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NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 24 ago. 1924, p.8.

De Egba

Edição feita às 00h24min de 22 de Abril de 2010 por Egba (Discussão | contribs)

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES - É sabido que o florescimento das belas artes é um dos mais seguros índices da civilização geral de um povo.

Herbert Spencer chamando a música, pintura e artes correlatas, de “flores da civilização”, exprimiu lindamente uma ideia verdadeira porque é certo que elas só vicejam, em toda a sua exuberância, nos meios civilizados, onde as condições do ambiente sejam propícias a tão delicadas culturas.

No Brasil, atinge a pouco mais de uma centena de anos de vida artística propriamente dita, com as características de método e observação que a tornam grande. Havia, é certo, nobres temperamentos, de fina e esquisita sensibilidade, mas isolados no seu sonho de beleza, desajudados de qualquer estímulo, ignorados nas suas aspirações de gloria e, por isso mesmo, limitados na produção e na sua influência exterior.

A missão francesa de Le Breton, aqui aportada em 1816, foi, talvez, o maior benefício trazido ao Brasil pela fuga de D. João VI. Daí parte, em verdade, a evolução e metodização da inteligência artística brasileira. Dada, pois, a exiguidade das nossas tradições a esse respeito, é mister reconhecer bastante animador o progresso das belas artes entre nós.

Quem quer que passeie longamente os olhos pelo “Salão” de 1924, terá, decerto, a presciência do brilhante futuro da arte nacional. A par de indecisões e impersonalismos de alguns “novos”, existem vitoriosas afirmações de outros. Há belos talentos, penetrados da divina febre da arte.

A exposição de pintura é, sobretudo, copiosa e valiosíssima.

Daria um trabalho de largo fôlego o estudo detalhado do que ali merece notícia e referência. Do que se segue, pode-se inferir, porém, o mérito geral do “Salão” deste ano.

“No campo” é um excelente quadro do professor Baptista da Costa. O cenário respira deliciosa suavidade. O rapazola, que aparece no primeiro plano, tem o mesmo ar de paz e de serenidade dos animais que o cercam, numa grande confraternização bucólica. “Árvore solitária” é outro quadro em que se revelam as qualidades de técnica do insigne paisagista brasileiro. O professor Elyseu Visconti dá-nos um sugestivo “Cuidado das flores”, um magnífico, “Santa Theresa” e alguns notáveis desenhos que se destinam à decoração do novo edifício do Conselho Municipal. Augusto Petit expõe um ótimo retrato, o “Paulo Delpech”, de impressionadora naturalidade.

Os vários aspectos da demolição do morro do Castelo, fixados pelo hábil pincel do Sr. Benno Treidler, evocam muito bem, diante do espírito do observador, a realidade de que são cópia. “A última ceia”, de Carlos Oswaldo, é uma excelente água forte em que o artista pôs á prova a sua capacidade de execução. Lucilio de Albuquerque manejou o seu consagrado pincel em sugestiva alegoria onde a alma de Bilac parece viver nalgumas das suas mais belas ideações poéticas como Phrynea-Alvorada do amor-Beijo eterno-Tentação de Xenocrates-Caçador de esmeraldas. Essa tela de Lucílio de Albuquerque é por assim dizer, o ritmo da sensibilidade do poeta traduzido em cor, transmudado em “nuances”. A técnica da Sra. Georgina de Albuquerque tem uma das suas melhores demonstrações no “Retrato da senhorinha R.O.F.”, de magnífica expressão. Helios Seelinger, com a imaginação ardente e a originalidade de concepção que o caracterizam, faz o “Lago dos amores” e a “Luta das ideais”, onde se evidenciam a primor, as suas inconfundíveis qualidades de fantasias da tela. As suas figuras evocam a grandeza semi-divina dos Titãs, e a agrestia das suas folhagens encerra alguma coisa de paradisíaco e soberbo. “Confidência”, de Theodoro Braga, é uma cena mundana em que aparecem duas jovens em diálogo íntimo, no recanto de uma saleta discreta. “Inspiração”, outro quadro do mesmo artista, é uma bela figura de mulher, nessa atitude de abandono peculiar aqueles cuja mente divaga, no surto alto da fantasia. “Ao bandeirante desconhecido” é uma das telas de maior relevo do “Salão” de 1924. A concepção desse trabalho é altamente feliz por implicar numa homenagem de profunda significação patriótica, lembrando aos corações brasileiros aquele herói anônimo que, primeiro tombou a entrada do país de maravilhas que ele ia conquistar. O quadro representa o esqueleto do bandeirante desconhecido, sobre o qual se debruça um anjo representado a glória. Ao alto, a História grava na eternidade do seu registro a imagem desse precursor benemérito. Ao derredor estua a beleza cantante da floresta virgem com os seus grandes troncos centenários e as folhas tenras da sua eterna primavera. A técnica do autor Fernandes Machado é positivamente irrepreensível. O sr. Meinhard Jacoby expõe um interessante “Estudo de expressão de um orador” em que se revelam apreciáveis qualidades de realização. O “Retrato do Sr. Julio Arp” é outra excelente tela que diz bem do sabor clássico da arte do Sr. Meinhard Jacoby. O Sr. Alberto Guignard tem um desenho de [“Velha”] que nos dá uma notável expressão de realidade. O Sr. Heinhard Graf é um artista que procura dar as suas telas um tom nitidamente pessoal. O seu traço tem alguma coisa que o distingue e nas suas telas repousam com agrado os nossos olhos. A aquarela “Luar em Blumenau” “Idílio na roça” e “Paisagem” confirmam plenamente o nosso juízo. “Elsa” é um quadro digno de menção. A Sra. Laure Enthoven demonstra requintada sensibilidade nos seus quadros, dos quais merecem nota particular “La maison blanche”, “Jardim em Belgique que e” [sic] “Les bords de la Seine” onde o seu grande amor pela natureza encontra magníficas oportunidades de expansão.

