. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 4 set. 1909, p. 4. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 4 set. 1909, p. 4.

De Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES - Ao começar a nossa notícia de ontem, escrevemos que íamos fazer um “apressado” resumo de impressões. Em vez desse tímido adjetivo, o que saiu no jornal foi “apurado”. Lavramos, pois, em defesa da nossa modéstia, tão cruelmente ferida, este protesto, cuja veemência toda a gente compreenderá.

O Sr. Henrique Bernardelli, “o nosso retratista nacional” - como diriam os Franceses se o artista fosse Frances - expõe quatro exemplares desse gênero que nos últimos tempos o tem quase completamente absorvido. O do Comendador Julio Cesar de Oliveira, verdadeira “máquina” de consagração para a galeria de Ordem Terceira, representa bem a maneira geral do artista, o paciente capricho do seu detalhe, o rigor do modelado que lhe merece sempre tão consciencioso e aplicado interesse. O retrato é apenas o rosto, pois que o mais se perde numa casaca e numas calças como todas as outras, empertigadas na pose clássica dos beneméritos, diante dum móvel rico de confraria. Mas esse rosto é uma das mais vigorosas, expressivas e bem acabadas obras de arte que já produziu o pincel magistral do artista. Outro retrato, o do Dr. José Prestes, obedece a outra espécie de cuidado e maestria; tem outra intimidade, outra interpretação típica; e na fisionomia, na larga testa saliente, no olhar que tem o misto de firmeza e nonchalance dos temperamentos fortes e contemplativos, no [...] da boca surpreendido num golpe do pincel vibrante - refletem-se bem os traços dominantes da psicologia do retratado. O n. 16 é mais um bom retrato na galeria do Sr. Bernardelli; o n. 18, uma nota fugitiva da qual o artista fará, quando quiser, outro bom retrato. E não passaremos adiante sem prestar aqui a devida homenagem ao espírito travesso e repentista de uma senhora, ou antes moça, aluna da Escola, talvez e com certeza leitora do Paiz...

Mademoiselle Três Estrelinhas? exclamou ela, depois de consultar o catalogo - Deve ser da família do Souza Lage.

O Sr. Brocos, modesto no nome e, honra lhe seja, no juízo que parece fazer de si próprio, dá-nos quatro telas, a mais ampla das quais se intitula A Ideia. É um assunto grandioso. Mete [sic] céu e mar, cenário infinito como a aspiração que nele se veio abrigar. Um poeta - ou um filósofo, pouco importa - a meio da sua lucubração, invoca o espírito protetor sobre a sua cabeça, o espaço enche-se da visão de Deus que estende o gesto magnífico e ao mesmo tempo, inspira e abençoa. O n. 19 reproduz uma velha cena veneziana, contra uma fachada de palácio, corretamente arquiteturada. Os outros dois trabalhos são: um trecho de proa de navio, onde alguns indivíduos dormem e outros jogam cartas (Imigrantes) e o retrato de Mme. D. C., tipo andaluz, garridamente vestido duma toilette vermelha.

O Sr. Giuseppe Brugo está por pouco tempo, dizem-nos, no Brasil. Que pena! Devia ficar. Mas as suas Velhas pedras de Jerusalém e o seu Retrato ficarão, de certo, e com orgulho quase lhes poderemos chamar “nossos”. A cor vetusta daquelas pedras que ouviram as preces de muitas gerações; aquele ambiente, em que se sentem errar todas as tradições duma fé e duma raça; as diversas atitudes daquelas figuras que rezam, ou se encaminham enlevadamente para o voto ou voltam, com a consciência satisfeita e o coração dulcificado - tudo isso se harmoniza e casa, peregrinamente. E a exatidão, a flagrância dos detalhes é empolgante: uma só das figuras, a última da direita, por exemplo, amarfanhada contra o muro, deixando pender a cabeça na humildade da súplica, bastaria para traduzir o sentimento profundo e concentrado que domina todo o quadro.

