.

Essa prova de vontade de trabalhar, essa tentativa de querer fazer alguma coisa que seja digna de figurar ao lado dos trabalhos dos mestres, se nem sempre se impõem à nossa admiração, nunca deixam de fazer jus ao nosso respeito.

O interesse na exposição dos moços está, em geral, menos no grande valor dos seus trabalhos do que no muito que esses prometem para o futuro. Ainda assim, na atual Exposição há trabalhos que são verdadeiras surpresas e revelações, e acreditamos que os próprios professores não se desdenhariam de assiná-los.

Cabe de direito a primeira menção nesta notícia ao Sr. Joaquim Fernandes Machado que entre outros mandou um quadro, que é uma das obras mais admiráveis da atual Exposição, tanto pela sua concepção como pela execução feliz que lhe soube dar o artista, e que nada fazia presagiar, apesar de já se haver revelado pintor de talento em anteriores exibições.

Realmente, o seu quadro - O Sonho de Jacob - coloca-o em um plano superior e constitui um compromisso sério a que o artista por honra sua tem de fazer justiça no futuro.

Não é a primeira vez que o Sr. Machado procura, como em geral o tem feito todo artista ambicioso de fazer uma obra duradoura, na Bíblia tema de seu quadros. Para as composições idealistas, as grandes inspirações são ainda a religião, a mitologia e a alegoria; e das três não há dúvida, que a primeira é a que fala mais diretamente e mais naturalmente ao espírito do homem. Na época presente, porém, para ser bem sucedido é preciso fugir à tradição das composições banais que têm representado em inúmeras telas quase todos os episódios da Bíblia. É necessário, aproveitando-se dos novos elementos fornecidos pelas diversas evoluções por que passou a arte no último século, fazer uma composição que ao mesmo tempo que traduza o espírito do assunto histórico ou imaginoso, o apresente debaixo de uma feição decorativa, em cores vaporosas, impressionando docemente, sem contrastes violentos nem abalos fortes. É necessário aproveitar os novos elementos de que dispõe a pintura moderna, Parece-nos que foi essa a compreensão que teve o Sr. Machado na interpretação do seu assunto, porque são bem evidentes nele as intenções decorativas e não se nota o menor indício de imitação. O tema é apresentado com singular finura e delicadeza. A figura de Jacob, bem desejada está em atitude que, conquanto não comum, não é forçada e é indicativa de fadiga, natural depois de uma longa jornada; e a cabeça descansa sobre as pedras que, diz a Bíblia, tomou ele para travesseiro. O fundo da paisagem em que vagamente representa o sonho do patriarca, é bem imaginado e bem executado; a combinação de cores, conquanto rica, é inteiramente harmônica e produz um belo efeito decorativo, e as figuras dos anjos que sobem e descem a escada, mais sugeridas do que pintadas, pode-se dizer, tem a diafaneidade, como que a imaterialidade do sonho.

Pode ser que não seja inteiramente isenta de defeitos, que não descortinamos, tão boa foi a impressão que nos produziu; mas o que ninguém poderá pôr em dúvida é que é um dos trabalhos mais notáveis da Exposição, tanto mais por partir de um moço que, por assim dizer, enceta agora a sua carreira. Há nele qualidades que, se forem sabiamente desenvolvidas e aperfeiçoadas, podem dar um pintor idealista.

O Sr. Augusto Luiz de Freitas, ex-aluno da Escola e que na Exposição de 1898 tirou o prêmio de viagem, acaba de chegar da Itália e apresenta os trabalhos que aí pintou durante a sua ausência do Brasil.

Vê-se que não desperdiçou o seu tempo e que trabalhou com afinco e com proveito.

Os seus trabalhos, que são bastante numerosos, revelam que toda a preocupação do artista foi aperfeiçoar-se na técnica da sua arte, estudar, sem intentar fazer grandes quadros de composição. E os numerosos trabalhos que trouxe, tanto a óleo como a aquarela, mostram que, no escasso tempo de que dispôs, fez muito, progrediu bastante e voltou com uma fatura mais segura e mais sólida, se bem que muito amaneirada à italiana, e talvez com a cor um tanto opaca. Este, porém, são senões a que ele não podia fugir, e que agora, em outro meio, trabalhando sozinho, há de facilmente modificar.

Entretanto, os seus trabalhos são muito interessantes, estudos de pontos pitorescos apanhados com certa felicidade, e o seu quadro n. 72 - Abandonada - feito com certo apuro, tem composição e sentimento, e possui certos detalhes pintados com [...] e cuidado, como o efeito de luz que entra pela janela, muito bem tratada, como bem tratado é o pano que cobre o berço. É um quadrinho de gênero bem atraente.

