. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 26 ago. 1914, p.5-6. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 26 ago. 1914, p.5-6.

De Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES - A exposição já vai em quase metade do tempo em que tem de estar aberta ao público e nós ainda não nos desempenhamos completamente da nossa tarefa anual.

A guerra que conflagra toda a Europa tem desviado da exposição a atenção e a frequência dos visitantes, e confessamos com certo vexame que também temos incorrido na mesma culpa.

Vamos ver se ainda temos tempo de nos remir dela.

Trataremos agora do Sr. Helios Seelinger, o artista que maior número de trabalhos expõe. É verdade que muitos destes são simples esboços e desenhos inacabados; mas todos eles concorrem para apontá-lo como o artista de notas mais individuais do nosso Salão.

Possuidor de suficiente maestria técnica, não a ostenta ao ponto de empolgar ela exclusivamente a atenção do observador, de modo que não o deixe perceber e impressionar-se com a ideia geradora da obra.

A sua pintura é sempre pessoal e subjetiva; e, como já dissemos quando ele começou a distinguir-se aqui, se trai alguma afinidade, é com a obra de certos artistas alemães, como Boecklin, Klinger e principalmente Franz Stuck, com o qual até tem certa semelhança fisionômica.

É um idealista que vai buscar as suas inspirações em temas da mitologia ou da Bíblia ou em concepções fantásticas que se prestam a ser tratadas pelo pintor, não como simples ilustrações, mas como imagens vivas e impressionadoras. É uma arte singular e perturbativa, dando por vezes a sensação de uma atmosfera erótica, e por vezes como que a impressão de criações demoníacas.

Das suas obras na atual exposição, quase todas contêm provas de desenvoltura ousada na concepção e de certa sugestividade poética, como, por exemplo, nas denominadas “A Negra Corte da Vitória”, “Ruínas de Ouro”, “Salomé”, “Cântico das Sereias”, “Farandola”, “Queda Dantesca”, “Inferno”.

Nos seus desenhos das decorações para o Club Naval há harmonia no movimento das figuras, bem como encanto fantástico na composição.

Muito ainda se poderia dizer dos seus desenhos de Faunos, da sua concepção de Satã, das suas atraentes cabeças decorativas, mas o que acima fica dito é o suficiente para chamar a atenção para essa notável exibição de uma arte irrequietamente interessante e intensamente pessoal.

A passagem do Sr. Seelinger para qualquer dos outros expositores é um tanto violenta, pois que não há nenhum que tenha pontos de afinidade com ele.

Falemos de um expositor novo nas nossas exposições, cujo nome não se encontra no Catálogo, mas cujas obras se impõem a atenção do visitante. É um Sr. Cantú, pintor italiano que vive em S. Paulo, segundo nos contam, e que tem parentesco com o celebre historiador do mesmo nome.

Tem quatro trabalhos todos muito interessantes, revelando um artista bastante senhor de uma técnica sólida e larga, e que sabe pintar a figura com grande vitalidade. A sua mulher de preto, pintada com a maneira direta de um retrato, é formosa e pela sua expressão fisionômica denota que sua viuvez é recente. Tanto o chapéu que lhe coroa a cabeça como o vestido que lhe cinge o corpo elegante e esbelto, e as luvas de pelica preta que lhe apertam as mãos finas, são, respectivamente, bem representadas, e na maneira como toda a figura é apresentada e na habilidade e certeza da pincelada, há qualquer coisa que sugere leves reminiscências de Boldini.

A sua cena de crianças tomando banho de mar é um claro plein-air com boas figuras bem movimentadas: a sua mulher envolta em roupagens roxas, atraente na sua singular composição e cheia de expressão, e muito empolgante é a cabecinha cheia de vida do garoto no pequeno quadro retangular.

Falemos de uma moça que tem um grande futuro diante de si se não falharem as promessas que nos dão as suas já reais qualidades. D. Angelina Agostini, prêmio de viagem e que se acha atualmente estudando em Londres.

Tem três retratos que são três bons espécimes de execução séria e direta, e com certas qualidades de caráter. A sua cor não é talvez tão limpa quanto era de desejar; mas, com as tendências que parece serem as dominantes do seu espírito e com as lições que naturalmente há de haurir no meio que escolheu para aperfeiçoar os seus estudos, é de esperar que nos volte uma retratista excelente. A base que já tem, é sólida e há muito a esperar do seu invejável talento. Há certa maliciosa e cruel acentuação na interpretação psicológica dos seus dois retratos masculinos.

O Sr. Oscar Pereira da Silva expõe dois quadros de nus que já estiveram no “Salon” e que servem para mostrar a sua habilidade técnica, principalmente na riqueza meticulosa dos acessórios. São dois quadros de bonito efeito e que ainda agradariam mais ao geral dos visitantes se os modelos fossem menos planturosos.

O Sr. De Servi, artista assaz conhecido entre nós, tem um retrato de senhora de qualidades regulares e um quadro de figura um tanto pesado de execução.

O Sr. Luiz Christophe tem três boas paisagens, das quais a de n. 168 - “Por de Sol” - efeito poético.

O Sr. João Baptista Bordon, três paisagens de Petrópolis, que revelam o discípulo de Baptista da Costa, e que seriam muito interessantes se não fosse a uniformidade de tratamento em todos os planos.

É muito interessante, pelo efeito de vibração de luz, a paisagem de Arthur Thimoteo da Costa e assaz finas as paisagens mineiras do Sr. Annibal Mattos.

Devemos ainda chamar atenção para os trabalhos dos Srs. Dall'Ara, Lucilio de Albuquerque, D. Georgina de Albuquerque, Guttmann Bicho, Otto Bimgener [sic], etc.

Em próxima notícia diremos alguma coisa a respeito da secção de escultura.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 26 ago. 1914, p.5-6.

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