. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 24 set. 1905, p. 4. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 24 set. 1905, p. 4.

De Egba

'Exposição Geral de Belas Artes - Na atual exposição a turma dos novos que se apresentaram bem armados e ameaçando conquistar brevemente, e de assalto, lugar nas posições já ocupadas pelos seus mestres, é respeitável, embora não muito numerosa. Nos trabalhos desses moços observam-se tendências sãs […], esforços de emancipação, o desejo de revelar individualidade, de mostrar-se cada qual como é, procurando inspirar-se tão somente na Natureza.

É fora de dúvida que quase todos ainda estão longe de conseguir completamente esse desideratum; mas o esforço nessa preocupação de querer dever tudo ao seu trabalho e ao seu temperamento individual é visível, e isso já constitui um sintoma muito inteligente e animador.

Já em uma primeira notícia ressaltamos a importância da contribuição do Sr. Eugenio Latour para o êxito da atual exposição e o muito que progrediu e trabalhou nos dois anos passados na Europa. Pouco teremos de acrescentar ao que a seu respeito já foi dito, e a opinião de quantos tem visitado a Exposição, tem-lhe sido uniformemente fértil de merecidos encômios.

Os seus quadros possuem a sedução que emana de uma visão do natural, simples e sincera.

O seu quadro Praga Social (144) tem grande valor e mostra o artista tão absorvido pela ideia que o inspirou, que a representação externa dela saiu com tal unidade e vigor de expressão que do primeiro lance recebemos vividamente a comoção como se estivéssemos diante do fato, esquecendo-nos de que se trata de uma pintura. A sua composição tem naturalidade de arranjo e verdade nas posturas e expressões das figuras. E as suas lacunas, se as tem, desaparecem no bom efeito do conjunto.

O seu quadro - As Tesourinhas - é talvez dos expostos o que mais tem agradado ao público. E realmente é isso que se devia dar: as três raparigas, tão bem observadas, tão cheias de vida com os seus formosos e rosados rostos, palpitam de malícia e de graça no meio daquele ambiente claro e luminoso, enchendo-o de alegria.

O quadro - Flores e Mocidade - é um interessante estudo do nu, com boas qualidades; e ainda poderíamos citar dele - a paisagem ao longe, um belo efeito de luz e de perspectiva, uma impressão de telhados, casaria e paisagem, etc., o quadro denominado Lygia; mas, para que especializar mais, quando todos eles agradam por mais de um título.

Do Sr. Rodolpho Chambelland, que obteve o prêmio de viagem, também fizemos referência circunstanciada na nossa primeira notícia, e o seu quadro - Bacantes em festa, se os profissionais podem-lhe achar defeitos, representa um belo esforço em arcar com dificuldades que recomendam o jovem artista.

Outro novo, que pela primeira vez aparece nas nossas exposições, é o Sr. Antonio Fernandez Gomez, que expõe vinte quadros que têm agradado muito. O Sr. Fernandez, que é filho da Galliza, veio para o Brasil em 1895, tendo treze anos de idade, e aqui ficou até 1901.

Durante esse tempo esteve empregado em um estabelecimento fotográfico de S. Paulo e nos lugares que lhe deixava o seu trabalho, entregava-se, sem o auxílio de professor, ao estudo do desenho.

Aos 19 anos de idade, tendo feito algumas economias, resolveu ir estudar pintura na Europa. Foi para Roma e nos três anos que aí passou trabalhou assiduamente, tendo por professor ao [sic] conhecido pintor espanhol Barbasan e agora apresentou-nos os resultados dos seus estudos. É admirável o que conseguiu em tão pouco tempo, tendo aos 23 anos de idade uma execução bastante forte, um tanto minuciosa, principalmente nos primeiros planos, com bastante solidez de fatura. Os quadros que expõe, em um número de vinte, são quase todos paisagens, vistas de interior de aldeia, estudos de pedra, arcarias velhas cobertas de hera, com interessantes efeitos de luz e sombra.

Os seus céus é que ainda deixam a desejar e a sua maneira ressente-se um pouco de falta de simplificação e de largueza, coisas que naturalmente adquirirá com o tempo. O seu quadro Trecho de Aldeia (101), é de uma fatura sólida, tanto na pintura das casarias como do chão, onde as sombras estão feitas com vigor. O quadro Olivares (92), que talvez rivalize com o antecedente em excelência de fatura, tem nos rochedos bem pintados, ambiente e perspectiva; podemos ainda especializar os quadros Estrada Escabrosa, 'Piazza delle Ville, O Ramalhete, 'Sol da Manhã, etc.

J. Timotheo da Costa é um audaz, e um audaz que tem talento; o seu retrato a carvão, em tamanho natural, é feito com muita largueza e bom desenho; a figura tem postura donairosa e caráter. Seu irmão Arthur Thimotheo da Costa tem dois quadros com figuras regulares, e tendências largas, sendo que em um tem um trecho de paisagem feito com sentimento do natural.

Carlos Chambelland, irmão do que recebeu o prêmio de viagem, tem um interessante retrato de moça, corpo inteiro, com detalhes bem feitos e boa impressão de conjunto.

O Sr. Eduardo Bevilacqua tem dois trabalhos, um retrato e um quadro bíblico, que, embora possuindo qualidades recomendáveis, não satisfazem tão completamente quanto as suas obras anteriormente nos faziam esperar.

O Sr. Lucilio de Albuquerque, também aluno da Escola, é um artista de merecimento, mas singularmente modesto; tem um temperamento delicadamente impressionável e reservado. Dos seus dois trabalhos preferimos a cabeça de menina a pastel, uma carinha risonha cheia de ingenuidade.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 24 set. 1905, p. 4.

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