O retrato é belíssimo. A seda preta do vestido enruga-se, fofa e leve, em torno do busto: nos cabelos, vê-se a pressão recente do ferro de frisar; há outras minúcias felizes; e a fisionomia de rosado delicadíssimo, acusa uma bondade e uma distinção que não deixaram, de certo, de impressionar o artista, pois que tão expressivamente ele as faz transparecer.

O Velho Colono, do Sr. Pedro Bruno - que se dedica igualmente à pintura e à música - revela certas qualidades simpáticas e dignas de mais amplo cultivo. O Recanto da Ilha Porchat, do Sr. Marques Campão, mostra que esse artista não aprendeu ainda a distribuição e harmonia das cores que lhe saem da paleta um tanto cruas e pesadas; mas, por outro lado, apresenta, bem como os seus outros dois trabalhos, Aracy e Saudosa, apreciáveis qualidades de observação e desenho. A Sra. Carlota Gondolo Laboriau abordou um assunto romântico, os Inseparáveis na miséria, que vem a ser um velho, talvez faminto e desiludido, para o qual se voltam os olhos fiéis de um cão perdigueiro. A Sra. Cecilia Direndl [sic] mandou três quadros de flores: o n. 31 mostra-nos alguns crisântemos, excessivamente pinturilados; o n. 30 são algumas lindas rosas, dispostas com muito gosto e em cujo conjunto se salientam certos toques delicados, agradabilíssimos ao olhar; de rosas também - e dele se pode dizer a mesma coisa - o n. 32.

O Sr. Rodolpho Chambelland é um moço de incontestável talento; e o seu Retrato, parecendo embora ter sido feito em condições desfavoráveis e espinhosas, não prejudica o conceito em que já nestas colunas declaramos ter o artista.

O Cair da Tarde, do Sr. Christoffe, revela uma fantasia ardente e patética, a qual não faltarão, sem dúvida, admiradores. Os seus outros quadros são trechos de floresta, onde as ramadas exuberantemente se entrelaçam, desenhadas com certa preocupação de minúcia, que nem sempre favorece o conjunto - e uma volta do rio Paquequer, sítio aprazível em que o pintor se deleitou e que fielmente reproduziu.

O Sr. Coelho de Magalhães apresenta uma Cabeça, simpática cabeça de matrona portuguesa, com o seu lenço de cores vivas, as suas arrecadas e o seu cordão de ouro, e um ar, carinhosamente interpretado, de avó de aldeia, doudinha pelos netos. A outra tela do jovem artista, intitula-se No atelier; um pintor abre em ramos de compasso curvo, à altura dos olhos, o polegar e o indicador da mão direita, para medir a cabeça do modelo nu, um velho com a resignação passiva de todos os modelos. A anatomia deste modelo é bastante dura; e a luz do recinto menos bem definida; outros defeitos se poderia talvez indicar ainda, mas nunca eles seriam de vulto a invalidar a promissora tentativa do Sr. Magalhães, que, por um estudo metódico e bem orientado, virá a tornar-se um belo artista.

O Sr. Crotti, com as suas impressões de Cascais e do Monte Estoril, revela evidentes progressos em relação aos seus trabalhos do ano passado, que já lhe valeram uma menção honrosa do primeiro grau. Seu outro quadrinho, Mon modéle, é uma excentricidade.

E findaremos hoje com o Sr. Dall'Ara, que apresenta quatro estudos a fusain, corretamente desenhados.

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O quadro do Sr. A. Luiz de Freitas, Prenda de Noivado, foi adquirido pelo Senador Arthur Lemos; Riacho, do mesmo autor, pelo Sr. J. Velloso; o Fazendo horas, do Sr. F. Manna, pelo Tenente Gregório da Fonseca.

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A Paisagem (Tijuca) a que ontem nos referimos, é da Sra. Anna Fernandes da Costa.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 4 set. 1909, p. 4.

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