. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 9 set. 1903, p.3. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 9 set. 1903, p.3.

De Egba

Antes de ocuparmo-nos dos artistas mais novos, é de rigorosa justiça fazer menção aqui das duas paisagens do Sr. M. Brocos, ambas representando pontos muito pitorescos de um trecho da estrada que sobe para Teresópolis, nas cascateas em que o Rio Soberbo se bifurca perto do local denominado Barreira, e em que o seu aspecto é selvático e majestoso. A palheta do Sr. Brocos mostra-se aí mais limpa do que de costume, a sua pintura é sóbria e robusta: as pedras tem o corpo e o aspecto de dureza que lhes são próprios, a água é bem transparente e a impressão geral exata e característica do local.

Dos novos, a figura mais saliente e mais robusta é a do Sr. Helios Seelinger.

Se é verdade, como diz um escritor, que nesta época em que a técnica da pintura se tornou de fácil aquisição e são tão numerosos os pintores que primam por ela, é necessário ter individualidade para ser contado como uma quantidade do mundo artístico, então o Sr. Seelinger já tem direito a essa consideração, porque individualidade não é o que lhe falta.

Dos nossos artistas poucos ou nenhuns [sic] são os que tratam de assuntos simbólicos, preferem a translação de fatos positivos à expressão de ideias abstratas e compreende-se que assim raramente apresentem trabalhos em que possam revelar individualidade muito marcada de sentimento e de pensamento. Em geral, só se preocupam com os resultados brilhantes a que pode chegar a perfeição de técnica na interpretação por assim dizer imitativa de cenas da natureza e na representação de acontecimentos da vida diária. Isso constitui, sem dúvida, um ponto de vista artístico digno de consideração e apreço, mas não exclui desse direito, nem do bom conceito dos que principalmente acham prazer na parte intelectual de uma obra de arte, aqueles artistas que, a par de habilidade de execução, possuem faculdades de imaginação e de inventiva e criam obras que se afastam da craveira usual. É por esse lado, sobretudo, por essa faculdade pensante, sugestiva que a obra do Sr. Seelinger se destaca; vê-se o desejo de dizer alguma coisa, de externar uma ideia, embora a faculdade executiva ainda nem sempre consiga a perfeição e clareza de expressão que ele deseja. Compreende-se isso, dada a sua pouca idade, mas são dignas de todo o auxílio e de toda animação essas qualidade poderosas que já revelou e que, bem desenvolvidas e cultivadas, podem fazer dele um artista de valor.

Dos dois quadros que apresentou este ano, o Remorso é de intenção mais profunda no seu simbolismo tão comovente e tão lugubremente impressionador. Ambas as figuras tem a expressão própria, e o efeito que o quadro deixa em quem o contempla, efeito que se torna mais intenso quanto mais prolongada é a contemplação, é o de uma mistura perturbadora de compaixão e de sombria melancolia.

O outro quadro seu - Bohemia - desvia-se um tanto dos moldes em que em geral vasa as suas concepções. Ainda assim, tanto pela intenção como pela execução, é de todos os expostos o que revela maiores e mais louváveis esforços e trabalho.

É uma cena de atelier de um naturalismo que parece estar em oposição aos trabalhos que até agora nos tem apresentado; mostra grande espírito de observação, grande variedade objetiva. Dentro do atelier se permitem coisas que se não pensariam possíveis em nenhuma outra atmosfera. Ali permitem-se todas as liberdades, todas as extravagâncias que possam contribuir para incitar e ampliar a produção artística. Nesses lugares, durante dias e durante noites, reúnem-se entes de sexo diferentes que colaboram na mesma obra artística, tendo apenas de permeio a sombra intangível do sentimento da arte.

Uma das faces peculiares da vida de atelier é a comunicação alegre e amistosa, as relações entre os artistas, os seus amigos e os seus modelos - na permuta ruidosa, sugestiva, prolificadora de impressões e de ideias; aí, no seio desse convívio encantador, é que se passam algumas das horas mais alegres, mais consoladoras da vida artística; daí é que provem muitas vezes o conforto, o levantamento da coragem, a reanimação do espírito e o recrudescimento de fé no futuro, desses desfalecimentos, dessas duras desilusões, dessas lutas fatigantes e acabrunhadoras do artista no esforço doloroso de procurar realizar o seu ideal em uma forma que custa a precisar-se e de ver a sua obra reconhecida em um meio que não quer compreendê-la.

