. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 6 set. 1903, p.3. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 6 set. 1903, p.3.

De Egba

A impressão geral de quem percorre as salas da Exposição Geral de Belas-Artes é a do espírito de absoluta catolicidade que presidiu a admissão dos trabalhos, fato que já se tornou notável nos anos anteriores e que no corrente se faz mais sensível pela maior severidade relativa do júri, que elevou um tanto o nível dos quadros expostos. Realmente, em uma exposição realizada sob os auspícios do corpo dirigente de uma escola, tendo na sua comissão maioria de membros a ela pertencentes, mostra o maior liberalismo de espírito e a mais tolerante e louvável imparcialidade a reunião lado a lado de trabalhos de artistas como o Sr. H. Bernardelli, o Sr. Amoedo, o Sr. João Baptista, o Sr. Visconti, o Sr. Helios Seelinger, o Sr. Gaston Cariot, Raoul Carré, Auguste Matisse, Richard Rauft, Garrido, etc.

Outra impressão que produz igualmente a exposição, é que a maior parte dos trabalhos visa mais a demonstrar certa habilidade técnica, certa correção de execução do que à expressão de um sentimento, a representação de um certo ideal emotivo como o elemento preponderante na produção da obra artística. Este fato é o que se nota em geral em todas as exposições e não se poderia esperar que a nossa fosse a única a constituir a exceção da regra.

Dada a estreiteza do nosso meio, a falta absoluta da mais insignificante animação quer oficial quer particular, não é de admirar que se não apresentem quadros de grande fôlego, mas pelo contrário deve surpreender que os nossos artistas ainda se abalancem [sic] a expor trabalhos cheios de interesse e boas qualidades técnicas e que pelas proporções fáceis de acomodar-se em qualquer salão, não deveriam, como geralmente acontece, voltar para os ateliers dos seus autores.

A atual exposição, embora não possuindo nenhum quadro que se saliente extraordinariamente dentre os demais, é bastante variada e contém bastantes elementos de atração. É na pintura de figura que os trabalhos são mais numerosos e alguns há de bastante interesse artístico.

Como já há muito nos acostumou, o Sr. Henrique Bernardelli apresenta este ano, na sua numerosa exposição, alguns trabalhos de que a gente se fica lembrando sempre. O retrato (n.35) é um desses primores de técnica que causam as delicias dos apreciadores do talento desse artista. É de pequenas proporções e representa uma senhora sentada em uma cadeira e vista de frente. Pintado numa goma [sic] escura, a figura emerge, com bastante relevo, do seu ambiente, com certa subtileza de tom e de iluminação. Além do rosto, o único ponto que tem certa saliência de cor é a pluma vermelho-escuro do chapéu, produzindo tudo um atraente efeito de grande harmonia. Todo o quadrinho é muito bem pintado e nunca a largueza e a liberdade de tratamento são sacrificadas.

No outro retrato (n.34), o de uma moça tocando violino, a tela é mais clara e a figura tem posição elegante e fina, sem perder de firmeza, nem de precisão de linhas.

O quadro Juca Cobra, é de efeito pitoresco e o Via Crucis, bastante vigoroso, não é falto de certo sentimento apropriado e simbólico.

O Sr. Rodolpho Amoedo, além dos trabalhos com que tomou parte na recente exposição dos aquarelistas, mandou um pequeno retrato a óleo e dois a ovo. O primeiro é o de uma formosa moça e é pintado com o tratamento cuidadoso e meticuloso a que ultimamente nos tem acostumado.

A tonalidade do quadro é toda cor de rosa e de grande delicadeza e sumamente agradável, apesar de ter um pouco o aspecto de pintura em porcelana.

Dos outros dois retratos, o melhor é o do Sr. V. M., mais sóbrio no tratamento e mais vigoroso.

O Sr. Visconti tem um bom retrato, a têmpera, de seu irmão, muito sereno de impressão e de grande semelhança.

O seu quadro - Cabeça de mártir - pintado visivelmente sob a reminiscência dos velhos mestres espanhóis, é vigoroso de modelado e expressão e faz lembrar uma escultura.

O Sr. Fiuza apresenta alguns dos sólidos estudos que trouxe da Europa, principalmente os diretamente influenciados pelo meio em que viveu em Munique.

O melhor de todos, na nossa opinião, pelo estudo de modelado e expressão apropriada, é o n. 120 - Cabeça de velha - que o Sr. Oliveira Lima adquiriu com tanta felicidade de escolha. O estudo do nu (n.124) tem boas qualidades de observação e de desenho, e é também interessante o n. 121 - Dominó.

O Sr. João Macedo, prêmio de viagem em 1900 e que acaba de chegar da Europa, tem dois trabalhos que se nos afiguram não representar progresso sobre o que o artista já fazia.

Esperaremos a sua próxima exposição para melhor apreciar o que ganhou com a sua estadia na Europa.

