. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 set. 1906, p. 3. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 set. 1906, p. 3.

De Egba

Exposição geral de Belas Artes - Inaugura-se hoje, ao meio-dia, a 13ª exposição geral de belas artes, com a presença do Sr. Presidente da República.

Ontem, com de costume, realizou-se ali a cerimônia do vernissage a que compareceram o Sr. Ministro do Interior e sua esposa, muitas senhoras e inúmeras pessoas, principalmente artistas, jornalistas e homens de letras.

A exposição deste anos [sic] é difícil de se caracterizar, embora não deixe de conter muitos elementos que hão de torná-la bastante interessante.

A nota que fere logo aos que tem sido frequentadores habituais destas exposições, é a abstenção quase absoluta dos artistas mais maduros: nem o Sr. Henrique Bernardelli, nem o Sr. Rodolpho Amoedo, que sempre, enquanto faziam parte do Corpo Docente da escola, se mantiveram na estacada, sendo anualmente representados por trabalhos de certo fôlego, este ano enviaram sequer um pequeno cartão de visita.

Seria longa a lista dos absenteístas. Dos atuais lentes da Escola o único que comparece e com uma exposição valiosa tanto pelo número como pela quantidade é o Sr. João Baptista da Costa; a sua eleição foi, porém, tão recente, que de modo algum pode ter tido grande influência na sua representação. Elyseo Visconti, que também tem sido nos últimos anos um expositor constante e valioso pela qualidade e quantidade das suas telas, nada mandou, ocupado como naturalmente se acha em Paris, com a elaboração das pinturas murais e do pano de boca para o Teatro Municipal. É pena que não pudesse se fazer representar pelos quadros com que entrou ao Salão este ano, e dos quais nos contam maravilhas patrícios nossos que tiveram a fortuna de os ver ali.

Causa também impressão ao visitante a grande quantidade de quadros de artistas estrangeiros, que seria fato realmente lisonjeiro para nós, se houvessem sido enviados pelos seus autores, em vez de serem, como realmente são, expostos pelos seus possuidores, que os adquiriram fora do país.

Em todo caso, como são, na maioria, trabalhos de merecimento, de artistas quase todos de nomes feitos na Europa, não há negar o valioso serviço educador que prestam tanto ao público como aos próprios artistas, com a sua presença ali.

Dos nossos artistas, há um grupo regular de expositores constantes:

Os Srs. Brocos, Treidler, Rafael Frederico, Gustavo Dall’ara, A. Petit, A. Delpins [sic], etc.

E estes lá estão todos representados com meia dúzia de notas bem típicas.

A feição mais característica da exposição este ano, a que constitui o seu lado mais simpático e a que há de torná-la memorável, é a figura que nela fazem os jovens artistas, aqueles que apenas agora começam a aparecer, alguns dos quais surgem até pela primeira vez este ano.

Parece que abstenção dos professores se explica na brilhante amostra dos esforços dos novos, como querendo aqueles serem representados de preferência pelos resultados do seu ensinamento que pelos esforços próprios.

Os trabalhos expostos acusam intenções artísticas de ordem séria; desapareceram quase totalmente os quadros de natureza morta mais ou menos mal pintados, e em seu lugar vemos trabalhos de figura e de paisagem, em que se acusam o esforço aturado, o estudo consciencioso do natural, a procura da correção do desenho e da técnica. E tudo isso, se não constitui ainda realidade indiscutível, dá as mais risonhas e esperançosas promessas de mais uma boa meia dúzia de artistas distintos que virão honrar a arte brasileira.

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Na Exposição atual, o quadro que ocupa o lugar de honra e mais saliência tem, é essa esplêndida paisagem de Malhôa, denominada As Cócegas, que o Governo em boa hora adquiriu para a nossa pinacoteca.

De Malhôa ainda se podem ver na Exposição os quadros: Soalheira, o 7º Não furtar ... as uvas do Sr. Reitor e as Cebolas, a Compra de votos - que fizeram parte da sua recente exposição no Gabinete Português de Leitura, onde foram muito admirados.

Tratamos então minuciosamente de cada um desses quadros, e agora só nos resta felicitar o público por ter ainda ocasião de apreciar os trabalhos de um pintor que é um mestre moderno na mais lata acepção da frase.

