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NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 26 ago. 1916, p.6-7.

De Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES - Trataremos hoje da seção de aquarela, pastéis e desenho.

O artista que ali mais atrai a atenção é o Sr. H. Puigdomenech Colom [sic], tanto pelo número como pela qualidade dos trabalhos que expõe.

O Sr. Colom há muitos anos que vive no Rio, onde se tornou conhecido como um artista decorador, que tem enchido de diversos trabalhos de merecimento o interior de muitos edifícios desta Capital.

Nunca, porém, expôs nada que pudesse fazer prever o aquarelista valente que ora se afirma com os dezoito desenhos que o representam na atual exposição.

Sem ostentar excessos ruidosos de virtuosidade, o Sr. Colom mostra-se senhor da técnica de aquarela, que sabe tornar flexível e amoldar aos temas que se lhe oferecem, divisando-lhes o caráter que traduz com a expressão apropriada.

Assim é que no quadro A féria do Dia a figura da Cigana é vestida com cores garridas, expressivas da profissão alegre que exerce o seu modelo, e a fatura mais nervosa e larga.

No grande quadro Catedral de Toledo, as riquezas de escultura, as belas linhas arquitetônicas, as complicadas disposições internas do grande templo católico são feitos de modo que se salientam na sua beleza e estilo característico, sem descabida pormenorização, e com singular segurança de perspectiva que sugere bem a extensão do amplo recinto. E na meia luz reinante como que expressa o sentimento de respeito e veneração que se apodera do espírito em meio tão importante.

Outro trabalho que impressiona fortemente é o denominado Derradeiros Raios do Sol, no qual o soberbo perfil do Corcovado se eleva grandiosamente num céu dourado pelos últimos lampejos incandescestes do astro rei, prestes a desaparecer.

E nos quadros ns. 388, 395 e 396, o caráter dos penhascos, duros, sólidos, sombrios, é dado com singular efeito de verdade.

O mesmo se pode dizer do quadro Palmas de Santa Rita, no qual a aparência que tem essas flores é bem expressa.

E essa sugestão do aspecto externo dos objetos igualmente se patenteia nos seus quadros de frutas.

Os trabalhos do Sr. Colom são dos que mais realce dão à exposição.

O Sr. Alfredo Norfini, Italiano de origem, mas há muitos anos domiciliado no Brasil, tem nesta seção três trabalhos dignos de nota: duas paisagens muito finas, justas de cor, e de efeito nobre, em têmpera, cuja técnica maneja com maestria, e uma boa aquarela, cujo tema foi bem observado.

O Sr. Levino Fanzeres tem boas aquarelas e uma nota a pastel muito atraente, de bom desenho e vibrante cor.

Ainda nesta seção o jovem artista Sr. H. Cavalleiro se acha bem representado com um bom pastel e duas aquarelas cheias de frescura.

Igualmente com boa nota de frescura são as seis aquarelas que expõe a Sra. Dona Georgina de Albuquerque.

Uma jovem artista que se apresenta muito bem, é a Sra. D. Sylvia Meyer, que tem espalhados pelas diversas salas da exposição meia dúzia de trabalhos a pastel que muito a honram como ao seu distinto mestre, o Professor Henrique Bernadelli.

Já é bastante forte na técnica desse fino e delicado processo, e de bom desenho, os seus trabalhos agradam, devendo-se salientar o de n.335, que é um bom retrato.

Também merecem menção os trabalhos a pastel da jovem artista D. Adelaide Lopes Gonçalves, pelas boas qualidades que revelam.

Ainda a pastel devemos destacar o retrato da autoria da Sra. D. Pedrosa do Rego Monteiro [sic], artista já consagrada e cujos trabalhos falam por si. O retrato a que nos referimos teve a honra de ser admitido no “Salon des Artistes Français”.

São também dignos de carinhosa nota os trabalhos a guache da Sra D. Julieta Maria [sic], que fazem lembrar os do seu professor, o falecido Insley Pacheco, que cultivou com tanto esmero esse processo de pintura: e nessa similaridade está o melhor louvor dos trabalhos expostos pela distinta professora.

Agora cumpre-nos falar de uma das obras que mais prendem a atenção do visitante nessa pequena mas tão simpática sala da Exposição.

Queremos nos referir à serie de desenhos coloridos feitos pelo Sr. Corrêa Dias, para ilustrar um livro de um dos mais distintos dos nossos jovens poetas.

São da lavra de um artista português, Corrêa Dias, cujos trabalhos são, pela primeira vez entre nós, expostos ao público.

