. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 24 ago. 1916, p.5. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 24 ago. 1916, p.5.

De Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES - O Sr. Lucilio de Albuquerque já não é bem um artista novo: há muito que se tornou conhecido nas nossas exposições, foi pensionista na Europa, teve a pequena medalha de ouro no "Salão" de 1912 e é professor da Escola.

É, pois, um pintor já feito e consagrado e do qual se pode esperar muito.

Não era, portanto, de surpreender que ele se atirasse a uma composição de muito fôlego e grandes proporções [Imagem]. A empresa era arriscada, envolvia problemas de custosa solução e, por isso, não é de estranhar que não houvesse sido bem sucedido in totum.

Entram na composição do seu quadro elementos que só um indivíduo com certos conhecimentos da arte de engenharia poderia apropriadamente empregar e, nesse sentido, o trabalho do Sr. Lucilio de Albuquerque contém senões que o prejudicam, mas que são suficientemente compensados pelas suas qualidades propriamente pictoriais.

Para quem sabe os óbices com que tem de arcar um artista incumbido de fazer um quadro oficial, para quem já passou por todos os dissabores que acarreta a execução de uma dessas grandes telas encomendadas pelos governos para recordar fatos que se desejam comemorar e gravar na memória do povo, há no quadro do Sr. Lucilio de Albuquerque o mérito de certas dificuldades vencidas que cumpre reconhecer em favor do jovem mestre.

Fez uma grande máquina que não deixa de ter valor, o que há de com certeza produzir boa impressão quando colocada no lugar a que se destina.

É natural a transição do Sr. Lucilio para a Sra. D. Giorgina de Albuquerque, também artista já bastante conhecida dos nossos amadores.

D. Georgina de Albuquerque expõe três trabalhos a óleo que agradam, dos quais um grande de gênero - Árvore do Natal - que logo chama e prende a atenção dos visitantes.

O assunto, embora não seja novo, foi bem aproveitado pela distinta artista e deu-lhe ensejo a pintar uma bela página que encanta a quantos a contemplam.

Nada mais interessante do que ver esse grupo de crianças em torno da árvore do Natal, variegadamente iluminada e carregada de brinquedos, que lhes estão sendo distribuídos.

No primeiro plano, uma moça, vista de costas ao plano, dá a música necessária à festa, e ao mesmo tempo se volta para um moço assentado perto dela, e em cujo rosto se vê a expressão de quem espera que o "Papa Noel" lhe mande um presente diverso dos que se acham pendurados na árvore simbólica.

Há movimento na composição, as figuras são boas e o tema do quadro bem contado na apropriada linguagem pictorial.

O quadro - Five O'Clock - é um bom estudo de pintura ao ar livre.

Tratemos agora dos trabalhos enviados pelo Sr. Henrique C. Cavalleiro, que se apresenta muito bem este ano.

É ele talvez dos artistas mais novos o que melhor figura faz e que maiores progressos revela.

Tem três retratos, todos muito bons, e um bom estudo de figura ao ar livre.

São todos feitos numa técnica muito larga e firme, com sólidas qualidades de desenho e com boa entonação, e que revela a intenção de procurar expressar a personalidade dos seus modelos.

É um artista cuja carreira futura será interessante acompanhar.

Outro artista jovem que merece destaque é o Sr. Guttmann Bicho, que também expõe uma série de retratos, feitos numa maneira segura e larga.

O mesmo se pode dizer do Sr. Raymundo Cela, que também expõe três retratos bem interessantes.

Outro jovem artista que igualmente merece menção é o Sr. Argemiro Cunha, cujo quadro - Um ponto preto - é bem feito.

O Sr. Leopoldo Gotuzzo, nosso patrício, enviou de Espanha, onde se achava ultimamente, sete bons trabalhos, todos de figura, dos quais um interessante estudo de nu.

Tem bom desenho e entonação, mas são feitos numa maneira um tanto mole, flou, que lhe prejudica algo a solidez.

O Sr. José Marques Campão é representado por cinco trabalhos de merecimento, dos quais mais nos agradou muito o de n. 151 - Uma nuvem.

Devemos, antes de encerrar esta notícia, citar o quadro Conciliadora, da Sra. Maria Pardos, de boas qualidades e expressivo; os estudos de paisagem do Sr. B. Pinto; o quadro " Retrato de Senhora" (159) do Sr. G. Coelho de Magalhães, que revela progressos, etc.

Pode ser que tenhamos deixado de destacar algum trabalho digno de nota, mas será isso devido ao modo como os quadros se acham colocados, que nem sempre permite um exame perfeito, ou então porque já nos tenhamos referido aos seus autores por ocasião de recentes exposições suas.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição Natalia Mano Goulart Saraiva

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 24 ago. 1916, p.5.

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