. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 set. 1910, p.6. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 set. 1910, p.6.

De Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES - Considerando o nosso apoucado meio, a falta de animação que aqui têm os artistas, o quase nenhum auxílio que lhes dá o Estado, não podia ser mais satisfatório o resultado dos esforços dos promotres [sic] da atual Exposição Geral de Belas Artes, que hoje se inaugura.

Com uma perseverança merecedora do mais rasgado reconhecimento, os membros do Conselho Diretor da Escola têm realizado, com regularidade poucas vezes interrompida, no decurso de cerca de vinte anos, essas exposições gerais; e se os resultados não têm sempre sido tão lisonjeiros quanto o desejaria o nosso patriotismo, é inquestionável que elas têm servido para manter vivaz a atividade dos nossos melhores artistas, para despertar a emulação de muitos talentos que sem elas continuariam a permanecer desconhecidos e para ocasionar o aparecimento de novas e aproveitáveis vocações. Se nomes conhecidos desaparecem do catálogo, por motivo de desânimo ou de falecimento, sempre surgem outros que de algum modo compensam a perda daqueles e trazem novo alento aos que não desesperam do futuro da arte entre nós.

Eram essas as considerações que nos passavam pelo espírito ao percorrer ontem, por ocasião da tradicional cerimônia do vernissage, a grande galeria onde foram reunidas as obras que constituem a exposição de 1910.

O júri de admissão foi este ano mais rigoroso do que o dos anos anteriores, e com isto, se diminui muito a quantidade de obras aceitas, elevou sensivelmente o nível da exposição.

É de lastimar que esse rigor não fosse um pouco mais intenso, e que a exposição não ficasse expurgada de alguns quadros que não possuem as qualidades precisas para ali figurar.

A exposição atual é pequena, e menor ainda parece em vista da longa galeria onde foram pendurados os quadros. A ornamentação silvestre com que foram decoradas as partes superiores das paredes, de gosto, não é suficiente para ocultar os enormes trechos de espaço vazio.

Nada causa maior prazer, nem desperta mais profunda emulação do que ver o modo como os artistas mais velhos se conservam brilhantemente na estacada, alimentando a mesma fé ardente da juventude e provando que o verdadeiro temperamento artístico não se coaduna com a inatividade.

Henrique Bernardelli teve, e tem, o seu tempo destinado à pintura de encomendas de grandes telas decorativas para a Biblioteca Nacional e a nova ala do Ministério da Fazenda; mas achou ensejo para pintar dois retratos magistrais, pequenos de formato, mas grandes pela excelência da sua arte consumada pela vitalidade da expressão, em um, e pela beleza do arranjo da composição no outro.

Rodolpho Amoedo também enviou dois retratos, que mostram que o Rodolpho Amoedo dos bons tempos não está morto. O do Sr. Azeredo Coutinho é extremamente bem feito, bem metido dentro do quadro numa pose elegante, a figura toda apuradamente pintada, o fundo bem ideado, e o todo muito harmônico e fino na sua minuciosa e tênue técnica característica. O retrato de senhora [Imagem], de fundo cinzento claro em contraste com o vestido fraise écrasée, é também excelente, principalmente a cabeça, que é muito bem construída.

Elyseo Visconti também teve o melhor do seu tempo tomado com obras decorativas; mas enviou dois admiráveis trabalhos, quase diríamos em duas faturas diferentes. Em um, naquela sua técnica segura e sóbria que nos deu o Beijo, uma menina, empunhando flores, abraça uma senhora: uma demonstração de afeto por um acontecimento faustoso, talvez um aniversário, - bem entonado e muito harmônico. No outro, uma bela menina, rechonchuda e loura, com dois laços de fitas dando duas notas vermelhas à cabeça, faz as suas lições sentada a uma mesa. À direita, com fortes pinceladas verticais, quis o artista dar a impressão de vibrante faixa de sol entrando arrebatadoramente pela sala - tudo numa técnica, que tem reminiscência da sua tentativa de pointillé do ano passado.

A presença de Pedro Peres, um velho artista de reconhecido valor entre os seus pares, e que há muitos anos se alheara das exposições da Escola de Belas Artes, é motivo de grande contentamento para os que apreciam.

É representado por dois quadros iguais em vigor e qualidade aos seus trabalhos de uma década atrás.

