. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 9 set. 1909, p. 3. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 9 set. 1909, p. 3.

De Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS-ARTES - A estátua monumental do Barão de Maúa é uma das obras verdadeiramente grandiosas e imponentes do Sr. Rodolpho Bernardelli. O banqueiro opulento e arrojado industrial apresenta-se-nos numa atitude dominadora, avassaladora, que deve ser esteticamente a dos homens da sua têmpera e da sua força. Direito e sólido, com o belo rosto escanhoado, onde as feições voluntariosas se destacam, rijamente modeladas; a mão direita na ilharga, arredando a banda da sobrecasaca, a outra descabida para trás das costas, segurando o vasto chapéu alto e a bengala poderosa - o vulto de Mauá reveste-se bem da majestade moderna dos que manejam milhões e dão impulso as obras do progresso. É uma figura vitoriosa, que olha de alto e parece desafiar as adversidades e os insucessos, na segura certeza de os arredar do seu caminho; a sua fronte triunfa; a sua inteligência e a sua vontade resplandecem; está coberta de glória.

Na Exposição há, também, a maquette de Teixeira de Freitas e os bustos de Castro Alves, Ferreira de Araújo e Dr. Chapot Prevost, dos quais já tratamos nestas colunas e que são outras tantas obras fortes e seguras do nosso mestre consagrado.

O Sr. Modesto Brocos expõe um Busto e a maquette do frontão da Biblioteca Nacional, onde as figuras alegóricas formam um quadro airoso e delicado.

O Sr. Umberto Cavina dá-nos dois bustos em bronze, os de D. Carlos I e Santos Carvalho, nos quais o artista parece ter-se preocupado com a “semelhança” que está realmente bem procurada e achada; e mais um busto em gesso, , que olha devotamente uma cruz.

O Busto-retrato, da Sra. Julieta de França, é um bebê gorducho, simpático, que olha para o ar, como a procura da teteia que segundo a tradição doméstica, lhe disseram estar no teto da casa, para o obrigarem a posar. A escultora expõe também uma maquette, Pró-Pátria, que é uma apoteose a Tiradentes e onde, entre algumas “academias” apenas indicadas, se ergue o vulto do herói mineiro.

Passa-se depois à secção da gravura e litografia que teve dois únicos concorrentes: os Srs. Carlos Oswald e Pedro Weingartner. É interessante de observar a diferença de factura dos dois artistas: o primeiro, traçando largamente os seus motivos e procurando as notas impressionantes que na verdade resultam de poderoso alcance sugestivo: o segundo, caprichoso e meticuloso, buscando reproduzir com a fidelidade de uma miniatura, quanto os seus olhos viram na paisagem, na cena, ou na figura.

Outros dois concorrentes figuram na gravura de medalhas; o professor Girardet e o seu discípulo Sr. Adalberto de Mattos. O Sr. Girardet é um gravador primoroso: toda a gente, há muito tempo, o sabe. As suas medalhas compõem hoje uma coleção única, no Brasil, pela correção, o apuro, a finura com que são executadas; representam a mais delicada das intuições artísticas, servida pela paciência laboriosa mais tenaz e aplicada. Cremos, porém, que o engenho do Sr. Girardet não produzira ainda obra mais completa do que este Prêmio Dr. Frontin, onde a fisionomia do ilustre engenheiro se desenha em tão excelente lavor e em cujo reverso se estende uma vista da Avenida Central, com os belos prédios alinhados numa perspectiva perfeita; ou do que o Prêmio da Exposição Nacional, que reproduz o panorama magnífico da nossa “Cidade de Luz”. O Sr. Adalberto de Mattos apresenta uma plaquette em gesso (Homenagem ao Professor R. Bernardelli), que deixa alguma coisa a desejar, sobretudo quanto à estética do [sic] figura alegórica, e um Retrato de [...] Mattos, punção em aço, essa sim, obra fina e bem acabada.

O Professor João Ludovico Maria Berna expõe um projeto para o edifício do Forum federal, em que há a simplicidade grandiosa mais adequada àquele fim; e outro, para escola naval, gracioso e sóbrio.

O Sr. Henrique J. L. de Almeida figura com um anteprojeto para teatro ao ar livre, infelizmente inaplicável no Brasil, onde se não pensa nessas coisas, mas nem por isso menos de admirar na concepção e na execução superiores.

A Fundição Indígena faz-se representar com êxito nas “Artes Decorativas e Objetos de Arte”, por uma coleção de belos bronzes, executados nas suas oficinas. E, na mesma secção, as Sras. Julie Hengel e Margrethe Krog, que pertencem à Sociedade Dinamarquesa de Arte Aplicada, expõem trabalhos em renda Hedebo, que é um gosto examinar e um sonho delicioso imaginar que estão em nossa casa, alindando e tornando preciosa a nossa mesa de jantar.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 9 set. 1909, p. 3.

Ferramentas pessoais
sites relacionados