. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 7 set. 1909, p. 7. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 7 set. 1909, p. 7.

De Egba

Exposição Geral de Belas-Artes - O Sr. Roberto Mendes é um poeta. Não será de certo a primeira vez que o artista recebe tal epíteto literário; nem por isso, todavia, nos sentimos obrigados a procurar-lhe outro: aquele lhe assenta e o define perfeitamente. As telas a que ele deu a designação despretensiosa Estudos e impressões, são, de fato, obras acabadas e da mais alta poesia. Naqueles trechos de bela paisagem estival, as cores cantam e até, no entusiasmo imaginativo que despertam, se diria que rimam. E já os motivos em si acusam o enlevo apaixonado do contemplativo, do poeta: um canal que se estende, quedo e lânguido, a meio da planície arborizada; um final de rua que vai dar ao mar, num salto de penedia e de abismo, margeada por um muro sobre o qual floresce a ramaria jubilosa dum flamboyant; um acastelamento de pedras brutas sobre a areia, à beira da água; uma onda que se arqueia para quebrar, cor de azeite e encristada de espumas - e ao redor de tudo isso, e sobre tudo isso e em tudo isso, o sol, barras e torrentes de sol, uma luz fulgurante e gloriosa, aquecendo amorosamente a natureza tropical. Mas não é só na escolha dos assuntos que o Sr. Roberto Mendes revela a delicadeza do seu temperamento; na execução também, que é sempre apurada, requintada, e na qual se adivinha o pintor procurando os seus efeitos de traço e cor, como o poeta invoca, ansioso e arroubado, as suas imagens e as suas sonoridades...

Raramente um artista terá evidenciado tão rápidos progressos como o Sr. Alvim Menge, que apenas há dois anos nos manda de Itália, onde se está fazendo a educação artística, os produtos da sua aprendizagem brilhantíssima. Dos dois quadros do Sr. Menge agradamos mais - e muito mais - a ‘Popeia. É um nu, ou antes, um meio nu, pois que a parte inferior do corpo se lhe envolve num “drapejamento” claro, aliás engenhosamente composto. A “academia”, já meio fanada, da cortesã - a flacidez dos músculos e da pele, a queda incipiente dos seios - está veridicamente estudada, apalpada em todos os seus contornos; e a mesma decadência por igual se reflete nos tons que esmorecem e arrefecem, cansadamente. Entretanto, a figura é bela ainda: e tanto mais exata quanto é certo que deixa adivinhar o triunfo e a glória da personagem histórica que ali ressuscita...

O Sr. Noronha França foi discípulo dos Srs. Almeida Junior e Oscar Pereira da Silva; parece que já hoje dispensa mestre e é pena, porque as apreciáveis qualidades e recursos que revela nos seus dois quadros e sobretudo naquele que se intitula A sombra, precisariam ainda de algum cultivo, sob a direção de um bom mestre.

O Sr. Norfini também tem que aprender ainda para dar todo o desenvolvimento as faculdades patenteadas na sua Marinha.

O Sr. Carlos Oswald, que passou por um temperamento exótico, meio desorientado, dotado embora de inata e profunda intuição artística, começa a libertar-se dos seus defeitos - ou a fazê-los esquecer - a impor-se como um artista apenas bastante “diferente” para se constituir uma originalidade. A figura macerada, torturada de sonho da sua Réveuse; o seu Pierrot todo branco, melancólico, dando uma sensação musical de surdina moribunda; o seu Homme au manteau noir, tipo de poeta ou artista doutros tempos, desgrenhado e fatal - são criações acentuadas, essencialmente individuais. A fatura, com o seu cunho de aparência antiga, é, na verdade, nova, porque é própria; os seus mesmos desvios e deficiências não se confundem com a inexperiência comum; e assim também os traços fortes, os efeitos profundos se tornam mais profundos e mais fortes pela sua independência e ineditismo. O Sr. Oswald não tardará de certo em fazer triunfar completamente a sua originalidade.

O Sr. Petit, o conhecidíssimo retratista, de cujos méritos já tudo foi dito e redito, expões mais um exemplar daquele gênero que lhe valeu tão vasta notoriedade.

Das numerosas telas do Sr. Presciliano Silva - pois que não comporta esta simples notícia a análise de todas elas - agradaram-nos superiormente a Paisagem, sugestivo trecho de campo, sobre o qual, após uma bátega de chuva estival, a neblina úmida se adelgaça, se desfaz e descortina a perspectiva belíssima - e o Lago do Parc Monceau, entre a vegetação nobre e rica remirando-se na água, tranquilamente. De resto, esses dois quadros bastam para recomendar o Sr. Presciliano Silva ao interesse do público e atestar os excelentes resultados que ele tirou da sua estadia na Europa.

