. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 28 ago. 1923, p.5. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 28 ago. 1923, p.5.

De Egba

XXX EXPOSIÇÃO DE BELAS ARTES - Prosseguindo na nossa nota a respeito da atual exposição, falemos hoje em primeiro lugar, do L. [sic] Lucilio de Albuquerque, que desta vez, além do desenho n. 105, apresenta três paisagens e uma marinha.

Esta, que é a de maiores proporções, representa um trecho de praia em que se vêem grandes rochedos e ao fundo a entrada da barra do Rio de Janeiro, pintado tudo largamente na sua maneira atual em que o uso da espátula é empregado com habilidade de métier.

O quadro A curva da estrada é um trecho de paisagem, belo, bem iluminado e interessante de cor.

Fiuza Guimarães é um artista que ultimamente tem andado arredio da exposição; causou-nos, pois, surpresa seu aparecimento na atual apresentando nada menos de sete trabalhos. São todos desenhos, sendo três a fusain, um sanguínea, e três a óleo, estudos de cabeças, que se podem bem classificar como desenhos, todos pintados em uma gama monocromática e com certa finura e correção, e parecendo certos retratos ingleses de artistas do princípio do século décimo oitavo.

Interessante os três trabalhos do Sr. Gaspar de Magalhães. O retrato em aquarela é muito bem feito, com muita desenvoltura e felicidade de caracterização. O quadrinho Midinete, uma figurinha atraente, com a graça viva e maliciosa do protótipo parisiense.

A Sra. Georgina de Albuquerque expõe três trabalhos que parecem tirados da sua recente exposição na Galeria Jorge, e de que pouco teríamos que dizer além do que então escrevemos a respeito dessa exposição.

Das obras catalogadas sob o nome do Sr. João Thimotheo da Costa, que mandou três estudos de paisagem, fortes de cor e na sua maneira, larga, há um trabalho que merece destaque, não só pelo seu valor próprio como pelo nobre sentimento que levou o Sr. João Thimotheo a expô-lo: é o retrato de uma artista, bastante distinta, deixado inacabado pelo falecido Arthur Thimotheo da Costa, mas em condições que o tornam bastante apreciável, de pose não comum, numa cor acinzentada e tranquila, numa apresentação bastante individual de retratada.

O Sr. Hans Paap é, diz o catálogo, de nacionalidade alemã e estudou em Munich; os trabalhos que expõe, porém, foram todos feitos aqui, vistas tiradas de pontos da Tijuca e da Gávea.

Não visa efeitos complexos, e não emprega muitas cores para os seus resultados finais, que são de grande simplificação, característica de uma nova escola moderna, uma espécie de pointillé. Os seus quadros, que têm sentimento decorativo não deixam de possuir certa nobreza de estilo.

O Sr. André Vento expõe dois trabalhos, dos quais agradou-nos mais o denominado Matinal. Em ambos se nota que tem sentimento de cor e de luz, que impressionam bem, um pouco divisionistas na sua maneira.

O quadro - Seara de Espinhos - do Sr. Argemiro Cunha tem composição que revela qualidade, tem cor, mas se sente que o artista ainda não está bem firme neste gênero de trabalhos e não conhece bem a malícia do métier.

O Sr. Pedro Bruno tem quatro trabalhos interessantes, dentre os quais salienta-se o de n. 23 - A Pescadora - bem composto, bem desenhado, fino de cor e harmonioso.

O Sr. Candido Portinari, que pela primeira vez aparece nas nossas exposições, é um moço ainda bastante jovem, mas que revela talento e grandes aptidões. O retrato que expõe tem boa composição: a figura está bem pensada, com boas qualidades de desenho e em ambiente.

A Senhorinha Sarah Villela Figueiredo tem dois trabalhos de figura, ambos pintados largamente e vibrantes de cor: vê-se que está em boa escala o que se não se desviou das pegadas do mestre, dará uma artista.

Não devemos fechar a notícia de seção de pintura sem citar as aquarelas da Sra. Y. d'Angelo Visconti, em que se vê que ela tem notáveis aptidões e bom professor e dizer duas palavras a Arthur Lucas, que, embora [...] por atroz moléstia, ainda teve bastante energia e animação para apresentar uma paisagem assaz interessante.

