. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 5 set. 1913, p.6. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 5 set. 1913, p.6.

De Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES - Novas visitas ao “Salão” atual não diminuem sensivelmente a impressão de que esta exposição é bastante superior às destes últimos anos.

Entretanto, concorre nele um fato que, não passando despercebido de quantos acompanham de perto o movimento artístico entre nós, lhe minora grande parte da graça e encanto. Muitas das obras expostas já foram vistas anteriormente em exposições parciais, de modo que, para aqueles que visitaram essas exposições, há muitas coisas que perderam o sabor da novidade.

Como, porém, na maior parte, estas obras possuem boas qualidades artísticas, estamos certos de que serão elas revistas com prazer por aqueles que já as conhecem.

Vamos agora citar algumas das coisas que mais nos impressionaram e que nos parecem dignas de ser lembradas.

Incontestavelmente o quadro que mais de pronto chama a atenção e a empolga, é o denominado “Baile à fantasia”, do jovem artista Rodolpho Chambelland. É uma poderosa nota de cor, um magnífico espécime de técnica colorista executado com singular gosto e habilidade.

O tema desse quadro possui grande caráter local, e adapta-se completamente ao tratamento que lhe deu o artista, que soube interpretar com bastante felicidade o seu espírito popular. Nem lhe falta o sentimento de expressão amorosa e algo erótica da dança.

A sua vizinhança prejudica sobremaneira aos dois outros quadros que R. Chambelland expõe igualmente, retratos que são outros tantos trabalhos que o honram, pela maneira como são pintados, o do Dr. A. P. (n. 57), parecendo revelar vigorosamente o caráter do retratado, e da D. A. B. (n. 58), feito com singular cuidado e estudo, uma obra de fina técnica.

Já agora continuemos a examinar as obras dos artistas mais moços, que os mestres, como João Baptista, por exemplo, seguros da sua sólida supremacia, podem esperar serenamente que lhe vamos bater à porta.

O Sr. Carlos Oswald, que há pouco tempo fez com tão brilhante êxito uma exposição de obras suas, no próprio edifício da Escola, tem na exposição atual dez dessas obras, que anunciam um talento nada banal, um temperamento fino, sincero de expressão, assaz vigoroso e já possuidor de uma boa técnica.

Dos seus quadros, não sabemos qual preferir: o retrato do velho (n. 181), de uma grande simplificação que deveria ter dado muito trabalho ao artista; o fino retrato de moça ao piano (n. 185), o excelente estudo de nu e reflexos de luz (n. 178) [Imagem], ou o quadro que fica por cima deste. Qualquer deles é um belo espécime de uma arte nada comum e fará a delícia de quem o vier a possuir. O próprio painel decorativo - “As forças da pátria” - faz boa figura com a sua nova colocação.

O Sr. Arthur Thimoteo da Costa expõe também um bom quadro de assunto carnavalesco [Imagem], mas cuja impressão não tem a alegria e a vibração do Sr. Chambelland.

É Pierrot que se recolhe pela madrugada, depois de uma noite passada em orgia. Pierrot arrima-se à parede, à espera que lhe abram a porta; sente-se que as pernas não lhe estão muito seguras e que a cabeça lhe pesa demais. Coberto de fitas e outros apetrechos carnavalescos, está ali ainda parado o automóvel que o trouxe. A cena é triste e desconsoladora, impressão que é bem traduzida pela tonalidade cinzenta da fria madrugada.

Bem pintado, esse quadro põe em distinta saliência o nome do jovem artista, de cujo futuro há muito a augurar. O Sr. Eugenio Latour também expõe coisas já vistas, mas que servem para mostrar que ele possui desenho firme, modelado, justo e delicado mesmo, e uma cor que, se não é luminosa e abundante, não é suja, nem deixa de ter exatidão. Reconhece-se certa sinceridade no que pinta, sendo de lastimar que nos seus estudos do nu, aliás bem feitos, não escolhesse modelos mais perfeitos.

O Sr. Carlos Chambelland expõe dois quadros de figura, um retrato do eminente Sr. Dr. Oliveira Lima e outro retrato poderíamos dizer, que ele intitula “La dame au gant”.

Como pintura propriamente dita, não são mal feitos; mas, como retrato, o do Sr. Dr. Oliveira Lima é “manqué”. É um tanto caricatural e ninguém, que o olhar, fará a menor ideia do retratado.

Já W. Burger dizia: “L’apréciation du personnage peint par l’artiste est pourtant nécessaire, lorsque qu’on étudie les qualités d’um portrait. Bien comprendre son homme est la prémiere qualité du portraitiste; bien peindre ne vient même qu’après”. Quem, diante daquele retrato em que as exuberâncias físicas do ilustre acadêmico estão pintadas com tamanho realismo, saberá reconhecer o escritor vigoroso, erudito e original, o conferencista vivo, expressivo e fino? Falta ao retrato o caráter do modelo. Demais, pelo modo como está pintada a mão trai-se o auxílio da fotografia.

O Sr. João Thimoteo tem dois quadros: um estudo de nu, duas figuras em tamanho natural, de costas, e um quadrinho de gênero - “O último toque” - um jovem escultor dando os últimos acabamentos a um pequeno gesso. Gostamos mais do último, que tem certa graça.

A pintura de nus do tamanho do outro quadro do Sr. Thimoteo, principalmente com os modelos desgraciosos escolhidos por ele, demanda, para ser aceitável, um vigor de pincel que o jovem artista ainda não possui. O Sr. Adolpho de Alvim Menge, discípulo de Barbasan, tem uma exposição muito numerosa e interessante. É um artista que caminha de vagar [sic], mas seguro.

Os seus quadros são dos mais agradáveis da exposição, pela feliz escolha de alguns dos seus temas, que ele ainda não consegue traduzir com o mesmo grau de sentimento com que lhe acodem à mente.

O quadro - “Serata d’onore” - que tem bom movimento, exigia uma execução mais desembaraçada e espontânea. O quadro - “Sedução” - tem coisas bem feitas nos acessórios, mas a figura é mesquinha, faltando-lhe como foco da tela o vigor necessário para contrabalançar os outros efeitos.

O quadro - “Hidromancia” - que traz ao espírito a lembrança de Alma Tadema, é um mimo de concepção delicada e executado com certa finura.

Tem graça e flexibilidade a atitude da jovem, uma Grega com certeza, acompanhando com visível interesse as evoluções das pétalas n’água, à procura da solução de um enigma que indubitavelmente lhe toca o coração.

Não devemos esquecer o Sr. Gaspar de Magalhães, que tem um estudo - “Antes do banho” - feito com toda a consciência e que é muito interessante e um bom estudo, a carvão, de cavalos.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 5 set. 1913, p.6.

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