João Baptista, que, guardadas as diferenças que caracterizam as artes tão individuais dos dois artistas, se pode dizer é o nosso Malhôa, pois que é o artista que pinta com mais cunho nosso a nossa natureza, tem meia dúzia de paisagens esplêndidas, quase todas de temas tirados da Copacabana,. João Baptista não é propriamente dito um colorista no sentido de se deixar dominar pelas cores brilhantes e luminosas da natureza. É um melancólico, e ainda nos seus quadros mais cheios de luz, se trai essa feição do seu temperamento. Os verdes, porém, da nossa paisagem, as horas em que a luz do Sol menos dominador se mostra, os cambiantes de cinzento, ele pinta tudo isso com um pincel mágico como um artista em quem a exteriorização, isto é, a faculdade de exprimir a impressão e a sensação que lhe produzem as cenas da natureza, é extraordinariamente exata e reveladora da fina vibratilidade do temperamento do artista.

Da sua técnica, já nada há mais a dizer, e quando os seus temas se coadunam em perfeita harmonia com as suas preferências e simpatias pessoais, como parece haver-se dado com alguns dos seus menores quadros, a execução é impecável, fazendo verdadeiras joias. O seu quadro de maior fôlego na exposição, uma paisagem do Leme [Imagem], com figuras, no primeiro plano, um trecho d’água em que nadam gansos no intermédio, e rochedos e verdura no fundo, não nos impressiona tão satisfatoriamente, apesar da sua vigorosa fatura. Todo o fundo é magnificamente pintado; mas, parece-nos que falta no primeiro plano intermédio nas figuras e nos gansos algo que não podemos precisar, mas que não nos deixa fruir em toda a plenitude o encanto do quadro.

Benno Treidler tem uma grande aquarela, cheia de cor, em que seu modo largo de manchar dá o efeito geral da paisagem, numa impressão generalizada, com o ambiente atmosférico criado pelas ondulações de luz. Tem também um bom auto-retrato, feito em traços largos, mas com bastante caráter.

Belmiro, que há muito anos não expunha, tem um pequeno quadro de gênero cômico, de grande finura de desenho, cheio de vitalidade, e cujo tom grotesco se funda na natureza. Consta-nos que existem dois trabalhos seus de maior fôlego, mas que não podem ser já pendurados por se acharem ainda na Alfândega.

Brocos mandou um retrato, uma marinha a óleo, e uma água forte; gostamos mais desta última. É o retrato do Sr. J. J. Seabra, um bom retrato como semelhança e uma excelente obra como trabalho de arte. Consta-nos que foi mandado fazer para a galeria dos titulares da pasta do Interior e Justiça, e constitui um exemplo digno de louvor, não só por ser a água forte um processo muito mais artístico do que a fotografia, como também mais duradouro.

Aqui podemos também incluir os excelentes quadrinhos do Sr. Rosalvo Ribeiro, porque, se é um novo expositor, não é precisamente um novo. Rosalvo Ribeiro estudou em Paris com Raphael Collin e, se não nos enganarmos com Detaille e expôs frequentes vezes no Salon, principalmente quadros de assuntos militares, que tiveram referências elogiosas na imprensa parisiense.

De volta a Maceió, sua terra natal, tem sido obrigado a ocupar-se de outro mister para ganhar a vida, mas nunca abandonou os pincéis, e os seus quadros na Exposição mostram que ele é um artista sólido, de desenho seguro e correto e palheta limpa e nada pobre. O seu quadro de assunto militar é muito bem feito e muito agradável e as suas pequenas notas de paisagem são deliciosas de espontaneidade, frescura e verdade e tocadas com mão de quem sabe.

Cabe aqui também dizer das aquarelas das senhoritas Cunha Vasco [Anna da Cunha Vasco e Maria da Cunha Vasco], que, pelo saber que esses trabalhos revelam, conquistam lugar muito honroso numa exposição. É um prazer ver moças tão jovens completamente absorvidas pelo estudo e pelo amor da arte, e as suas aquarelas este ano, notas de impressão de grande verdade e largamente manchadas, são verdadeiros primores.

O paisagista D. J. e Vasquez [sic] expõe duas paisagens pintadas em Teresópolis, que revelam quanto este inteligente e estudioso artista tem progredido ultimamente. A sua palheta é atualmente muito mais limpa e mais quente, e os seus céus são mais transparentes e luminosos. E como ele teve sempre um desenho sólido e boa fatura, e um espírito delicadamente vibrátil, os seus quadros são duas esplêndidas notas da pitoresca cidade das montanhas, traduzidas com grande felicidade de execução, e isto sentirão todos aqueles que, como escreve estas linhas, conhecem e amam aqueles pitorescos sítios.

Outro artista que há muito não aparecia nas nossas exposições, o Sr. Arthur Lucas, tem duas excelentes figuras a pastel, com a delicadeza e o aveludado próprios desse veículo.

