. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 4 set. 1904, p.4. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 4 set. 1904, p.4.

De Egba

Exposição Geral de Belas-Artes - Um escritor francês, Paul Gsell, na Révue de junho do corrente ano, ataca, em um artigo de grande pessimismo, os dois Salões parisienses, que diz concorrerem para a decadência atual da arte francesa.

Diz o articulista que a causa desse fato é o propósito que tem os principais artistas franceses de só expor grandes quadros, em que, pelas suas cores violentas, pela sua fatura brutal e panorâmica, pelos reflexos fulgurantes que de si lançam, pelos temas que falam à sensibilidade artificial do público, procuram obter facilmente efeitos que empolguem o público, principalmente o público que compra.

Isso prejudica obras menos vistosas, mas inquestionavelmente muito mais artísticas, que passam despercebidas no meio dessa enorme aglomeração de grandes máquinas, já [...] preparadas, a chamar sobre si a atenção dos visitantes.

Outrossim, como esses Salões são dirigidos por corrilhos de artistas que só miram, de combinação com os mercadores de quadros, tornar cada vez maior a procura dos seus produtos e dificultar a entrada no mercado de novos concorrentes, envidam todos os esforços para obstar a que se façam conhecer os artistas novos, de talento real e de sinceridade e independência de sentir.

Lembrávamo-nos desse artigo ao percorremos a nossa atual exposição; e, a proporção que íamos examinando os trabalhos ali expostos, a franqueza com que foram recebidos quadros de todos os gêneros, a maneira como se deixava, pela colocação de seus trabalhos, que os novos artistas demonstrassem impressivamente as qualidades, reconhecíamos, guardando as devidas proporções do meio, quão descabidas seriam entre nós as considerações do escritor francês.

Realmente, no nosso salão atual não são precisamente os pintores já feitos os que apresentam quadros os que, ou pela suas proporções ou pela sua combinação cromática, despertam e atraem as vistas os visitantes, nem tão pouco se exilaram para regiões altas e escuras, onde não pudessem ser descobertos e devidamente apreciados, trabalhos de artistas que ora começam a expor.

Dirão talvez os pessimistas que é isso devido à diferença de meios, principalmente a não existir ainda um mercado de obras de arte entre nós e por isso não haver razão para essas rivalidades, para esse receio da concorrência, para essa guerra a novos competidores. Seja como for, a verdade é que, na Exposição Geral de Belas-Artes, reinou a maior catolicidade na admissão das obras, e que, a não ser devido a grosseiros defeitos de execução, não se recusaram ali trabalhos de artista algum, qualquer que seja a escola em que se filie, qualquer que seja o ideal por ele abraçado.

Não é esta a primeira vez que temos tido ocasião de fazer semelhante observação. E é essa diversidade de obras, essa variedade de demonstrações estéticas que tornam tão interessante a nossa exposição, que contem na realidade uma porcentagem bem regular de obras de merecimento, em uma produção já bastante numerosa, dadas as condições pouco favoráveis do nosso meio.

Deve antes causar admiração que, sem termos ainda semelhante mercado de obras de arte, se possam fazer todos os anos exposições reunindo trabalhos que representam esforços sérios de artistas que, pela animação que recebem, dão prova de grande abnegação.

É realmente desconsolador, em vista da soma de labor, de esforço de dispêndio de talento e de estudo que representa uma exposição, verificar que o público em geral nem sequer vai vê-los quanto mais adquiri-los.

Compreende-se que, se todas as obras ali expostas fossem de somenos valor, seria rematada loucura querer que fossem apreciadas; mas isso não se dá; há ali uma boa porcentagem de trabalhos que não deslustraria a ninguém tê-los na sua casa.

A Exposição merece ser visitada uma e muitas vezes. Se a média geral não é de trabalhos excepcionais, nem o poderia ser em um agrupamento de cerca de 260 obras de arte, número já bastante elevado para o nosso meio, há ali muitas coisas excelentes e considerável variedade de esforços.

Ainda este ano o Sr. Henrique Bernardelli se impõe logo à atenção do visitante com uma série de trabalhos em que confirma a superioridade com que trata a figura.

Com duas pequenas exceções, toda a sua exposição deste ano consta de retratos, cinco em número e todos na sua melhor maneira. A sua obra deste ano é um triunfo da virtuosidade deste mâitre-peintre, e na pintura de retrato parece ter culminado com o de Arthur Napoleão.

Proficientemente tratado, o perfil do insigne pianista recorta-se tranquilamente no fundo escuro, produzindo impressão serena e agradável, com o olhar vago na expressão de abstração tão comum ao grande músico. O artista, sentado ao piano, e a mão direita descansada sobre o teclado, é visto apenas em busto, em virtude do corte longitudinal do quadro.

A composição cromática do fundo, com seus pretos quentes, dá singular relevo de figura e faz lembrar um dos grandes mestres italianos. Olhando-se para este retrato, só se vê emergir vigorosamente a figura de Arthur Napoleão, e a excelência de execução faz esquecer a própria técnica.

Junto ao retrato de Arthur Napoleão, está o do professor Brocos (33), feito a pastel, e de tamanho menor.

É só a cabeça do distinto artista que se destaca de um fundo arroxeado, com singular força de modelado e felicidade de expressão, em uma fisionomia de difícil translação. É uma bela afirmação dos recursos técnicos de Bernardelli e quadro que entre muitos goza de primazia.

O retrato da senhorita Amoroso Lima (n. 31) é pequena e adorável tela em que a figura infantil da pequena retratada tem a ingenuidade e a inocência próprias da sua idade.

Os outros dois são pintados ao ar livre e revelam observação precisa e exata dos efeitos de luz e modo admirável como foram vencidas as dificuldades peculiares a este gênero de trabalho.

O retrato da Sra. Oliveira Lima (n. 30) é um quadro interessantíssimo pelo seu arranjamento, pela profusão de luz que o inunda, pela harmoniosa combinação das cores e pela graça e destaque que tem a figura, elegante e donairosamente sentada naquele ambiente cheio de sol. O do Dr. Alberto de Faria (n. 32) também em corte longitudinal, apresenta o retratado em vestes de passeio, sentado na varanda da sua casa de Petrópolis, e conquanto igualmente ao ar livre, é feito em uma luz mais baça: o tom desse retrato é difícil, por isso chama a atenção a maneira como foi executado. A pose é cheia de despreocupada naturalidade; a exposição é boa, bem apreendidos os característicos da fisionomia do retratado.

Dos dois quadros de gênero que o Sr. Bernardelli expõe, ambos em aquarela, um - o Extasis (n. 28), já é nosso conhecido e a ele nos referimos por ocasião de falar da Exposição dos Aquarelistas. O outro - Como faria Casals (27), é habilmente concebido e executado. Representa um velho músico abraçado ao seu violoncelo, e perplexo sobre a interpretação que deve dar a algum trecho de música. Pergunta-se nessa conjuntura como o violoncelista Casals, que acaba de nos deixar, o faria; e a fisionomia do violoncelista (o mesmo modelo que serviu para os quadros Extasis e Avarento, este de propriedade do Dr. Rego Barros), tem a expressão apropriada.

-

Foi ontem adquirido pelo Sr. Arthur Vieira da Costa o quadro n.18 - Fonte da Saudade, original do Sr. João Baptista da Costa.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 4 set. 1904, p.4.

Ferramentas pessoais
sites relacionados