Raul Pederneiras expõe três caricaturas a aquarela. Além das qualidades artísticas que todos os trabalhos de Raul Pederneiras sempre possuem e do espírito que ele proverbialmente empresta a tudo que faz, têm elas grandes qualidades de observação e certo valor documentário fixando e conservando figuras que vão desaparecendo, - o que é também um medo de escrever história.

Na seção de escultura, o trabalho que mais nos impressionou é a estatueta em mármore Verdade, do Sr. Amadeu Zani, de muita finura e graça, em que se nota que o artista se inspirou mais na sua visão estética do que num apego servil ao modelo. É um trabalho executado com grande habilidade e que impressiona muito agradavelmente.

É um belo trabalho o busto de tamanho natural em gesso, S. Francisco de Assis, do Sr. Humberto Cavina.

O Sr. Antonio Mattos mandou dois trabalhos - Base do monumento ao Dr. Delphim Moreira (gesso) que tem qualidades de composição e de fatura, mas de que só se poderá fazer juízo seguro quando colocado no lugar a que se destina, e um busto em gesso - Velho Fauno - com qualidades de modelado. Também são expositores os Srs. Vicente Larocca com dois trabalhos que impressionam bem, Paulo Mazzuchelli, com um retrato em gesso do pintor Mario Tullio; Modestino Kanto, com um retrato em gesso do Sr. Alvaro Santos; Martins Ribeiro, com um retrato - medalhão em gesso; Leopoldo Silva, com um grupo sacro, em gesso, de grandes proporções; Francisco de Andrade, um busto em gesso; D. Amelia Sabino de Oliveira, com dois trabalhos Lindóia (mármore) e Sonho de Pedras (pedra), que têm certa originalidade e qualidades técnicas; Alberto Frederico, com um busto em bronze, e Albert Freyhoffer, com diversos plaquetes em gesso e um retrato em bronze, bastante parecido, do Sr. Affonso Vizeu.

Na seção de gravura de medalhas, naturalmente ocupa o primeiro lugar o Professor Augusto Girardet, com uma vitrina contendo sete medalhas, um retrato de senhora em ágata e um brasão gravado na mesma matéria. O valor de Girardet, como medalhista, já tem sido tantas vezes provado e reconhecido que seria pretensão querer encarecê-lo. Quem conhece as obras dos grandes gravadores de medalhas e pedras preciosas como Roty, Chanplain, Legros, Cozin, Charpentier, [...] e os seus discípulos que impulsionaram o renascimento dessa fina arte na Europa, dando-lhes as grandes qualidades das medalhas buriladas por Vittore Pisano, Matteo de Pasti e Benvenuto Cellini nos séculos décimo quarto e décimo quinto, há forçosamente de reconhecer que Girardet tem direito a um lugar ao lado daqueles artistas.

Para nós Augusto Girardet tem, porém, outro grande merecimento que deve ser constantemente salientado, e é a sólida educação técnica com que tem guiado uma série de artistas inteligentes como os Srs. Jorge Soubré, Arlindo Bastos, Herminio José Pereira, Ignacio da Silveira e Leopoldo Campos, prêmio de viagem em 1920.

Os trabalhos com que esses moços concorrem à atual exposição são dignos de exame.

A seção de arte aplicada é pequena: apenas quatro expositores, mas nem por isso deixa de ser atraente e revela o desejo e o esforço de alguns artistas em se lançarem em um campo que em diversos países da Europa, está cada vez mais preocupando os artistas que acham justamente que tudo quanto possa contribuir para tornar a vida mais agradável é digno da atenção e da atividade deles.

Theodoro Braga que há muito tem essa preocupação, merece todos os encômios por procurar nos elementos indígenas a sua inspiração para esse gênero de trabalhos, como o demonstra nos trabalhos que expõe.

Helios Seelinger, que desertou este ano da seção de pintura, expõe duas belas composições em azulejos, inspiradas tanto nos motivos como na fatura na arte portuguesa.

Muito interessante é o tapete bordado à mão da Sra. Wanda Marie, desenho de Raul Pederneiras - em anigem [sic] e lãs brasileiras. E bem assim os trabalhos do Sr. Ludovico Berna - vitral em estilo Luiz XV e as duas taças em prata dourada e em outro, cristal e mármore.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 28 ago. 1923, p.5.

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