O mais importante como composição é o que representa uma criança adormecida sobre um colchão e junto a ela, em contemplação, a sua jovem mãe. Por trás desta, uma imagem de Cristo crucificado, da qual se irradia uma refulgência de luz, revela a prognosticação dolorosa que lhe perpassa no espírito. O outro quadro, um quadrinho de gênero, tem uma figura assaz expressiva.

Modesto Brocos enviou um pequeno quadrinho, em que, soube apanhar bem a fisionomia expressiva do Sr. Azeredo Coutinho, que por falta de retratos, e mesmo de bons retratos, não deixará de ir à posteridade. Na atual Exposição, tem nada menos de quatro; e, conquanto seja impossível deixar de estabelecer o confronto entre eles e de determinar primazias, qualquer desses trabalhos é feito de modo a encher de contentamento o seu possuidor. Imagine-se, pois, a alegria de quem é dono de todos eles e, ainda mais, enriquecidos das mais carinhosas dedicatórias. Também é impossível encontrar-se mais prazenteiro e infatigável modelo. Toda a gente, quando pousa, dentro em pouco tempo demonstra todos os sintomas de fadiga que se traem na expressão enfadada do rosto, e é sempre laborioso e difícil empreendimento para o pintor, prender o seu modelo pousando contente durante o tempo preciso. Com o Sr. Azeredo Coutinho, quem cansa é o artista, e é a sua inesgotável bonomia que mantêm em atividade a paleta e os pincéis.

A estes segue-se em idade João Baptista da Costa, cujo tempo foi dado em grande parte ao professorado. Entretanto, ele se faz representar na Exposição por uma numerosa e variada produção, que preenche todo o âmbito da sua arte.

Da sua obra exposta, basta citar, porém, apenas três quadros: o retrato do Sr. João do Rego, a sua grande paisagem de Petrópolis e a paisagem “Avenida Pibanha” [sic].

João Baptista apareceu como paisagista e como paisagista firmou a sua reputação de mestre.

Mas, de vez em quando, dá-nos prova de que notável pintor de figura séria se quisesse se dedicar a esta especialidade. Assim aconteceu há dois ou três anos com o excelente retrato do Dr. Azevedo Lima, e o mesmo ocorre com o retrato do Sr. João do Rego. O retratado está sentado junto a uma mesa de trabalho e olha para fora do quadro. A cabeça é bem conformada; o olhar franco e vivo; a fisionomia expressiva; e é pena que a postura seja um pouco forçada. Tudo indica que o retrato foi pintado diretamente do modelo, distinguindo-se ao mesmo tempo pela técnica sólida e firme e pela boa caracterização.

Na paisagem João Baptista alcança este ano mais um memorável triunfo. Tomou para tema do seu quadro grande um dos pontos mais belos de Petrópolis, no fim da Avenida Piabanha, na direção do bairro denominado Bingen. No primeiro plano, o rio Piabanha com as suas margens verdejantes; e em planos sucessivos à orla da estrada que se vai desenrolando pela encosta, coberta de arvoredos e vegetação, com os cumes frondosos das colinas no fundo.

A hora é a hora solene e majestosa do cair da tarde de um glorioso dia de verão, quando os últimos raios do sol lançam um radiante véu dourado sobre todo o horizonte e se refletem nas nuvens leves e diáfanas do arrebol.

Jean François Millet dizia: Le fond de tout est toujours ceci: qu'il faut qu'un homme soit touché d'abord pour pouvoir toucher les autres. Diante do quadro de João Baptista, impressionando-nos com uma tão profunda comoção como se estivéssemos perante o próprio grandioso espetáculo da natureza, compreende-se a veracidade desse enunciado do grande pintor francês. João Baptista deve ter sentido fortemente esse belo fato da natureza, para assim pintá-lo com tão extraordinário vigor e intensidade de transmissão. Aliás, aqueles que têm acompanhado com atenção e simpatia o desenvolvimento deste artista, não podem deixar de ter observado que a sua obra se tem caracterizado por essa sinceridade de propósito, por esse desejo de fidelidade e lisura na interpretação da natureza. Essa arte singela, sincera e nobre é a grande arte destinada a viver e a perdurar, e a arte que desejaríamos que nos representasse no estrangeiro. Por que João Baptista, tão operoso, tão verdadeiro, agora na pujança do desenvolvimento do seu talento e das suas faculdades, não concorre às grandes exposições estrangeiras? Por que ainda não enviou nada a qualquer dos Salons de Paris? Por que não foi ainda à Veneza? Temos certeza que nada poderia contribuir mais para despertar a curiosidade para o nosso país do que alguns dos trechos da nossa soberba natureza, interpretados pela arte superior do nosso grande paisagista.