Dentre os novos, aparecem fazendo figura brilhante e jus a encômios pelos seus labores durante o ano, os Srs. J. [João Timotheo da Costa] e A. Timotheo, Eduardo Bevilacqua, A. Fernandez, C. Chambelland, J. Manna [sic], Carlos Oswald e Lucilio de Albuquerque.

Os trabalhos desses moços, se não podem escapar a reparos, revelam qualidades muito apreciáveis de fatura e de concepção, incontestável talento nos seus autores e, coisa mais interessante, individualidades distintas que naturalmente com o tempo se hão de acentuar mais claramente.

Não podemos agora tratar especialmente de cada um deles, mas voltaremos mais detidamente a examinar os seus trabalhos.

Entre as amadoras que expõem, umas são já nossas conhecidas como a senhorita Esther Dell-Vecchio [sic] e Mme. Labouriau, e a senhorita Irene Ribeiro e outras, como a senhorita Nair de Teffé, expõem pela primeira vez.

A senhorita Ester Del-Vecchio tem três estudos de paisagem, vistas tiradas do Passeio Público, que revelam os extraordinários progressos feitos pela distinta amadora nestes últimos dois anos. Como é natural, em pessoa tão jovem, a sua maneira assemelha-se muito a do seu mestre, o Sr. João Baptista, e constitui um elogio muito honroso para ela o fato de se poder à primeira vista, confundir-se a autoria dos seus trabalhos.

A verdade é que tem muito talento, já sabe ver e sentir a paisagem e exteriorizar de modo atraente as impressões que a natureza lhe produz, e isso já é quase tudo.

Com mais estudo e trabalho, e com a boa direção que tem, há de vir a ser uma amadora do mesmo plano dos bons artistas.

Mme. Labouriau mandou apenas dois quadros com rosas muito bonitas, muito odorosas, e com certo modo vago de pintar, que encanta.

A senhorita Irene Ribeiro tem um agradável retratinho de menina sentada, muito interessante de fatura e de boa compreensão e vida.

A senhorita Nair de Teffé tem alguns trabalhos de figura a pastel, que, embora não isentos de defeitos, agradam revelando estudo e aplicação na autora.

Ouvimos dizer que esta amadora iniciou os seus estudos em Paris, com Bouguereau, falecido o ano passado.

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A secção de gravura sobre pedras e medalhas, que sempre chama a atenção nestas exposições, embora constituída por único expositor, não deixa este ano de inspirar o mesmo interesse. Augusto Girardet não esteve inativo e os seus modelos em gesso das medalhas em honra do Arcebispo Arcoverde, do Rei Humberto, do Dr. Francisco Pereira Passos, são dignos exemplos da sua fina arte.

É pena que não faça parte da exposição um exemplar da sua medalha comemorando a passagem pela administração superior do país, do Sr. Dr. Lauro Muller, a qual contém um tão fino retrato do referido Ministro.

O ilustre artista expõe também um interessante baixo-relevo em gesso, com duas figurinhas de crianças.

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A secção de escultura se não contém muitos trabalhos, nem por isso deixa de ser interessante e de merecer visita e exame demorado.

Corrêa Lima tem um busto em gesso, tamanho natural, do falecido Almirante Custódio José de Mello, que, como retrato em escultura, faz honra ao artista. A sua estátua em gesso, de um trabalhador com uma picareta na mão, é excelente de anatomia, de modelado e de postura, mas a cabeça ajusta-se mal no tronco e não tem caráter próprio.

A Sra. Julieta França, que esteve estudando em Paris, como pensionista da Escola, tem alguns trabalhos de figura e um projeto de monumento, que revelam progressos na técnica da artista: um busto de mulher, feito com certa simplicidade, agradou-nos especialmente.

A Sra. Nicolina de Assis, outra patrícia nossa de talento, que também chegou há pouco da Europa, expõe apenas dois trabalhos em bronze: uma bela composição para encimar uma fonte, feliz de inspiração e com fatura larga e um busto de menina, muito gracioso, um retrato fantasia, evidentemente, mas trabalhado de técnica.

Esses trabalhos mostram os progressos feitos por essa artista e justificam os elogios que lhe fez o escultor Mercier.

Nessa exposição há ainda um bom trabalho, de um aluno da escola, o Sr. Honorio da Cunha Mello.

Elast [sic] but not least, um pequenino busto em bronze por Belmiro de Almeida, um fino retratinho, feito com muita “verve” e muito espírito e desenho, e revelando mais uma feição interessante desse talentoso e original artista.

Na mesma sala onde está a secção de escultura, a Sra. Joanna Brandt, que já no ano passado apresentara trabalhos interessantíssimos de arte aplicada, tem uma vitrina com belos trabalhos de couros bordados, dignos de serem vistos.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 set. 1906, p. 3.

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