O Sr. Puga Garcia foi já, na XIV Exposição, galardoado com uma medalha de segunda classe (prata). Desta vez, porém, abalançou-se a mais ousada tentativa; o seu Ismael e Agar, pela composição ao mesmo tempo simples e grandiosa, que o artista imaginou dar-lhe, requereria mais experimentada técnica, mais educada compreensão dos efeitos plásticos e cenográficos. Assim, saiu-lhe um quadro de teatro, no sentido de visivelmente truqué. Ismael e Agar, com as qualidades que, aliás, se lhe não podem negar, ficou aquém dos já reconhecidos merecimentos do brilhante ex-aluno da Escola Nacional. O Sr. Puga Garcia saberá tirar muito breve estamos certos, a desforra que o seu comprovado valor reclama.

Com duas interessantes paisagens, a Sra. Rachel Boher patenteia os progressos que lhe têm proporcionado as lições do Sr. João Baptista da Costa e que ela aproveita como deve, tratando de libertar sua própria intuição artística. Nada menos de 18 trabalhos apresenta o caricaturista Raul. É uma coleção esfuziante, endiabrada, irresistível. A começar pelos trocadilhos e equívocos de palavras que lhe fornecem títulos de surpreendente resultado cômico, tais como Os três mosqueteiros, A última vitória, O perigo de amarello, e a acabar na deformação macabra dos motivos mais poéticos e requintados, como o Idílio, a Pastoral, os Incompreendidos, ele, esta série percorre todas as nuances da inesgotável paleta do autor das Cenas da Vida Carioca. O traço é sempre espontâneo, é fulgurante; e quando, como na Última vitória, há um movimento a traduzir, uma perspectiva a indicar, o lápis travesso arremessa-se em busca do seu efeito, com certeira e desprendida facilidade, Raul é um humorista levado de todos os demônios.

Que dizer ainda das aquarelas do Sr. Benno Treidler? Há anos já que pontualmente, fielmente, aqui lhas admiramos e louvamos. E entretanto, forçoso se torna acrescentar ainda alguma coisa, porque o artista progride sempre e cada vez mais lisonjeiramente nos impressiona. Entre as quatro aquarelas deste Salão, não há escolher; se as que representam panoramas vistos do alto de Santa Tereza se impõem pela largueza do horizonte, a harmonia dos planos que se sucedem fielmente, as outras tem o atrativo do detalhe vigoroso e das figuras que as adornam, engenhosamente, colocadas no cenário e vivendo dentro dele. E em todas triunfa a técnica do Sr. Treidler, larga a aparência descuidada, mas que nada despreza e a qual nada escapa.

O Sr. Visconti dá-nos um airoso Chalet Murtinho, um Luxembourg magistralmente “manchado” e o quadro Minha família. Este quadro tem sido muito discutido, registramo-lo para maior honra do artista. A fatura é “uma novidade” só estranhável para quem não souber que o Sr. Visconti não cessa de estudar, de investigar, de variar e multiplicar esforços pela conquista da sonhada perfeição. As tintas que parecem espalhadas e distribuídas por um pincel nervoso, em febril inspiração, oferecem, examinadas de perto, um aspecto arrepiado, crespo, violento, que quase ofende a vista; ao passo porém, que se vai recuando, as formas se fixam e se arredondam e ressaltam, na poderosa expansão da vida que as anima. O efeito primordial da fatura adotada pelo pintor é o da rutilância ambiente; há ali uma irradiação; e a luz que envolve as duas figuras do quadro, parece ao mesmo tempo sair delas, sobretudo da criança formosíssima que o Sr. Visconti deve adorar duas vezes, como pai e como artista.

Na Miséria social, “tríptico” do Sr. Pedro Weingartner, expõe-nos o artista, pelo processo dos romances-folhetins, os lances dominantes de um amor condenado e fatal. No primeiro quadro a ilusão e a redução; no segundo, o desespero da mulher abandonada e o crime que ela medita contra o fruto dos seus amores; no terceiro, o sacrifício do inocente, na caverna lôbrega de uma “tecedeira de anjos”; o corpo da criança consome-se em um forno ardente e pela coluna de fumo que sobe, palpitam asas de anjos, formando o cortejo daquela alma de anjo que se evola. O Sr. Weingartner confirma plenamente, nessa obra, a sua fama artística que é uma das mais espalhadas e vulgarizadas no Brasil.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 7 set. 1909, p. 7.

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