O Sr. Joaquim Augusto Marques Guimarães, um artista que se retirou para o Estado de São Paulo, onde se tem dedicado ao professorado com bom êxito, mandou um bom retrato de senhora.

O Sr. Raphael Frederico expõe quatro trabalhos interessantes, dois retratos e dois quadrinhos de gênero. Todos eles agradam pela sua cor limpa e pela expressão. O Sr. R. Frederico tem uma predileção simpática pelos assuntos em que os personagens são crianças e, com os elementos que possui e com mais cuidado no tratamento, pode-se constituir, nesse interessante porém difícil gênero, um especialista tão apreciado como o são hoje em França Boutet de Monvel, Chocarne Moreau, Miss M. A. Bell e outros.

Do artista francês E. L. Garrido há uma bela cabeça, muito bem pintada e de extrema delicadeza, toda ela em uma tonalidade branca, com grande simplicidade de execução e de subtil expressão.

Na paisagem, de que está cheia a exposição, tem três esplêndidos quadros o Sr. João Baptista. Este artista, incontestavelmente um dos que melhor traduzem a nossa natureza, sabe imprimir aos seus trabalhos - de motivos muito simples - tal cunho de realidade que os seus quadros são como que janelas abertas para trechos da nossa paisagem. Procura notar com exatidão as impressões que no seu espírito deixa o recanto de mata, a volta de rio ou um trecho de praia, com a luz própria da hora, e pintá-las como lhe aparecem, sem nenhum arranjo ou combinação introduzida. Na cor visa mais o que é verdadeiro do que o que produz efeito brilhante.

É essa impressão da realidade, de traduzir com verdade esse profundo verde da nossa paisagem que o preocupam e, como é um amigo da luz, escolhe sempre temas que impressionam profundamente, dando a sensação igual a da natureza própria e como que abstraindo quase completamente a personalidade do pintor. Em todas as suas três paisagens se nota essa mesma impressão, preferindo nós a intitulada Pescador, de uma tão exata translação da natureza, da região denominada de serra-acima.

Outro artista que tem sabido interpretar bem a nossa paisagem é Gustavo Dall'Ara. É de uma extraordinária sinceridade na representação dos trechos da natureza que lhe impressionam, quase sempre horas iluminadas de intensa luz do sol, que ele derrama prodigamente em uma reverberação cintilante de raios quentes, como que cobrindo a natureza de um véu vaporoso, de uma tênue gaze azul-argentina, produzindo um efeito intensamente ofuscante e empolgante na sua realidade. O quadro Morro do Trapicheiro é um dos melhores da Exposição; tem um primeiro plano tratado com bastante delicadeza e vigor, grande horizonte e as montanhas de fundo com a saliência necessária.

A aquarela Imediações da Praia Pequena é bem feita; preferimo-la ao quadro a óleo que sobre o mesmo motivo pintou o artista.

Na paisagem também faz boa figura o Sr. Henrique Bernardelli, que, além de esplêndidas aquarelas, mandou dois trabalhos a óleo, vistas de Teresópolis, traduzidas com a verdade com que ele transcreve tudo quanto se propõe pintar e com grande sobriedade de cor.

O Sr. Visconti enviou uma vista do Morro de Santo Antônio, pintada em têmpera e de impressão agradável e com a nota pessoal.

O Sr. Eugenio Latour, que se acha na Europa, enviou dali dois quadrinhos, duas vistas de Paris, muito finamente observadas e pintadas, mostrando a ductibilidade do seu talento e a influência que já o novo meio está lhe imprimindo.

Dos quadros de artistas estrangeiros, o de Ricardo Rauft, dos grupos da nova geração e dos neo-impressionistas, La Neige au Village, tem boa entoação, produz sensação de espaço e augura-se aos que dá bem o efeito da neve; e se há algum relaxamento no desenho da carroça e outros pormenores, isto explica-se, porque o quadro foi visivelmente pintado com a preocupação principal de dar um efeito de cor e de luz.

Dos dozes [sic] de Raoul Carré, também um novo, pintados com uma largueza de pincelada, um empastamento e um pseudo impressionismo absurdo, o de n.63 Procession en Poitou, tem movimento e destaque; mas o de n. 64, é um simples amontoado de camadas espessas de tintas mais ou menos vivas, em que dificilmente se pode descortinar a intenção do artista.

O quadro Floréal - Poéme de Saison - de Gaston Cariot é uma extravagância mas uma extravagância artística feita por um pintor que inegavelmente tem talento e conhece o metier da sua arte. Pertence a uma escola como a dos pointillistes e virgulistes, e chega a um resultado verdadeiramente interessante. A tela é inteiramente coberta de mosaicos minuciosos, quase baixo-relevos feitos quase a duas cores, e tocados de pontos brancos, e com esses singulares maneirismos técnicos, admira que ele conseguisse dar tão atraente efeito de espaço, de ar, de atmosfera, de vibração de luz e de primavera em flor.

Na próxima notícia trataremos dos novos artistas e das aquarelas.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 6 set. 1903, p.3.

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