Também devemos especializar: o quadro n. 81 - Confidências - em gravura mais clara, as figuras bem desenhadas, os valores bem exatos e de grande estudo; e o n. 73, o melhor talvez de cor.

O Sr. Fiuza Guimarães, ex-pensionista da Escola, mandou três trabalhos que são bons como estudos, e revelam que o artista aproveitou muito na grande escola de Munique, hoje em dia centro incontestável da arte na Alemanha e notável pela sua independência.

Os modelos escolhidos pelo Sr. Fiuza não são simpáticos, mas não há negar que o artista soube tirar bom proveito deles, apresentando três espécimens de pintura sólida e de bom modelado.

As Sras. D. Anna da Cunha Vasco e D. Maria da Cunha Vasco apresentam este ano estudos em aquarela que confirmam a impressão agradável causada nas anteriores exposições.

Os seus progressos são evidentes, e acompanhando, como era natural, a maneira do professor, se não tem, como não podem ter ainda, a largueza, segurança e firmeza de toque deste, possuem já o conhecimento das relações das massas e já sabem dar expressão às variações de luz e de sombra. Vê-se que o Sr. Treidler ensina as suas discípulas a verem, incute-lhes o hábito da observação correta e inteligente; leva-as ao verdadeiro impressionismo, isto é, ao desejo de pintar as coisas, não como a análise científica mostra que elas são, mas conforme o aspecto que tomam sob as diversas condições de atmosfera, e consideradas sob o ponto de vista da pintura.

Isto também já se revela nos trabalhos de outra discípula sua a Sra. D. Maria Herminia Lisboa.

O Sr. Eugenio Latour, discípulo da Escola, tem três quadros bem interessantes, tanto pelo assunto como pela fatura. O denominado Antes de sair - o busto de uma mocinha em perfil, que dá os últimos toque ao seu vestuário, é muito gracioso na sua cor delicada, tem expressão, pureza de desenho e uma fatura muito fina; e o quadro n. 110 - A féria do dia - um velho cego, com a sanfona debaixo do braço, vem por uma estrada, ao lado de uma menina, que conta as moedas que a caridade pública lhe deixou no boné. A paisagem tem o tom próprio do cair da tarde; o assunto é tratado com sentimento; e O Pequeno trocista (N. 112), também estudo de plein air, em que venceu com felicidade certas dificuldades.

O Sr. Benjamin Constant Netto, que foi discípulo do falecido e malogrado Almeida Junior, mostra na sua fatura que não lhe foram inúteis as lições do mestre.

O seu estudo de cabeça é feito com a mesma preocupação de modelado e tom sombrio de cores, que caracterizava o seu professor nesse gênero de trabalhos, e os seus quadros - 6 [sic] Laranjas, e 6 - Peixes - são pintados com essa expressão de realidade de efeitos, que unicamente tornam aceitável esse gênero de pintura. A sua técnica é boa e há muito a esperar dele para o futuro.

O Sr. Heitor Malagutti, outro aluno, - da Escola, apresenta trabalhos em que revela certo talento, mas que dão a impressão de não estarem acabados. O artista parece que tem a preocupação de ser original, à maneira talvez de Carrière, envolvendo as suas figuras em um véu através do qual nada de positivo se destaca. Pinta toda a carnação com o mesmo tom.

O Sr. Evanio Nunes [sic], outro talentoso aluno da Escola, tem dois trabalhos: a Visão no Carcere - Tiradentes, agradável de composição e muito harmônico; e Mãe (62), interessante e de certo sentimento e fatura fina.

O Sr. Lucilio de Albuquerque, também aluno da Escola, uma graciosa cabeça de menina, pintada com certo donaire; e o Sr. Heitor Costa, um quadro 94, - Reveuse, com a figura bem desenhada, mas que por mal colocado, não pode ser bem observado.

Cumpre citar também as marinhas do Sr. Ribeiro Filho, um amador que se está fazendo artista à custa de talento e de trabalho, e de grande paixão pela especialidade que abraçou; e o Sr. Bolato, aluno da Escola, que expôs dois trabalhos ao ar livre, bem feitos, o quadro de n. 23, e estudo n. 24.

Na próxima notícia trataremos das seções de escultura, arquitetura e gravura.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

NOTAS SOBRE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 12 set. 1901, p.3.

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