Continuando a peregrinação pelo nosso Salon, vemos que Eugenio Latour expõe dois trabalhos, ambos retratos de senhoras: um, de uma bela figurinha vestida de azul, sentada, com um leque na mão e leve e firmemente pintado com um pastel, e outro, um primor de arte, uma moça com um chapéu verde, e violetas no peitilho cinzento, fundo escuro, muito expressivo. Simples cartões de visita, possuindo aquela fina graça do pintor da Musette, que prometia um bom retratista de senhoras.

Gustavo Dall-Ara tem dois pequenos quadrinhos, uma paisagem e uma marinha, na sua maneira e naquela tonalidade clara que lhe são características. Estaria, porém, muito melhor representado se houvesse enviado aquele bom retrato de senhora, feito ao ar livre, que se acha exposto no café Belas Artes. Este é um trabalho que merece destaque, não só pela maneira como venceu as dificuldades de um retrato ao ar livre, como pelo modo como está modelada a cabeça da retratada. Não seria difícil encontrar nele alguns senões, mas também, já dizia Joshua Reynolds, quadros impecáveis nunca existiram.

Dois nomes novos aparecem pela primeira vez nas paredes da exposição: os dos Srs. Mario [Mario Villares Barbosa] e Dario V. Barbosa, dois moços filhos de S. Paulo, que fizeram o seu tirocínio em França, onde mais de uma vez entraram no Salon. Os dois artistas paulistas pretendem brevemente realizar uma exposição aqui, por isso apenas enviaram um trabalho cada um, para não deixarem de comparecer à Exposição. Mas esses trabalhos bastam para mostrar que temos mais dois pintores de incontestáveis qualidades e de boa educação artística.

O Sr. Mario Barbosa foi buscar o tema do seu quadro numa cena do interior da Bretanha. À porta de uma pequena casa, dando para um pátio, uma aldeã jovem, de pé, tem um trabalho de agulha nas mãos; sentada em frente a ela, uma velha faz meia. Fora, um vaso de flores, no rebordo de uma janela; uma pipa para água e outros acessórios apropriados dão à respectiva cor local. Isso numa boa fatura larga.

Do quadro do Sr. Dario Barbosa [Imagem] gostamos mais pela maior naturalidade da composição e pela fatura mais simples e mais segura. Também o tema é da Bretanha: três aldeães, pescadores visivelmente, conversam, um de pé, fumando o cachimbo característico, os outros sentados no parapeito da margem de um rio, no qual balouçam alguns barcos.

F. Manna tem um bom estudo de plein air, com uma figura bem feita e bem metida [Imagem]. Um jardineiro, com uma foice na mão com que está a aparar o gramado, interrompe o trabalho para acender um cigarro. Todo o primeiro plano é bem tratado, mas não nos agrada o modo como é feita a grande árvore do fundo.

O Sr. J. Monteiro da França, que foi outrora discípulo da nossa Escola, e se acha atualmente em Roma, mandou uma série de quadros pintados em Anticoli Corrado, a aldeia vizinha da Capital italiana e tão preferida dos artistas, feitas numa tonalidade muito azulada, de fatura desembaraçada e revelando sinceridade. É artista já feito, e os seus quadros, se deles se eliminassem as figuras, nem sempre com os valores exatos, muitos ganhariam.

E, agora, last but not least, falemos do elemento estrangeiro, antes de deixar a seção de pintura.

São quatro os expositores estrangieros [sic], dos quais dois, os Srs. Brugo e Agustin Salinas, atualmente entre nós, parecem querer eleger domicílio aqui, o que seria um ganho para o nosso meio artístico.

Os outros dois expositores estrangeiros são os Srs. Pablo Salinas, irmão do Sr. Agostin Salinas, e residente em Roma, e o Sr. F. Ferraresi.

Comecemos pelo Sr. Pablo Salinas, cuja exposição é mais numerosa.

A sua maneira habitual, aquela pela qual se fez conhecido, é a do quadro grande, com muitas figuras, representando um salão Luiz XV, onde se dá um concerto.

