. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 9 set. 1913, p.6-7. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 9 set. 1913, p.6-7.

De Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES - Ainda tratando dos novos, temos que nos referir aos Srs. Annibal Pinto de Mattos, cujo quadro “Solidão” é impregnado de poesia; Gutmann Bicho, cujo temperamento ardoroso se revela nos seus trabalhos, mas que ainda precisa estudar muito; Miguel Capllonch, com um grande quadro inspirado em Wagner, demonstrando que os estudos feitos pelo artista na Europa não habilitam ainda a arcar com temas de tal magnitude; Mario Navarro da Costa, que visivelmente faz progressos na especialidade que adotou, e expõe uma marinha interessante, com um belo efeito de vibração de luz produzida sobre a superfície d’água; B. Bourdon, que não se fez representar tão bem quanto era de esperar de um jovem artista que já tão boas provas tem dado de si; Edgar Parreiras, com paisagens de uma tonalidade muito crua, etc.

Dos artistas mais velhos, ocupa facilmente o primeiro lugar João Baptista da Costa.

Pode haver quem não goste da sua pintura, mas não há quem possa passar indiferente diante dos seus quadros; e o ilustre artista se impõe a todos pela continuidade retilínea do seu esforço, pela massa sólida da sua obra.

É difícil, principalmente para um artista já de há muito feito, revelar em cada novo trabalho que expõe, progresso acentuado sobre os trabalhos anteriores; e quando ele já conseguiu atingir um nível elevado e saliente, não é pouco manter-se persistentemente na alta posição conquistada.

É o que ainda faz João Baptista da Costa com as sete obras que mandou para a Exposição.

Das duas paisagens maiores, as preferências se dividem entre as denominadas A caminho do curral e Tranquilidade.

A primeira contém excelente perspectiva e um empolgante efeito de serenidade campestre, que não é isento de poesia e parece pintada mais diretamente.

A segunda, pintada na hora predileta do artista, tem água, no primeiro plano, e toda a mata que se reflete na penumbra e os planos posteriores, montanhosos, brilhantemente iluminados pelos sol que declina, é também uma obra vigorosa e verdadeira.

Cheia de frescura e de espontaneidade direta são as suas outras telas menores, principalmente as de ns. 32 e 36.

O Sr. Visconti acha-se muito mal representado este ano, e, se não fosse a sua paisagem de Santa Teresa, que é realmente fina, teríamos que passar por seu nome sem a menor referência.

O Sr. Fiusa Guimarães tem dois trabalhos, um estudo de cabeça, já velho, e um quadro alegórico de grandes pretensões de que não gostamos nada.

Esse quadro é intitulado a Guerra, e foi inspirado, diz o Catálogo, em uma bela poesia do falecido e saudoso Thomaz [sic] Lopes.

Diante dele é impossível não nos lembrarmos do famoso quadro de Franz Stuch [sic], também intitulado A Guerra, que se acha na Nova Pinacoteca de Munique.

Na obra de Stuck há também um campo de batalha juncado de cadáveres e por sobre este campo passa um enorme cavalo negro sobre o qual monta uma hirta e gigantesca figura nua de guerreiro, que traz sobre o ombro direito uma grande espada e tendo a fronte aureolada por uma palma.

Esta obra de Stuck é um espécime do poder da pintura levado a extraordinário grau de força impressiva.

Os corpos lívidos que alastram o solo são desenhados com singular simplicidade e largueza; o tétrico cavaleiro, cujo rosto tem vaga semelhança com Napoleão, se destaca no meio das cores simbólicas, e um esplendor chameja todo o horizonte.

O vigor de expressão alegórica deste quadro no modo realista como é pintado, é tal que quem o vê uma vez nunca mais dele se esquece.

No quadro do Sr. Fiusa, o cavalo é substituído por um animal que parece ser uma mescla de onagro com morcego; cavalga-o a figura da morte, de olhos reluzentes e empunhando a foice característica.

No primeiro plano, alguns corpos pintados com algum relevo, e todo o resto do quadro envolto numa sombria e confusa tonalidade plúmbea.

Um trabalho desse gênero, para impressionar fortemente, precisa ter um vigoroso tratamento técnica que falta absolutamente ao trabalho do Sr. Fiusa.

O Sr. Carlos de Servi está profusamente representado.

Tem um grande retrato de parade, [...] senhora; um pequeno retrato-estudo, um estudo do nu, e mais três outros quadros.

Podemos discordar do modo como trata alguns desses trabalhos; mas não podemos negar-lhe a excelência do seu pincel, o seu bom desenho e boas qualidades de cor.

No retrato de senhora, não nos parece que o artista foi inteiramente feliz.

A semelhança deixa a desejar e como que há certo exagero no modo como estão pintados os olhos.

Afigura-se-nos muito forte o contraste entre a tonalidade da cabeça e a do resto do quadro. O azul do vestido impressiona um tanto violentamente, apesar dos tons roxos do fundo.

A posição da retratada é muito boa e distinta, e toda a figura tem a devida saliência.

No quadro de nu, Puberdade, é deliciosa a cabeça, que está finamente pintada.

