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NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 21 ago. 1923, p.5.

De Egba

XXX EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES - A atual exposição contém, em todas as suas seções, obras que, pelo seu número, variedade e qualidade, merecem ser examinadas com atenção e apreço principalmente considerando-se as circunstâncias em que ela se realiza.

A exposição do ano passado pode-se dizer que mal acaba de encerrar-se e já os nossos artistas organizam outra, apresentando novas obras e evidenciando uma grande soma de operosidade, de atividade, de boa vontade que muito os honra, e esse esforço, essa produtividade, em que não se faz sentir que na confecção das obras expostas, houve descaso, precipitação, inconsideração pelo resultado, deve merecer o acolhimento mais fervoroso.

Há na atual exposição um fato que é digno de especial destaque: é o ressurgimento, se assim se pode dizer, de um artista que pelas suas produções mais recentes, parecia ter abandonado o campo em que conquistara os seus primeiros triunfos. Reaparece com obras nesse ramo pujante e fortes que surpreenderam e encheram de satisfação os seus antigos admiradores. Queremos nos referir à numerosa exposição de paisagens de Antonio Parreiras, que só por si bastaria para garantir o êxito da exposição.

Há também a revelação e a confirmação dos talentos de novos e esperançosos artistas e obras de valor de muitos de nossos artistas mais velhos e consagrados.

Voltemos a Antonio Parreiras: acostumado com a exuberância e o vigor da natureza brasileira, cheia de emaranhamentos e dificuldades e transplantando-se para a Europa, onde encontrou nos diversos países que visitou enormes diferenças de atmosfera, de conformação, de vegetação e de cor, era natural que lhe fossem necessários alguns anos para se apoderar dos novos objetivos e ambientes que se lhe deparam.

Com as qualidades do paisagista nato de observação e assimilação, conseguiu ele produzir uma obra interessantíssima e notável, com a individualização de cada nova região, cheia de frescura e de vigor e de grande variedade.

Em uma tão numerosa coleção de tantos e tão vários espécimes de seu forte pincel, não podemos especializar, mas sim reconhecer o seu grande talento e a sua grande produtividade.

É na paisagem que a atual exposição é mais rica: à frente de todos, o nosso grande mestre nacional João Baptista da Costa com quatro trabalhos valiosos, devendo nós destacar o número 11 “Em Plena Natureza” - a vista do amplo horizonte visto do alto da Serra de Petrópolis, tendo por fundo a cidade do Rio de Janeiro, tratada com simplicidade e vigor, com a perspectiva e o sentimento de vastidão desse grandioso panorama.

Levino Fanzeres tem uma amostra muito numerosa e muito variada assinalada pela feliz escolha dos pontos pintados, pela singularidade do modo como corta os seus temas, interpretando tudo com muito sentimento de forma e de cor.

O professor Lucilio de Albuquerque expõe cinco trabalhos de paisagem feitos em largueza e espontaneidade e fortes de cor.

O Sr. Edgard Parreiras mandou uma paisagem denominada “Mangueira”. O primeiro plano é ocupado por uma frondosa mangueira em sombra, destacando-se de um céu azul muito luminoso e como fundo vê-se a cidade do Rio de Janeiro.

É muito bem iluminada de sol e de uma coloração quente.

O Sr. Leopoldo Gottuzzo apresenta duas paisagens vigorosas de claro-escuro e de sobriedade de cor, agradando-nos particularmente a paisagem “Antigo forte do Leme”.

O Sr. Gottuzzo expõe também dois trabalhos a óleo e uma sanguínea. Os dois trabalhos a óleo “Retrato de J. B. e moleque triste”, estão pintados na maneira peculiar do artista e agradam muito. E o “estado de nu” (sanguínea) tem excelentes qualidades de desenho.

Elyseu Visconti é representado por seis trabalhos de assuntos diferentes, agradando muito o denominado “Afetos”, retratos de sua consorte e filhos, envoltos num ambiente harmonioso e de uma flagrante semelhança. O artista interpretou estes seus trabalhos pela sua última maneira.

De quadros de composição, o que mais avulta é o de n. 63, de Joaquim Fernandes Machado - denominado “O símbolo da fé mais uma vez repete o milagre da salvação; aos desesperados da terra só o consolo deixado por Cristo”.