A primeira impressão que se tem é de uma orgia de cores faiscantes que entontecem, uma pirotecnia que espanta e maravilha os olhos. Neste quadro os pormenores, figuras, móveis, espelhos, dourados, são pintados com extraordinário requinte e apuro e os vestuários brilham com o variegado lustre do cetim e da seda. Examinando-se com atenção e de perto, vê-se que todos os valores são exatos, que as figuras têm todas as expressões próprias, e cada trecho do quadro é uma joiazinha de execução.

Mas o efeito de conjunto, que deve ser a qualidade primordial e dominante numa obra de arte, é totalmente sacrificado. Esta escola de pintura, em que os princípios essenciais se reduzem a questões de pura virtuosidade, foi fundada por Fortuny, e ficou dominando em Roma, num grupo de pintores italianos e espanhóis que, como o Sr. Salinas, ali estabeleceram domicílio.

Ao mesmo gênero de pintura pertencem os outros quadros pequenos expostos por esse pintor.

Quis ele, porém, mostrar a variedade do seu pincel, e enviou outro quadro cuja maneira é verdadeiramente a antítese dessa forma de pintura [Imagem]. Neste, as figuras, ao ar livre, saindo provavelmente de um teatro, iluminadas por luz artificial, são feitas numa maneira larga, forte, segura, expressiva, que, se não fossem os toques do anel de brilhantes na mão da personagem principal, uma senhora elegante, não teria relação de parentesco com os outros trabalhos do artista.

O Sr. Agustin Salinas tem trabalhos feitos em Roma, com figuras, e um retrato do Sr. A. Coutinho.

Deste pouco temos que acrescentar, além de dizer que é o Sr. Azeredo apanhado por uma face diferente daquela escolhida pelos outros artistas e feita com certa facilidade. O Sr. Salinas sabe desenhar bem, as suas figuras são bem feitas e os seus quadros têm composição, mas o efeito de conjunto nem sempre agrada, e como que se ressente de falta de vida. Gostamos mais das suas paisagens, principalmente das suas paisagens pintadas aqui, nas quais o artista tem mostrado compreender tão bem a nossa natureza; e lastimamos que, estando já há tanto tempo entre nós, não tenha preparado nenhuma tela nesse gênero para o nosso Salon.

O Sr. José Brugo, que o ano passado tão boa figura fez com um quadro de composição e um retrato, mandou dois bons estudos de nu, e um interessante quadro de figura. Dos primeiros, há um em uma tonalidade mais clara, o estudo de um torso de mulher de boa carnação, e no quadro Les affiches as cores dos cartazes na parede prejudicam a figura da costureirinha que os lê, aliás excelentemente pintada.

Do Sr. Ferraresi, há uns pastéis que não nos interessam particularmente.

Antes de deixar esta seção, devemos cumprimentar o velho Insley Pacheco, que aos setenta anos, ainda pinta com a mesma frescura e fantasia as suas apreciadas gouaches; e mencionar as belas paisagens do Sr. Luiz Christophe (nomeadamente a de n. 31, um banhado e uma campina), e dos aproveitados discípulos de João Baptista, o Sr. Germano Neves e a Sra. Rachel Boher.

Na seção de gravura de medalhas, como sempre, se destaca o Professor Augusto Girardet, a quem não se faz favor dizendo que os seus trabalhos podem competir com os dos melhores artistas da Europa.

Este ano aparece também um seu discípulo, o Sr. Adalberto Mattos, com quatro trabalhos apreciáveis.

Na seção de escultura, o Sr. Joaquim Rodrigues Moreira Junior, prêmio de viagem na Exposição de 1908, mandou de Roma três trabalhos em bronze e um em gesso, que mostram o seu aproveitamento ali. A cabecinha de menino é particularmente interessante pela finura do modelado e pela expressão.

O Sr. Umberto Cavina, artista aqui residente, expõe dois bustos em gesso, que têm qualidades.

O Sr. Armando de Magalhães Corrêa, aluno da Escola de Belas Artes, que expõe, pela primeira vez, tem um estudo de cabeça muito prometedor.

A Fundição Indígena expõe diversos objetos que recomendam a excelência do trabalho de fundição e moldagem desse estabelecimento.

Na seção de artes aplicadas, apenas uma expositora, a Sra. D. Maria Rosalia Corrêa Lima, com belos trabalhos de bordados. Na seção de arquitetura, apenas, um expositor, também, o Professor Ludovico Berna.

Em outra notícia, falaremos da exposição dos trabalhos deixados pelo falecido professor Bérard.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 set. 1910, p.6.

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