. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 8 set. 1904, p.4. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 8 set. 1904, p.4.

De Egba

Exposição Geral de Belas-Artes - O Sr. Rodolpho Amoedo fez-se representar este ano apenas por três trabalhos, um em pintura a óleo, de ovo e dois em encáustica.

Cumpre dizer que os trabalhos atuais desse artista acusam menos vigor do que os de outrora. Logo que aqui chegou da Europa, foi o Sr. Amoedo o artista que apresentou a obra mais sólida e mais numerosa talvez de quantos pensionistas tem tido o Estado no estrangeiro, e os seus principais trabalhos lá estão na nossa Galeria Nacional despertando a admiração de quantos a visitam e atestando o valor do seu talento e do seu pincel. Nos últimos anos, porém, o seu espírito investigador e amigo de experiências tem-no levado a tentar diversos processos, a experimentar veículos novos, de modo que parece curar mais do processo material do que do próprio tema, afigurando-se-nos que, embora possuindo ainda as mesmas qualidades de desenho, de sentimento e de execução, a sua obra se recente de falta de vigor e de intuito.

Dos três trabalhos que expõe, todos em processos só por ele tentados, o que mais agrada é o pequeno quadro denominado Cativa (N. 4) que representa uma jovem oriental, despida da cintura para cima, o que lhe deu ensejo de um interessante estudo do nu. A cativa, muito jovem ainda, apresenta, entretanto, opulências do desenvolvimento precoce peculiar aos países quentes. Talvez haja alguma intenção simbólica na entonação vermelha do quadro; mas, é feito com cuidado. O efeito é conseguido; a cor geral é harmônica, e tanto a pose como a expressão tem o seu encanto, embora pareça que houve certo propósito de salientar as fascinações da cor.

Do quadro - Oração (N. 5), aliás regularmente desenhado, não gostamos tanto, parecendo que a pose dá ideia diferente da que o autor quis exprimir.

O retrato (N. 6), em perfil, com certas qualidades de modelado, é seco e talvez duro, e isso se explica pela dificuldade do processo empregado, a encáustica, que requer manipulação pronta e rápida.

O Sr. Elysêo Visconti também concorreu à Exposição com quatro trabalhos apenas, e nenhum de grande fôlego. Mas o Sr. Visconti afirma-se sempre um artista; todos os seus trabalhos despertam sempre o interesse inerente à obra de um verdadeiro pintor. Os seus trabalhos possuem expressão artística, um sentimento sempre fino e harmônico, certa distinção, que tornam a sua arte individual.

O retrato (213) é um trabalho hábil, na sua expressão e uma bela idealização do sentimento materno.

Igualmente boa é a cabeça de estudo. A leitura é um quadrinho de gênero interessante, de uma simplicidade de composição muito atraente e em que às figuras dos dois meninos o artista soube dar a expressão apropriada.

A sua técnica da aquarela é peculiar e interessante, de uma subtileza fina, tendo às vezes o aveludado do pastel, e a sua cor, nem gritadora, nem vibrante, mas antes sóbria e suavizada, tem encanto.

O Sr. Antonio Teixeira da Rocha, um artista trabalhador e de talento, fez-se representar por quatro quadros, de três dos quais já tivemos ocasião de falar aqui minuciosamente ressaltando as suas principais qualidades, e agora só teríamos que repetir o que então dissemos.

A paisagem com figuras (N. 202), é um belo trabalho, bem estudado, com muita perspectiva, sincero de cor, cuidadosamente pintado.

O Sr. Modesto Brocos mandou dois trabalhos unicamente, uma cabeça de contadeira (43), que já fez parte da exposição dos aquarelistas, e um quadro de gênero - Cena domestica (44), pintando costumes da vida do interior, na especialidade a que nos tem acostumado esse artista. O assunto é bem exposto e a tonalidade geral do quadro mais clara, menos suja na linguagem técnica, do que soem ser os trabalhos nesse gênero do apreciado artista.

Angelo Agostini, o veterano artista, tem três quadros no seu estilo peculiar, e que tem agradado, e o Sr. Auguste Petit, um retrato e dois quadros de natureza, na sua maneira inconfundível.

Raphael Frederico tem um interessante retrato de menino a cavalo, em uma bela paisagem, um bom estudo de ar livre, pintado com muita frescura.

No gênero que lhe é predileto, é também o quadrinho Aos Cajus (88).

É difícil não há dúvida, pintar quadros em que os protagonistas sejam crianças, porque não há modelos mais irrequietos e indomáveis. Por outro lado, tem tal variedade de expressões, tão imprevista é a nota de novidade que eles podem introduzir num quadro, tal a diversidade de atitudes e a profusão de garça, que emprestam às composições que, vale a pena não abandonar um campo tão prometedor.

Não nos agradam os trabalhos expostos pelo Sr. Seelinger, que são simples impressões de atelier e isso mesmo não das melhores. O único trabalho seu que nos impressionou agradavelmente, foi o seu auto-retrato, feito com mais seriedade do que os outros trabalhos.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 8 set. 1904, p.4.

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