Foi essa vida [...], ruidosa, excitante, cheia de vibrações que Helios Seelinger procurou simbolizar no seu quadro. E primeiro que tudo procurou reunir ali alguns dos moços, artistas, poetas, escritores, mais ardentemente empenhados na labuta em prol de distinguir-se.

Como execução, o quadro tem defeitos e importantes, devidos principalmente, reconhece-se logo, à pressa de terminá-lo e à falta de estudo de diversas figuras, entre as quais há desproporções frisantes prejudicando a perspectiva linear. Mas tem qualidades vigorosas e no seu efeito geral é bastante impressionador. A sua execução é larga e nervosa: o colorido é quente [...] bem feito, bem distribuído e bem estudado o efeito da luz artificial do lampião de querosene [...] a luz natural do dia que vem apenas aparecendo por uma janela no fundo.

A perspectiva aérea é boa; os agrupamentos tem movimento e vida e algumas figuras, como por exemplo a da mulher sentada no primeiro plano, são bem feitas.

Há um que de romântico na escolha da hora e o elemento simbólico é introduzido com a figura de mulher, nua, apenas coberta por um véu roxo escuro.

O Sr. Eduardo Bevilacqua, jovem aluno da Escola e discípulo de Henrique Bernardelli, apresenta paisagens que já revelam qualidades e um quadro de composição - Canção de Daphnes, que faz lembrar composições congêneres. O efeito não é desagradável e a pintura acusa muita disposição ao jovem artista apesar dos defeitos de desenho nas figuras e muito apegamento à maneira do mestre.

Os dois irmãos Chambelland [Carlos Chambelland e Rodolpho Chambelland] têm na Exposição alguns estudos interessantes, em que há apreciáveis qualidades de desenho e paisagens com uma nota bem exata, principalmente a de n. 67, muito justa conquanto fria de impressão.

O Sr. Lucilio de Albuquerque, que já o ano passado se salientara, tem um delicado estudo de figura, um perfil de moça, feito a pastel, e dois retratos muito discretos. É um artista de quem se deve esperar muito.

O Sr. Evencio Nunes, outro aluno da Escola já nosso conhecido, tem um interessante quadro de gênero e um bom retrato.

Podemos citar mais entre os novos os Srs. Araujo Froes, José Monteiro da França, Jorge de Mendonça e Luiz Maria Felippo.

Depois que morreu Castagnetto, nenhum artista apareceu que tenha sabido pintar boas marinhas. Há na exposição alguns trabalhos nesse gênero que ainda não satisfazem, mas os Srs. Luiz Ribeiro Junior e Virgilio Lopes Rodrigues merecem louvores pela perseverança e carinho com que se dedicam a este ramo de pintura, e é de esperar que, com estudo aturado do natural e a observação própria, venham a conseguir bons resultados na arte que cultivam.

O número das senhoras que mandaram trabalhos é bastante numeroso e mostram certo gosto e amor no estudo da pintura: são elas as Srs. D. Alina Teixeira, D. Clelia de Castro Nunes, D. Dinorah de França Meirelles, D. Elvira Gamensoro Ferreira, D. Georgina Moura Andrade, D. Helena Vaz Pereira de Viveiros, D. Irene de Andrade Ribeiro, D. Leduina B. da Gama Rodrigues, D. Marietta de França Meirelles e D. Minna Mee.

De Angelo Agostini, Pedro Bolato, De Agostini, Alberto Delpino, Augusto Petit, não se pode dizer outra coisa senão o que se tem dito nos anos anteriores: são artistas com o seu modo de pintar já acentuado e os seus trabalhos deste ano não apresentam novidades.

O Sr. Francesco Napolitano, que pela primeira vez aparece na exposição, tem uma maneira acentuadamente italiana e os seus quadros não são destituídos de qualidades, principalmente o de n. 160.

Na próxima noticia trataremos das aquarelas, desenhos, gravuras e litografias.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 9 set. 1903, p.3.

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