A grande guerra que há pouco terminou, não inspirou nenhuma obra de arte, porque o quadro do Sr. Machado se decorra dessa conflagração, só o fez, reconhece-se indiretamente.

O cenário passa-se num campo de batalha: cercado de outros soldados moribundos, no furor da refrega, um oficial do exército, caído, vertendo sangue, já na agonia, é amparado por uma dama da Cruz Vermelha que, no ato de socorrê-lo, reconhece nele o seu marido. A mulher nesse transe doloroso, sem esperança de ver o seu marido reviver, exalta-se com o forte sentimento religioso com o pensamento da ressurreição; e, dominada por essa esperança enquanto com o braço procura proteger o marido moribundo que repousa a cabeça sobre um tambor coberto pelo pavilhão nacional, contempla com exaltação e fervor uma cruz que se delineou e surge do ambiente obscurecido pelo fumo e gazes dos explosivos de guerra.

Neste trabalho quis o artista simbolizar a mulher patrícia na nobre missão de enfermeira, que engrandece com a dedicação gerada pelo sentimento nobre do altruísmo espiritual inato no fundo de todo o coração feminino.

A cena é pintada sem exagero patético, nem falso sentimento.

Como obra de arte tem o valor pelo modo como o artista se esforçou por vencer certas dificuldades técnicas do seu tema.

Outro quadro que prende a atenção é a composição do Sr. Augusto Bracet, intitulado Direito de Asilo. Direito de asilo constituía antigamente uma prerrogativa de que gozavam certos lugares que constituíam verdadeiros santuários, que davam abrigo e proteção e do qual, os que neles se recolhiam, não podiam ser retirados nem mesmo pela força, sob pena de sacrilégio. Na Grécia antiga, os templos, na sua maioria, gozavam deste direito, e esse hábito, seguindo analogias judaicas, passou para a Igreja Cristã. A partir do décimo quarto século, as igrejas exerceram largamente esse direito de asilo, direito que pode-se dizer a legislação moderna extinguiu inteiramente.

Nos tempos medievais, em que as paixões eram fortes e a violência era coisa de que os protestantes não hesitavam em lançar mão, esses santuários foram o abrigo e a proteção contra os ataques dos potentados e das multidões.

É um dos casos desses atentados que o artista procurou pintar, e se o seu quadro não resultou inteiramente feliz, possui ele qualidades que o recomendam.

O quadro do Sr. Oswaldo Teixeira - Sinite parvulos venire ad me etc. - também pode ser metido nesta classe.

Este moço desde que começou a expor nunca deixou de chamar a atenção, quer os seus trabalhos agradem, quer não, tais qualidades de talento e execução tem mostrado.

O quadro a que nos referimos, tem muitos senões quer no arranjo quer na execução; mas, o fato de se ter arrojado a esse cometimento em tão verdes anos, pois o Sr. Oswaldo Teixeira ainda não tem vinte anos, só fala em seu favor.

No retrato tem mostrado inegáveis qualidades, e isto ainda se reconhece na atual exposição. O seu retrato do Sr. V. L. R., é bom, talvez o melhor dos que expõe, com bom e minucioso modelado, expressão e penetração. Os outros seus quadros de figura são feitos com cuidado, não se podendo deixar de reconhecer desproporção entre a cabeça e o resto do corpo das suas figuras.

É realista no retrato com qualidades sensíveis de interpretação de caráter.

É um artista de quem há muito que esperar e terá tudo a ganhar se lhe for conferido o prêmio de viagem.

O Sr. Theodoro Braga expõe três trabalhos, entre os quais se destaca o denominado “Senhora” excelente retrato, pose graciosa e nobre, de boa cor e bom desenho, e interpretação individual da retratada.

Carlos Chambelland está bem representado por dois trabalhos que agradam muito: “As comungantes”, assunto que tem sido tratado por vários pintores, mas a que o nosso artista soube dar uma versão simpática e agradável interpretando o tema com muita harmonia de tons.

O retrato de Mme. Chambelland parece bem semelhante, de uma maneira fluente e cheio de cor, e constitui também um quadro atraente.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 21 ago. 1923, p.5.

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