. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 20 set. 1912, p.9. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 20 set. 1912, p.9.

De Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES - Voltando à Exposição Geral, falemos do retrato de senhora e menina, do artista F. Pons Arnau, discípulo de Sorolla. É um bom trabalho, de um artista que conhece a sua arte, que pinta bem a figura e não encontra embaraços de técnica.

Rodolpho Chambelland tem dois retratos que servem para evidenciar as suas boas qualidades de desenho.

No retrato do Dr. J. M., pela igualdade de cor do fundo é do vestuário do retratado, vê-se que ele quis imitar Whistler naquelas suas famosas harmonias; mas, considerando que nesse gênero de pintura, os valores são assaz sutis, parece que a técnica devia ser mais apurada.

No retrato do Sr. J. H., há mais contraste, e por conseguinte atrai mais em consequência do aspecto mais vital.

Não gostamos tanto dos retratos do Sr. C. Chambelland, menos consistentes. D. Georgina de Albuquerque tem diversos trabalhos interessantes, entre os quais um excelente retrato do Sr. Azeredo Coutinho, cuja simpática fisionomia há de por força ir à posteridade, tal é o prazer e o afã que os nossos artistas têm tido em fixá-la na tela.

Outra senhora de talento, D. Angelina Agostini, expõe três trabalhos de figura, um retrato e dois estudos de cabeça, reveladores de uma incontestável vocação artística e estudo sério e aturado.

O retrato de senhora tem caráter tanto na maneira como está pintada a cabeça como na pose.

A figura de homem, D. Pablo, é bem modelada, e bem estudada, sendo de salientar a maneira como está pintada a mão.

A outra figura, uma cabeça de mulher ruiva, um modelo difícil mas muito grato para os artistas, possui também muitas boas qualidades, principalmente a frescura do colorido. Se continuar no bom caminho em que vai, é uma artista em cujo futuro se devem depositar as mais fagueiras esperanças.

O Sr. Levino Fanzeres que afigura-se-nos, aparece pela segunda vez na Exposição Geral, teve este ano a fortuna de alcançar o prêmio de viagem.

O Sr. Fanzeres tem uma exposição numerosa e variada, em que predomina a paisagem. É artista que possui evidentemente talento, mas que nos parece ainda pouco aparelhado para se guiar por si só em centros produtores das mais variadas e estonteantes impressões, como aqueles aonde deve levá-lo o seu pensionato.

O quadro que lhe granjeou o prêmio representa Judas Iscariote fugindo ante a figura de Cristo que lhe aparece em visão.

O quadro não possui grande homogeneidade de tons, parecendo os seus valores um pouco forçados.

A figura principal - a de Judas Iscariote - é bem concebida, mas um tanto pesada na cor, como que não se casando bem com o ambiente.

Não há negar que a ideia do quadro é boa, mas oferece dificuldades de interpretação com que as forças do jovem artista não podem ainda arcar cabalmente.

O Sr. J. Baptisa Bordon é um artista de talento, já afirmado em anteriores exposições, e um discípulo que tem seguido de perto a maneira do seu mestre, o Sr. João Baptista da Costa.

Todos os seus trabalhos revelam seriedade no estudo e um artista cuja tendência não apresenta dúvidas nem vacilações, mas que já sabe a trilha que há de seguir.

É um paisagista, inegavelmente; e no seu quadro "Nenúfares", um tanto singular de cor, pintado com certo cuidado, denota uma maneira individual de ver, de sentir e de exprimir que já não se coaduna com a do seu mestre.

Prossiga ele na rota que tomou para si, e o futuro não lhe regateará o reconhecimento a que fizer jus. O Sr. Gutmman Bicho expõe quatro retratos, tratados de um modo um tanto ambicioso para as forças do jovem artista e dos quais naturalmente não se saiu com o êxito com que contava.

Se o artista quiser trabalhar, empregando o seu talento em estudo aturado sem a preocupação de modelos mais ou menos atraentes, há de fazer obra de mais valor artístico.

Notamos ainda, uma boa paisagem do Sr. Antonio Zoppi; o retrato do Dr. Pereira da Motta, do Sr. Dumont la Bute, que tem qualidades; os retratos de Dona Francisca Azevedo Leão, etc.

Não podemos deixar de registrar os dois esplendidos estudos de Sorolla e o excelente estudo de cabeça de Malhoa, cuja presença honra a exposição.

Naturalmente, na nossa rápida resenha dos expositores, nous en passons et des meiuilleurs [sic]; mas, esperamos ser perdoados pela nossa falta.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 20 set. 1912, p.9.

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