No pequeno retrato de n. 87, o artista produziu um excelente e vigoroso estudo de cabeça profusamente iluminada e em que há acentuada expressão característica. É evidentemente uma das melhores notas da Exposição, um excelente retrato, de uma tonalidade, de uma individualidade inconfundível.

O Sr. Augusto Luiz de Freitas mandou apenas meia dúzia de interessantes estudos, dos quais destacamos o de n. 142 - Luz crepuscular - que tem poesia.

O Sr. Lucilio de Albuquerque tem um retrato ao ar livre de um conhecido amador e colecionador. O retratado está na sua chácara, encostado a uma latada através da qual se vem raios de sol. Tem na cabeça um chapéu de Chile, veste paletó de palha e de seda, gravata azul claro, solta sobre a camisa e calça cor de alecrim. No rosto, há a expressão prazenteira do amador que vê assim aumentada a sua coleção de retratos... próprios e mais um bom nome para o seu catálogo de celebridades.

O outro quadro do Sr. Lucilio é uma boa paisagem.

Do Sr. Heitor Malaguti contém a Exposição seis trabalhos na sua conhecida maneira, vaga e velada. As suas figuras parecem incompletas ou desenhadas com muita parcimônia. Agradou-nos mais o quadro n. 151, numa tonalidade roxa, com as formas da figura com mais relevo.

Do Sr. Helio Seelinger, atualmente em Paris, apenas o quadro - O fogo - já nosso conhecido e cujas boas qualidades estão bem patenteadas pelas ótimas condições de luz e da colocação que tem na Exposição.

Dos retratos enviados pelo Sr. Pons Arnau, um artista que tem revelado boas qualidades de técnica em obras anteriores, nenhum satisfaz plenamente, parecendo-nos, entretanto, os melhores o do Sr. Dr. L. F que tem certa caracterização, e o de sua senhora.

O outro grupo de retratos trai a composição fotográfica e a homogeneidade na pintura de certas partes, como os olhos, por exemplo, das diversas pessoas, o que denota falta de observação e execução descurada.

O Sr. Raphael Frederico e o Sr. Modesto Brocos mandaram pequenas notas, que nada adiantam ao que já conhecemos dos dois artistas.

O Sr. Valle de Souza Pinto expõe um retrato a crayon, bem feito e um tanto acadêmico.

Falemos agora de uma das notas mais simpáticas da exposição, a da contribuição que algumas senhoras, artistas e amadoras, trouxeram ao êxito do nosso “Salon”.

Pelo nome que já conquistou no nosso mundo artístico, cabe de justiça a primeira menção à Sra. Georgina de Albuquerque, que expõe uma boa e fina cabeça de mulher em perfil.

A Sra. D. Angelina Agostini justifica brilhantemente a sua ascendência artística.

O seu aparecimento nas nossas exposições foi uma revelação; é uma moça de grande talento e incontestável vocação. Os seus trabalhos, embora ainda desiguais, indicam que ela tem sabido aproveitar-se das boas lições e da boa escola do seu eminente mestre, o professor Henrique Bernardelli.

O seu quadro que mais chama a atenção, é o de n. 10, intitulado As compras [Imagem], um grande cesto no primeiro plano, do qual acabam de ser despejados em profusão couves, laranjas, pimentões vermelhos, uvas, bananas, etc. Em plano secundário, uma figura de mulher arruivada, com avental.

O quadro é bem iluminado e a pintura da natureza morta é feita com solidez, frescura e harmonia e faz lembrar um pouco os antigos pintores flamengos. É pena que não tivesse tirado melhor partido do bom e interessante modelo que teve para pintar a figura.

Os outros seus quadros, todos de figura, são igualmente pintados com o mesmo cuidado e savoir-faire.

Agradou-nos sobremodo o pequeno retrato de criança - Magú - feito com muita finura e felicidade de expressão.

A jovem artista já é hoje, não há desconhecê-lo, uma bela realidade, cujo desenvolvimento futuro há de ser acompanhado com interesse.

Acreditamos que o próprio seu ilustre mestre gostaria de ver o lindo talento da discípula desabrochar completamente em um meio menos estreito e mais estimulante e educador do que o nosso.

Henrique Bernardelli tem ainda duas discípulas, que expõem obras que merecem menção.

A Sra. D. Francisca Azevedo Leão tem dois bons retratos, revelando boas qualidades de desenho, podendo-se, talvez notar que tivesse tratado o pastel (em que são pintados) como se fosse pintura a óleo.

A Sra. Sylvia Meyer também tem três trabalhos, que mostram a boa escola em que está sendo educada.

João Baptista também se acha representado por algumas discípulas, que lhe seguem as boas lições com aproveitamento.

São elas as Sras. DD. Julieta Bicalho e Iracema Orosco Freire.

São também expositoras as Sras. D. Adelaide Lopes de Souza Gonçalves, com interessantes trabalhos de figura; Viscondessa de Sistello, D. Fedora do Rego Monteiro, Dona Carlota Laboriau, D. Sarah Padovani, Dona Maria Pardos, D. Angelina de Figueiredo, D. America de Souza e D. Adelia Marques Saldanha.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 9 set. 1913, p.6-7.

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