. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 8 set. 1907, p. 4. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 8 set. 1907, p. 4.

De Egba

O Sr. Arthur Thimoteo da Costa tem na Exposição um quadro apenas; uma tela de grandes proporções, que denominou - 'Antes da Aleluia.

Os seus trabalhos do ano passado, em que revelou tanto talento quanto adiantamento técnico, faziam-[...] esperar este ano mais uma brilhante exibição do jovem artista; e se a nossa expectativa não foi tão satisfatoriamente realizada como pressagiávamos, nem por isso o esforço do estudioso pintor é menos merecedor de aplausos.

Tomou para assunto do seu quadro um episódio popular, a aglomeração de gente nas portas e nos adros das igrejas, no sábado de aleluia, antes dos sinos anunciarem - o fim da Paixão do Senhor.

Em geral, os fiéis se reúnem, uns armados de foguetes para festejar o momento tão glorioso para a Humanidade, e outros, a maioria, ali vão com vasilhas apropriadas para receber a água benta e o alecrim, com o que hão de santificar as suas moradas.

Como se vê desta simples exposição, o assunto presta-se admiravelmente a um belo quadro de gênero, e o fato de ter o jovem artista tomado para tema, explica-se naturalmente por proporcionar-lhe elementos para mostrar o seu saber técnico.

Na sua aparente facilidade não há nada mais difícil do que pintar um bom quadro de gênero, porque, em geral, nesse ramo de pintura, o assunto tem menos importância do que a maneira como ele é tratado.

Como já dizia Edmond About, o autor de um quadro de gênero tem de agradar ao público dos domingos, isto é, ao público composto do vulgo profano, que se satisfaz com a ideia dramática mais ou menos claramente representada - e o público das sextas-feiras, que no seu tempo era o dia destinado nas exposições às visitas dos espíritos mais educados e mais críticos, os quais olham mais para o saber que o artista revela, para o modo como o quadro é composto e pintado, e para a execução dos detalhes.

Entre nós o público de quase todos os dias é composto destes últimos, porque o comum do público raramente frequenta as exposições de arte, de modo que o artista que expõe é geralmente só julgado pelos seus pares.

Apesar de muitas qualidades técnicas boas, não se pode dizer que o Sr. Arthur Thimotheo da Costa tenha conseguido fazer um trabalho que satisfaça.

Primeiramente a tela é demasiado grande para o assunto que, independente de pitoresco do seu tema, pode quando muito interessar como documento histórico de um costume popular. Por isso o seu quadro revela um desequilíbrio na composição, um vazio em muitas das suas partes, ressentindo-se da falta de efeito de conjunto e de harmonia.

As figuras, que são pintadas em tamanho de grandes proporções; são quase todas imóveis e sem vida, e isso se explica porque é evidentemente mais difícil dar vida às figuras em telas grandes do que em quadros de menores proporções. Demais as suas figuras parecem, quase todas, que estiveram brigando, porque têm os rostos como que ensanguentados.

Entretanto as qualidades naturais de um pintor, as revelam sobretudo no modo como pinta os fundos dos seus quadros, como faz as coisas que não têm grande precisão, e no quadro do Sr. Thimotheo o fundo é que o salva, visto a frescura como é feito. O Sr. Thimotheo há já anos que vem afirmando o seu talento e os seus bons estudos técnicos, e é de esperar que na próxima exposição apresente um trabalho que, feito sem a precipitação de que se ressente o seu quadro atual, confirme plenamente as esperanças contidas na sua tão sólida cabeça de negro do ano passado.

Outro artista que o ano passado se apresentou chamando sobre si a atenção, e que este ano se mostra aquém do que então prometia é o Sr. Francisco Manna.

Este jovem artista que tem talento e evidente vocação para a paisagem animada com figuras, prefere, entretanto, entregar-se à pintura de quadros com intuitos sociais.

Já o ano passado expôs um quadro filiado a esses intuitos, e a sua tela na atual exposição - O Epilogo obedece ao mesmo gênero da pintura.

Representa um velho mendigo, morto em uma pocilga onde foi acabar a sua vida miserável, abandonado ou perseguido pela sociedade.

Se o objetivo do quadro foi mostrar o descalabro e por fim o termo miserável a que o alcoolismo pode levar o ente humano que se deixa dominar por ele, há certa coerência no modo como a figura está feita, porque aquela cor arroxeada podia ser de um ébrio habitual e encanecido. Se o artista quis simplesmente pintar um pobre abandonado da sorte que a sociedade não quis socorrer e deixou morrer de fome, então não se compreende a cor do rosto do morto, pois pela frescura das cascas de laranja pintadas junto à enxerga, se vê que a morte do mendigo não data de muito tempo, e aquela cor só podia ser de um alcoólico, de um afogado ou de um falecido de moléstia de Basedow.

A figura, colocada em sentido longitudinal da tela, faz mau efeito, tanto mais que tem um comprimento desmesurado, muito superior às proporções regulares do corpo humano.

Não gostamos também dos trabalhos expostos este ano pelo Sr. Carlos Oswaldo, artista que em anteriores exposições revelou talento e savoir-faire.

Expõe três retratos e em todos exibe o mesmo desejo de ser original, mas que consegue apenas ser extravagante.

O seu estudo de cabeça, um auto-retrato, que tem certas qualidades de modelado, parece um pergaminho velho que tenha sofrido os efeitos de um incêndio.

O retrato do Sr. M. B. é uma figura mesquinha, sem corpo, chata, sem modelado, parecendo mais uma sombra do que um ente humano.

O retrato do maestro Oswaldo também não tem corpo, sendo que a carnação parece a de uma estátua de marfim.

O Sr. J. Thimotheo da Costa tem um retrato de João do Rio, que não o lisonjeia nada, antes o amesquinha, pois que o fez quase sem cabeça, ou por outra, cortou com uma barra preta a parte posterior da cabeça, dando a um dos espíritos mais brilhantes do jornalismo atual uma cabeça de microcéfalo.

Podemos terminar esta notícia com uma referência ao Sr. João Macedo, que volta ao gênero de pintura que lhe valeu as suas primeiras distinções, como aquele interessante Gravador' que ainda é talvez o seu melhor trabalho.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 8 set. 1907, p. 4.

Ferramentas pessoais
sites relacionados