O Sr. Rudolf Wolff é um simbolista de arrojada imaginação. Os seus desenhos chamam a atenção dos visitantes pela sua originalíssima concepção. Entretanto, ninguém de boa fé, e medianamente entendido em coisas de arte pode negar o mérito de telas como, por exemplo, a “Fatalidade” de impressionante efeito. Oswaldo Teixeira é um dos “novos” de mais talento dessa plêiade de artistas. A sua execução tende para uma segurança impecável e a sua capacidade criadora é incontestavelmente superior. “Boas notícias” é uma deliciosa cena de família. A expressão do chefe de família que lê a carta recém-chegada, a atitude flagrantemente a vontade de todos os assistentes reunidos ao derredor de uma mesa, os pequenos detalhes do quadro, tudo é de jeito a dar ao espírito do observador a impressão exata da realidade. “O pescador” é outra tela que merece registro. A cara do homem de mar mordida do sol causticante da praia, é uma pequena obra prima. “Brindando” é um quadro alegre, que evoca a idade cavalheirosa em que a mulher e o vinho eram as duas paixões capitais que logravam florir a expressão dos rudes homens de guerra e de aventura. O “Retrato do pintor Augusto Petit” é outro gênero em que se evidencia, ainda uma vez, o mérito de Oswaldo Teixeira. Garcia Bento também um “novo” tem uma “Entrada da baía de Guanabara” em que se nos vão os olhos enlevados na sua arte notavelmente evocativa. “Mau tempo” é também uma tela sua, de real mérito. O Sr. Armando Vianna demonstra magnífica execução nas suas telas, sobretudo no “Retrato do Sr. J.P.” e no “Aniversário de vovó” em que o seu talento artístico parece ter-se singularmente esmerado. O esboço do Sr. Augusto Bracet, “A força do direito”, assinala um temperamento já perfeitamente educado e apto a enriquecer a arte brasileira com preciosas contribuições. A sua “Quietude” ratifica essa opinião, de modo feliz. O Sr. Edgard Parreiras na “Paisagem” e “Hora de luz” revela uma execução confiante em si mesma e uma sensibilidade altamente criadora. O “Trecho do rio Joana”, do Sr. Paula Fonseca, é uma visão de realidade, perfeitamente objetivada pelo artista. Levino Fanzeres concentrou na sua única tela exposta, “Águas de minha terra”, toda a sua capacidade de execução, e foi com muita felicidade que o fez. É muito notável também o “Depois das chuvas”, de Frederico Brandon, em que o espectador parece sentir a frescura do ar lavado e a grande paz das outras coisas mudas. Guttman Bicho fez um “Mãe” de deliciosa ternura e expressão. O seu traço, de uma grande delicadeza, presta-se muito bem para a arte do sentimento, em que é preciso fixar numa linha a bondade de uma fisionomia. O “Jardim do Luxemburgo” está perfeitamente à altura dos quadros anteriores do Sr. Gaspar Magalhães, o mesmo sucedendo com alguns outros quadros expostos por esse artista como, por exemplo, o “Retrato do Sr. G. S. Araújo”, de bom efeito pictórico. O “Retrato da Senhorita P.G.”, devido ao pincel do Sr. Alfredo Galvão, destaca-se pela naturalidade da expressão, em que brilha um doce, um admirável olhar. A “Mata iluminada” de Annibal Mattos reproduz um trecho da nossas incomparáveis florestas com uma vida e uma fidelidade que muito recomendam o talento do autor. Parece-se sentir a impressão de deslumbramento que nos salteia nesses recantos da natureza, cuja imagem por muito tempo nos acompanha como que fixada indelevelmente na retina.

