. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 20 ago. 1920, p.5-6. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 20 ago. 1920, p.5-6.

De Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES Voltando à Exposição é de dever falar em primeiro lugar de João Baptista da Costa, o ilustre diretor da Escola e o mestre da paisagem entre nós.

Expõe dois quadros grandes - “Tarde calma”, vista da Lagoa de Rodrigues de Freitas, e “Últimos raios de sol”, Petrópolis.

O que mais prezamos em João Baptista é a sinceridade com que interpreta a natureza, dando do trecho de paisagem que escolhe para tema uma translação tão palpitante de verossimilhança e infundindo-lhe vida, como que fazendo um bom retrato dela e sabendo incutir-lhe a expressão que no momento apresenta. Dos seus dois quadros, talvez o primeiro tinha um aspecto mais alegre mais risonho, mais se tivéssemos de fazer uma preferência escolheríamos o segundo por nos parecer o que apresenta uma fase mais duradoura menos transitória da natureza e talvez mais impregnada de sentimento.

Lucilio de Albuquerque também expõe duas paisagens bem estudadas e muito bem iluminadas.

D. Georgina de Albuquerque expõe cinco trabalhos todos interessantes, todos possuidores de brilhantes qualidades de luz e de cor. São figuras de mulheres, ou isoladas ou grupadas, com grande arte, bem desenhadas, vestidas garridamente, e banhadas de quentes raios de sol, todas [sic] coisas muito belas, causando admiração não trem ainda encontrado amadores de bom gosto, que as adquirissem.

Helio Selinger mandou dois quadros grandes - duas marinhas, dois quadrinhos de figura e meia dúzia de atraentes notas de paisagem.

O simbolismo representa grande papel na arte de Helios Selinger. Talvez que as suas obras não saíssem incólumes de uma análise muito rigorosa; que possam parecer algo desiguais; que tenham falhas e que nem sempre as cores e as linhas tenham trabalhos à perfeição que os mestres poderiam desejar; mas, apesar de tudo, sentimos que devemos aceitá-las tais como elas são, no receio de que, se sofressem. Mas, [sic] alguma alteração, perdessem esse quê que nos prende e nos empolga. Como elas são, refletem bem o seu caráter, o caráter do seu talento, e isso é muito ou é tudo na obra de um artista.

As suas duas marinhas representam uma tentativa de corporificar ideias ou visões de fatos com o mar como campo de ação; e considerando-se que devem ter sido pintados mais de memória do que diretamente da natureza. Traduzem com bastante efeito as ideias que o artista quis simbolizar.

No quadro - Por mares nunca navegados pareceu-me dispensável ter introduzido a efígie de Camões que quebra a harmonia decorativa da composição.

A figurinha intitulada Colombina é cheia de graça.

Eugenio Latour é representado por um grande quadro de composição interior com muitas figuras. Este trabalho representa com verossimilhança uma cena que temos visto frenquentemente da qual até temos por diversas vezes feito parte.

É a antecâmara do gabinete de uma autoridade superior em dia de audiência. Um exame sério desse quadro mostra logo que deve ter ele custado ao artista muito trabalho e muita observação, pois que para conseguir a diversidade de posição de caráter de seus personagens muitos estudos do natural precisa ele de ter feito.

O quadro tem ambiente e tem composição e constitui uma obra notável, um esforço sério e digno de todo o respeito.

Temos ouvido incriminar a obra de Latour de um defeito que se afigura grande e que realmente o seria se fosse tão flagrante como o pretendem: - a falta de nivelamento do chão do quadro, o que lhe entorta a perspectiva.

Ora, como bem o disse o grande pintor inglês John Collier e todo o artista o sabe, “é sempre difícil fazer o chão num quadro parecer plano e que com uma perspectiva algo violento causa quase impossível. [sic]

Na pintura de retratos todos sabem que para obviar esse perigo os artistas tem quase sempre no seu atelier uma espécie de palco ou tablado onde colocam os seus modelos, porque, se o artista fica no mesmo nível do individuo que retrata, o chão corre o risco de parecer absurdamente inclinado. Isso pode ser até certo ponto evitado colocando-se a figura um pouco acima do plano em que se acha o artista. Além disso, o artista tem sempre a facilidade de afastar-se do trabalho para poder avaliar da perspectiva. Isso em um retrato: é fácil de imaginar quanto essa dificuldade redobra em uma composição de grandes proporções e que não pode ser toda pintada do natural e que nem sempre se pode lançar mão do expediente empregado por alguns artistas - o de adotar para o chão um horizonte mais baixo do que para o resto do quadro.

Carlos Oswaldo tem um quadro - Jesus entre os doutores - em que a figura do menino não possui o relevo nem a intensidade de expressão que nos pareceria indispensável, mas que tem uma figura de velho - com bastante acentuação e caráter.

Carlos De Servi, além do registro de que já falamos, tem um bom quadro de natureza morta e uma paisagem em guache.

Rodolpho Chambelland tem uma paisagem “Sol da tarde”, violenta de cor e de luz vibrante, que constitui um mau vizinho.

Arthur Thimotheo da Costa tem três quadros de paisagem na sua maneira larga, profusamente iluminados de sol, um principalmente, o denominado “Efeito de sol”, de violenta impressão É dos quadros que mais atraem os olhos dos visitantes na exposição.

Seu irmão Arthur [sic] [João Thimotheo da Costa] expõe uma vista da “Boa Viagem” feita com certa largueza, um estudo de figura e um quadro - um médico auscultando um menino nu [Imagem], com qualidades.

O Sr. Edgard Parreiras, que acaba de realizar uma tão interessante mostra individual na “Galeria Jorge”, tem uma paisagem [Imagem] e que é um dos trabalhos mais sérios da Exposição.

Outro artista que também apresenta duas paisagens dignas de apreço, pelas suas qualidades, é o Sr. Pedro Bruno, o prêmio de viagem do “Salão” do ano passado.

O Sr. Argemiro Cunha tem um retrato de senhora, de pé, bom de fatura e uma paisagem [Imagem], também com qualidades.

Levino Franzeres, que já é um artista consagrado, tem quatro trabalhos de boa expressão e sentimento.

Do Sr. Mario Navarro Costa é difícil falar. Chega-nos de Portugal precedido de uma aura que nos fazia esperar obra bastante diferente da que a que expõe: não compreendemos os seus quadros com cores que se nos afiguram demasiado cruas e com um desenho e perspectiva que não nos impressionam com particularmente certas.

Do Sr. Otto Bimgner [sic], gostamos de um quadrinho de figura “n. 96), um estudo de cabeça de moça, que é fino de modelado e de entonação e que não fica despercebido junto da paisagem de cores violentas do Sr. Chambelland. Do mesmo senhor, também gostamos de uma paisagem da Gávea.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 20 ago. 1920, p.5-6.

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