. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 6 out. 1906, p. 3. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 6 out. 1906, p. 3.

De Egba

Há na Exposição de Belas-Artes um pequeno quadrinho representando uma paisagem pernambucana, um coqueiro a desfolhar-se no primeiro plano; uma estrada por um areal, onde caminha um transeunte; umas mangueiras em planos secundários, no fundo a mata característica daquela região e uma nesga de céu.

O quadro não atrai à primeira vista nem pela sua tonalidade, que não é quente nem vibrante, nem pela sua fatura, que não é vigorosa nem larga.

Mas quem o observa de perto e com vagar nota que o seu autor não é um principiante nem um vacilante; a sua execução é um tanto amaneirada, mas com a firmeza de toque, a solidez de pincelada, a verdade de tons, de quem não é leigo na ciência dos valores nem bisonho nas regras do desenho. Se tudo é muito minuciosamente tratado, não há erros de desenho e tudo é pintado com a arte de quem sabe ver, e transmitir de modo agradável a impressão que a natureza lhe causou, conhece-se que o autor dessa paisagem é um pintor alheio à corrente mais moderna da arte europeia e que a sua maneira, qualquer que seja o modo de apreciá-la, não se parece com a de ninguém e trai um artista que se tem desenvolvido independentemente de qualquer influencia estranha.

Realmente, trata-se de um artista brasileiro, que, domiciliado há muito em Pernambuco, se tem dedicado à interpretação da paisagem daquele estado. É autor desse quadrinho o Sr. Telles Junior; e apesar de ter o trabalho em questão bastante valor, o artista não deve só ser julgado por ele, pois que, mesmo aqui no Rio de Janeiro, há bom número de trabalhos seus que mostram de modo mais saliente as suas qualidades.

Quem escreve estas linhas esteve recentemente em Pernambuco e procurou muito conhecer pessoalmente o Sr. Telles Junior; mas, infelizmente, não o conseguiu. O artista morava em um arrabalde muito afastado do recife, e andava sempre fora no campo, a procurar assuntos para pintar.

Consta-nos que o artista não é moço; mas, não nos lembra ter visto trabalho seu em nenhuma das anteriores exposições, e não gostaríamos de deixar passar sem menção um artista que tem tido a perseverança e a coragem de trabalhar em um meio tão pouco simpático, produzindo uma obra, que pode não ser perfeita, mas que é pessoal e sincera.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 6 out. 1906, p. 3.

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