O Sr. J. Hallais de Oliveira tem um “Retrato do colega Vicente Leite”, de excelente naturalidade, em que o seu pulso revela uma firmeza de traço digna de encômios. O Sr. José Maria Medeiros expõe alguns quadros de real mérito. “O beijo da vaga” é de grande efeito e impressionante beleza. “Irresoluta” é outra boa tela. “O dia de São João” é uma magnífica cena da roça em que surgem figuras de intensa vida. Sarah Villela tem dois bons quadros, sobretudo o do “Sr. F. G. A.” que é primoroso. A postura do rapaz, com a bengala e o chapéu numa das mãos e a capa negligentemente caída sobre o braço é, por assim dizer, um instantâneo da realidade. Finalmente, e para encerrar esta exposição que já vai longe, registre-se a forte ideia de Daniel Sabater “A mulher que vendeu o seu amor”, de grande efeito trágico. Esse quadro representa uma mulher morta, deitada em decúbito dorsal, com a boca retorcida numa indizível expressão de pavor. Ao fundo, desfilam sombras do remorso, visões malditas, de arrepiante expressão. A seção de escultura não tem, nem a exuberância nem o valor de conjunto que caracteriza a seção de pintura, que vimos de bosquejar nas suas linhas gerais. É sabido mesmo que essa feição da arte é pouco querida, senão mal prezada entre nós. Isso, entretanto, não tira o mérito de algumas obras dignas do apreço dos cultuadores da Beleza. Assim é que o Professor Petrus Verdié apresenta trabalhos muito notáveis dentre os quais se destaca a “Cabeça de criança” que é um primor de arte e dispensa por siso outras referências. O Sr. Modestino Kanto tem uma “Marcha triunfal” em que se percebe a vibração de toda a sua alma de artista buscando vazar na insensibilidade do gesso o seu sonho de perfeição. O “Retrato do Ministro Sampaio Vidal” executado também em gesso pelo Professor Magalhães Correia é uma obra digna de menção pelo carinho da sua execução. A maquette “Tiradentes”, de Martins Ribeiro, é uma das melhores evocações que notamos dessa grande e inconfundível figura da nossa historia. “Eu sou o espírito que nega”, do Sr. Antonino Mattos é de um simbolismo um tanto arrojado, mas incontestavelmente interessante e digno de registro especial. O busto em bronze do “Comendador Thomaz de Aquino Mindello” diz bem do talento consagrado do Professor Honório da Cunha Mello, cujo pulso seguro se evidencia ainda no “Gonçalves Dias”, magnífico busto em gesso. O Sr. Francisco de Andrade trabalhou a primor na estatueta em gesso do Sr. Arthur Bernardes, Presidente da Republica. O artista fixou bem o perfil do eminente homem de Estado, que se destaca esplendidamente com as suas linhas mais características. O Sr. Orestes Acquarone deu-nos uma “Loura” [sic] de extrema gentileza e o Sr. Armando Braga foi totalmente feliz no seu “O Braguinha”.

O Sr. Alfred Joel tem magníficos trabalhos em que todos se demonstra o seu belo talento e a sua perfeita técnica. É magnífico o seu “Frei Pedro Sinzig”, e o “Busto do menino Hamers” é de uma excelente execução. “O semeador”, do Sr. João Zaco Paraná é um gesso altamente sugestivo. Uma figura de homem no gesto de quem vai lançar à terra um punhado de sementes fecundas, geradoras de vida, benfeitoras dos homens...

A Sra. Margarida Lopes de Almeida tem uma esplendida “Cabeça de velho” e o Sr. Hammerich (Gunnar) expõe um regular “Busto do Marechal Setembrino de Carvalho”.

Na seção de arquitetura há trabalhos de notável mérito.

“Fonte comemorativa da Independência” é um importante trabalho do professor Bernar, conjunto arquitetônico de grande relevo.

O seu projeto para um “Edifício para um grande hotel” é digno de registro. O Sr. Angelo Bruhus reproduz com boa técnica um “Solar brasileiro”. Lucio Costa e Fernando Valentim são dois artistas de boa escola cujos projetos, em grande número aliás, são merecedores de todo apreço. Capricham eles nos mínimos detalhes das há-

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