Essa arte da decoração de livros é muito antiga, pois data, pode-se dizer, da iluminura dos manuscritos, cujos primeiros espécimens se encontram nos antigos papiros dos Egípcios.

Os gregos e os romanos a cultivaram e, na Idade Média, achou ela guarida nos conventos, onde os artistas que os habitavam deixaram uma série de Bíblias, Missais e Livros de Hora magnificamente iluminados, obras primas no gênero que são dos mais preciosos legados da arte medieval.

Na arte da iluminura conheciam-se três estilos: o bizantino, que surgiu em Constantinopla, no segundo século da era Cristã, e no qual se mesclavam ornamentações de estilo ocidental com motivos de procedência asiática e no qual se notava um abuso só ouro: o irlandês, cujo característico consistia no emprego de espirais e de enastrados, com entrelaçamentos de monstros grotescos, e o Carlovingrano [sic], que apareceu em França e na Alemanha, sob os auspícios de Carlos Magno e seus sucessores, e que foi o mais seguido nos países do centro da Europa, e se distinguia por um esplendor de colorido e harmonia de desenho.

Com o Renascimento e a descoberta da imprensa, veio o declínio da arte da iluminura: mas, a descoberta e o aperfeiçoamento dos modernos processos de impressão dos desenhos coloridos, facilitando-lhes a reprodução fiel e nítida de milhares de exemplares, trouxe a sua reviviscência.

Hoje em dia são em grande número os artistas que tem feito obras notáveis nesse gênero de trabalho, e foi para nós um verdadeiro regalo ver os trabalhos do Sr. Corrêa Dias.

Os desenhos a que nos referimos revelam de modo brilhante a presença entre nós de um artista, de um artista cuja obra apresenta uma rara combinação: notável inventiva e boa execução.

Conquanto fosse de certo modo buscar os seus motivos, e filiasse até certo ponto os seus desenhos, no estilo seguido no décimo quinto século, ele não fez um pastiche, mas fez obra individual com os elementos de desenho e de colorido próprios de um artista moderno. É de esperar que, na reprodução mecânica desses desenhos, a obra do Sr. Corrêa Dias seja dada ao público de modo a nada desmerecer da maneira original como o artista a executou, fazendo assim com que o livro que os seus desenhos vão enriquecer, tenha um duplo valor artístico que o tornará mais apreciável e fará dele um mimo que todo amador guardará com zelo.

Não devemos encerrar esta notícia sem citar as excelentes sanguíneas e o bom desenho do Sr. Augusto José Marques Junior, a quem não fizemos justiça quando deixamos de mencionar a expressiva cabeça a óleo que expõe sob o n. 280.

Outro bom desenho no mesmo gênero é o estudo a sanguínea do Sr. Domenech.

Do velho Valle de Souza Pinto, há um magnífico retrato a crayon do Sr. Conde de Frontin e dois finos estudos a lápis de figura. Parece-nos que, dito isto, está dito tudo quanto é necessário dizer com referência a qualquer desenho de Valle, tal a sua proficiência nesse gênero de trabalhos e a reputação de que justamente goza.

Raul Pederneiras tem uma série de charges em aquarela, feitas com bom desenho, muita felicidade e a verve característica.

Fechemos esta notícia registrando o aparecimento de diversas gravuras em água forte e água tinta, feitas por jovens artistas.

A água forte não tem sido muito apreciada e cultivada pelos nossos artistas; no entanto, é um dos ramos mais finos da arte do desenho, “a arte, como dizia um artista notável, que se poderia pôr de parte para obras executadas por artistas para artistas”.

Na água forte, o artista tem de possuir boa técnica, saber servir-se bem da agulha com que trabalha, saber desenhar com correção e firmeza, bem como empregar uma perfeita seleção no modo como interpreta o seu tema, no que consiste principalmente a perfeita execução. É a arte da linha pura e do claro-escuro, e a grande habilidade consiste muitas vezes em saber restringir-se e deixar de fora muita coisa que pareceria necessária para completar a obra. Na sua execução não se podem fazer nem alterações nem raspagens, nem eliminações.

É uma arte que exige, com especialidade, […] e critério seguro da parte do artista.

Por isso são pouco numerosos os artistas que tem cultivado a água-forte com […], e por isso também não devem causar admiração os preços elevados que alcançam, mas […] como Londres e Paris [...]

[…], pois, os jovens artistas Carlos Oswald, Argemiro Cunha e Adalberto Mattos, dedicando-se a tão fina especialidade.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição Natalia Mano Goulart Saraiva

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 26 ago. 1916, p.6-7.

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