. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 22 ago. 1916, p.5. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 22 ago. 1916, p.5.

De Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES - Por motivos de força maior, só agora podemos voltar à nossa tarefa anual de dizer sobre os trabalhos executados pelos nossos artistas este ano, e agora reunidos no nosso "Salão".

A exposição atual é uma das mais numerosas que se tem realizado no edifício da Escola: mas não se pode em consciência afirmar que seja a melhor das realizadas desde que se iniciou a norma de se exibir anualmente, sob a égide do instituto oficial de arte, as produções anuais dos artistas nacionais.

Razões de fácil compreensão levaram a comissão de admissão a usar de extremada condescendência na escolha das obras apresentadas para fazer parte da exposição; esse critério, bastante contestável, talvez tenha algo prejudicado o nível da exposição. Todavia, ela possui elementos em número suficiente para torná-la assaz interessante e digna de ser visitada: o aparecimento de alguns pintores de valor, cuja convivência no nosso meio era, por assim dizer, ignorada, e o progresso feito por muitos dos nossos artistas mais novos.

Dos já consagrados, poucos foram os que se fizeram representar, naturalmente levados pelo desejo de deixar que os novos cultores da arte dominassem o campo.

João Baptista da Costa - na sua qualidade de Diretor da Escola - "noblesse oblige" - não podia furtar-se ao dever de comparecer ao "certamen" e dar o exemplo; por isso, lá estão mais algumas das suas tão expressivas translações da nossa natureza, que podem agradar umas mais do que outras, conforme as predileções de quem as examina, mas que possuem, todas, as peculiares qualidades que consagraram João Baptista o maior intérprete de certas fases da nossa paisagem.

Outro mestre que também enviou trabalhos é Henrique Bernardelli, trabalhos que, considerando-se o assunto que representam e a data memorial que ali se celebrou, tem a sua presença plenamente justificada. São uma coleção de vinte e dois medalhões a fresco, com os retratos de homens ilustres, artistas e estadistas, cujos nomes estão ligados à fundação e ao desenvolvimento da nossa Escola de Belas Artes.

Não só nesses retratos como em obras anteriores, o Professor Henrique Bernadelli deu provas de que é proficiente exímio nesse processo, como aliás o é em todos os da sua arte; e esses medalhões, que foram concebidos e executados para ser colocados na fachada do edifício que atualmente os acolhe, não devem mais sair dali, pois são um digno complemento dele.

Modesto Brocos, outro antigo Professor da Escola, está representado por trabalhos que não estão na altura de sua reputação.

Dos artistas mais velhos devemos ainda citar o Sr. Gustavo Dall'Ara, com um bom quadro de gênero, de bom desenho e expressivo, e o Sr. Augusto Petit, com uma série de retratos e paisagens, na sua conhecida maneira.

Na seção de pintura a óleo aparecem, pela primeira vez, nas nossas exposições, dois artistas italianos, ou antes [...] todos residentes no Estado de [...], que merecem especial destaque: [...] Antonio Rocco, Henrique Vio [...] Ziliano [Giorgio Ziliani].

O Sr. Antonio Rocco mandou [...] trabalhos, dos quais um denominado [...] Minatori", primeiros socorros, é talvez a melhor obra de pintura da Exposição.

É um quadro de gênero, de certas proporções: um trabalhador de uma mina ou de estrada de ferro se acha estendido no chão, vítima evidentemente de um desastre e cercado de outros indivíduos. Feito numa maneira sóbria e segura, o quadro tem movimento e vida e os indivíduos nele representados se acham atentos na ocupação do momento, que é socorrer o companheiro vítima do desastre, e o artista soube dar-lhe o verdadeiro sentimento da cena que pintou.

Entre os outros três trabalhos destaca-se um bom estudo de nu.

Em todos eles, observam-se a mesma técnica sólida e larga e sinceridade na maneira de expôr os assuntos.

O Sr, Henrique Vio é outro pintor cujo valor deve ser, desde já, reconhecido. A sua exposição é numerosa e variada e compreende obras notáveis tanto na concepção como na maneira expressiva com que as traduz. Os seus quadros tem desenho, boa compreensão dos valores e atraem pela sua maneira larga e franca.

Tem dois retratos que o honram. O de sua mãe (n. 238) possui caráter e expressão: a cabeça sai de um fundo escuro levemente esverdeado e não há no quadro outro ponto de destaque. O vestido preto é indicado sem grandes minudências, de modo que toda a atenção se tem de concentrar no rosto da retratada.

O do Dr. Rafael Briquet (n.269), em roupas de verão e num banco do jardim de sua casa, que se vê ao fundo é, também excelente, e um bom espécime de pintura ao ar livre, sem intensidades de luz que prejudiquem a caracterização do retrato.

As suas paisagens, vistas de Veneza e de S. Paulo, tem cor e pincelada firme e larga. Todas muito interessantes, de efeito agradável, especialmente a de n. 237, "Casebre abandonado".

O Sr. Giorgio Ziliano expõe um quadro de composição, "Guerra alla Guerra", de muita cor e movimento, e quatro estudos da própria cabeça do artista, vistas sob reflexo de luz artificial. São interessantíssimos os efeitos que pinta e, desenhista forte e concreto, deve ser um bom retratista, porque em todos esses quatro retratos, feitos sob luzes diferentes e posições variadas, soube manter a mesma semelhança e própria caracterização.

Dos trabalhos expostos pelos Srs. Carlos Oswaldo e Levino Fanzeres nada temos agora que dizer. Recentemente realizaram aqui exposições individuais e, como muitos dos trabalhados mostrados nessas exposições se acham atualmente na Escola, só teríamos que repetir mais ou menos o que então escrevemos.

São dois artistas que já conquistaram brilhantemente s suas esporas e a quem se pode vaticinar um belo futuro.

Na próxima notícia falaremos de alguns dos nossos jovens artistas que acusam progressos incontestáveis, para depois passar à seção de aquarela, pastéis e desenho, que contém algumas das melhores obras da Exposição.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição Natalia Mano Goulart Saraiva

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 22 ago. 1916, p.5.

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