. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 set. 1911, p.5. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 set. 1911, p.5.

De Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES - Inaugura-se hoje, com a solenidade de estilo a Exposição Geral de Belas Artes.

Ontem, como nos anos anteriores, efetuou-se a cerimônia do vernissage, que não foi muito concorrida, mas a que afluíram diversos artistas e jornalistas, que encontraram os organizadores da exposição atarefados com arranjos e arrumações para desfazer a má impressão do pequeno concurso de expositores e apresentar, de modo a salientar-lhes as qualidades, os pouco numerosos trabalhos em exibição.

Todas as galerias do primeiro andar estão festivamente alinhadas de plantas, e na galeria do segundo andar, onde foram arrumados os trabalhos, um extenso velário forra toda a larga e longa claraboia dando boas condições de luz igual e harmonicamente suave.

Festões de folhagens artisticamente dispostas caem pelas paredes e intercolunas fazendo impressão agradável.

A comissão de admissão de trabalhos foi, evidentemente de máximo rigor, banindo inexoravelmente todos os tentames de pintura de natureza morta, de frutas, etc. - a quitanda, como diz um professor - que tão discordante nota davam a algumas das exposições passadas.

Mas, essa própria dureza que pareceria constituir um elemento de insucesso, vai contribuir para o êxito da exposição.

Porque, […] parte os trabalhos de […] artistas já feitos, que infelizmente […] não são em grande número e dos quais muitos estão ausentes, este ano, das paredes da exposição, o mesmo nível artístico, a qualidade das outras obras expostas ganhou consideravelmente com o que perdeu em quantidade.

Não há, por assim dizer, trabalhos que se possam dizer de amadores; e, embora haja bastantes trabalhos que, em exposições em um meio mais desenvolvido do que o nosso não seriam admitidos, a grande maioria dos cento e tantos quadros ali reunidos são dignos de ser examinados e acolhidos, alguns com o respeito e admiração que se devem ter a boas obras de arte, e outras com a mais simpática consideração.

Uma nota atraente da atual exposição é o aparecimento de meia dúzia de trabalhos de poucos, que, embora principiantes ainda, já revelam qualidades prometedoras de artistas com que se devem contar no futuro.

Na rápida visita que ontem fizemos, notamos que prendem logo a atenção, e com certeza hão de guardá-la durante toda a exposição, quatro trabalhos de Elyseu Visconti, atestando a maestria de um artista que alia a uma técnica que cada vez se apura mais singulares qualidades de visão. Tem, com especialidade, um retrato de menino, que é uma obra cheia de dignidade e vigor, num tom verde-escuro, de grande harmonia. Todas as obras de Visconti merecem destaque particular, que não pode ser feito numa curta noticia como esta, escrita quase sobre a perna.

João Baptista, o nosso grande paisagista, também está bem representado com meia dúzia de luminosas paisagens, resultados das suas excursões na rainha das nossas cidades serranas.

Rodolpho Amoedo deixou apenas um retrato, de pequeno formato, meticulosamente pintado, como tudo que ele faz ultimamente, mas no qual não deixou de dar à fisionomia do retratado o tom terroso que se lhe tornou característico, nem de emprestar ao vestuário certa dureza.

O fundo desse quadro, em aquarela tocada de óleo, é bem feito e interessante.

Modesto Brocos tem um regular retrato do Sr. Pereira Reis.

Do Sr. Brugo, o distinto pintor espanhol que vive em Nova Friburgo, interessantes quadrinhos de paisagens animadas de figuras e animais, bem iluminados e sinceramente pintados.

Do velho Pacheco há toda uma série das suas inconfundíveis e apreciadas guaches.

De Barbasan uma admirável composição caricatural, cheia de verve e enlevée com singular presteza e segurança.

Do seu discípulo, o Sr. Alvim Mange [sic], um quadrinho de paisagem, com muita cor e luz.

Dos novos, o Sr. G. Magalhães aparece com um quadro cheio de vida, crianças numa praia, brincando com caranguejos, numa tonalidade clara, um esforço sério em que se sente a influência do quadro do grande pintor italiano Ettore Tito, entrado recentemente para a Escola.

O Sr. Puga Garcia tem um quadro alegórico de figura ao ar livre, um tema pagão, em que há muito sentimento.

Outro novo, o Sr. Bicho, tem um retrato cheio de qualidades.

Boas notas de paisagem do Sr. João Baptista ... Bourdon, quase diríamos ... da Costa, tamanho ao [sic] de família tem elas as do mestre.

Há duas moças que se apresentam com trabalhos de figura, que prometem: são as Sras. Rego Monteiro e Angelina Agostini.

Só um quadro de frutas, umas bananas pintadas sobre um fundo de veludo azul-ferrete, bananas cheias de expressão, se assim se pode dizer, e desafiando a gula de quem olha para elas, e um veludo macio e cheio de reflexos encantadores. É um quadro que poderia ser aceito em qualquer exposição.

Na seção de escultura, que não é muito grande, os trabalhos do nosso ex-pensionista na Europa, o Sr. Moreira Junior; de um escultor português recém-chegado, e um ¨gato coçando-se¨, um estudo feito com largueza e espirito, de outro artista, também recém-chegado, o escultor francês Verdié.

Na seção de medalhas, interessantes trabalhos do Sr. Adalberto de Mattos.

Em uma rápida visita e sem o catalogo, que constitui sempre um valioso auxiliar mnemônico, é natural que tenhamos deixado de mencionar trabalhos dignos de nota e cometido injustiças. Faremos o possível em repará-las em notícia posterior.

É pena que os dois jovens pensionistas recém-chegados da Europa não quisessem concorrer com todos ou alguns dos trabalhos que trouxeram, enriquecendo assim a exposição anual, onde um deles já foi premiado e onde ambos poderiam adquirir novas distinções.

A comissão organizadora merece encômios pelo modo com que fez as coisas este ano, e é de esperar que o público não abandone as salas da exposição, deixando assim de levar aos artistas o incentivo e o galardão do apreço a que tem direito os seus esforços.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 set. 1911, p.5.

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