. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 set. 1905, p. 3. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 set. 1905, p. 3.

De Egba

Exposição Geral de Belas Artes - Na Escola de Belas Artes realizou-se ontem a cerimônia do vernissage com regular concorrência de artistas, homens de letras, jornalistas e algumas famílias.

Essa cerimônia não se tornou ainda aqui a reunião da moda, como o vernissage dos Salões parisienses, ou o “private view day” da “Royal Academy” em Londres, em que o escol das sociedades parisiense e londrina comparece todo como a um rendez-vous obrigatório, onde a gente que se tem na conta de fina e educada, que tem posição saliente na sociedade por uma ou outra razão gosta de ser vista; e onde as senhoras vão rivalizar, pelas suas graças naturais e por lindas toilettes, com as produções dos artistas no apelo à atenção e ao apreço dos homens.

É, infelizmente, ainda bem limitado o número dos que acham que vale a pena ocupar algumas horas na contemplação de quadros e outros objetos congêneres, e que tem a curiosidade de se certificar sem demora da atividade e da produção dos artistas durante o ano que mediou entre a última e a nova exposição. Isso é uma questão de educação artística, e só a repetição e a frequência dessas exposições poderão trazer modificação de hábitos nesse sentido.

Entretanto, a exposição que hoje se inaugura tem elementos para bem recompensar a quem a visitar.

A impressão geral que se tem ao percorrer a sala onde estão concentrados os trabalhos de pintura, é que o seu nível se elevou sensivelmente e que, se pouco numerosos são os trabalhos de grande composição, e muito menos as grandes máquinas, há, em compensação, uma grande variedade de quadros pequenos, interessantíssimos pelo assunto e pela maneira como são tratados.

É bem de ver que, numa primeira visita, é difícil concentrar a atenção em um dado quadro e analisar-lhe imediatamente todas as suas qualidades mais sutis, em uma aglomeração de pinturas de todo o gênero. A vista passa de um para o outro quadro sem parar.

Entretanto, não há negar que muitas obras, por efeito de qualidades próprias de técnica ou de motivo, prendem a nossa atenção e impressionam imediatamente. É o resultado dessa primeira e rápida impressão que procuramos dar aqui, citando alguns dos quadros expostos, sem pretender, de modo algum, decidir por alguns momentos de observação do merecimento de trabalhos que tomaram aos artistas muitos dias e talvez meses para pintar.

Empolgou-nos de pronto o espírito um esplêndido retrato da escultora nacional D. Nicolina de Assis por Elyseu Visconti. A retratada está de pé, envolvida em fourrures, com um chapéu de veludo preto, quase de perfil, com uma mão sobre a cintura e a outra caída ao longo do corpo. Extremamente harmônico de entonação, a cabeça de um modelado muito fino se destaca cheia de expressão e com relevo do fundo, respirando todo o quadro uma técnica a um tempo sóbria e magistral e profundo sentimento. Afigura-se-nos que esse retrato vai ser o trabalho mais admirado do Salão de 1905.

Henrique Bernardelli, o mestre da técnica, expõe três excelentes retratos, o do Sr. Machado de Assis, sereno, sentado visto meio perfil do fundo escuro e rico; o retrato sentado do Sr. Dr. J. C. Rodrigues, esboço para o quadro em tamanho natural que o artista vai pintar para a Associação Comercial, e o retrato do Sr. Dr. Ubaldino do Amaral, corpo inteiro, sentado em uma grande cadeira de alto espaldar de couro, fundo magnífico do qual a vigorosa cabeça do retratado, vibrante de caráter se destaca com singular relevo.

Com uma numerosa e variada exposição de quadros, quase todos de figura, toma por assim dizer de assalto ao visitante o ex-aluno da nossa Escola, o Sr. Eugenio Latour, prêmio de viagem da Exposição. Nos dois anos que tem passado na Europa, trabalhou muito e progrediu muito, como o poderá ver quem examinar os trabalhos que ele de lá enviou. Já havia revelado aqui um fino temperamento de artista de grande sentimento, e agora nos mostra um pintor de uma técnica segura e delicada, de bom desenho, uma palheta limpa, de belos efeitos de luz, e em quem a permanência em um meio italiano não fez perder a nota característica que herdara talvez de sua ascendência francesa. Dos seus trabalhos, que não podemos agora especializar todos, destacam-se à primeira vista: um grande quadro de composição, um interior de família flagelado pela praga da embriaguez, pintado com muita felicidade de efeito, pela postura dos personagens, pela sua expressão vigorosa e pela harmonia do seu conjunto; um interessante quadro de gênero, um velho pregando em suas próprias calças um botão indispensável e três jovens e sadias raparigas lendo alegremente uma carta, no meio de uma bela paisagem intensamente iluminada [Imagem].

João Baptista expõe três magníficas paisagens, um efeito de madrugada, de sentimento poético, e um sem número de notas, em que, como sempre, esse fino e individual artista traduz com verdadeiro sentimento a nossa natureza. Com mais vagar voltaremos a falar dos seus trabalhos, como sempre dos mais apreciados das nossas exposições.

Weingartner tem alguns dos seus interessantes quadros neo-pagãos, pintados na sua maneira conhecida.

O pintor paulista De Servi expõe uns vigorosos estudos de cabeça, que revelam artista distinto.

Brocos tem um retrato de senhora, sólido e bem construído, e uma boa paisagem.

Treidler, a par de suas inconfundíveis aquarelas, um quadro a óleo, uma paisagem cheia de luz, e horizonte.

Rodolpho Chambelland, o jovem artista que nestes últimos anos tão bela figura tem feito nos Salões, expõe um quadro de efeito e de boas qualidades, uma bacanal ao ar livre, um grupo de “borrachos” entregando-se a libações ao ar livre, tendo por fundo uma paisagem de grande perspectiva e vibrante de sol [Imagem]. As figuras têm corpo e movimento, e o quadro tem o sentimento próprio, e trai o espírito audaz do talentoso artista, em cujo futuro parece que há motivos para se confiar.

Gustavo Dall'Ara tem duas vistas de pontos desta cidade, tiradas do mar, com qualidades de colorista.

Há muitos nomes novos na Exposição, como, por exemplo: A. Fernandes, um artista espanhol, muito amaneirado, que expõe quadros de gênero e paisagens, que têm valor; Carlos de Azevedo, um jovem artista do Pará, que mandou dois quadros com bom desenho e qualidades, e uma palheta um poco suja, que naturalmente há de se tornar mais clara; Vuagnat, que expõe um quadro com uns bois bem pintados em uma paisagem um tanto incolor; Eugène Morand, um quadro de uma entonação, suave e cinzenta, de motivo antigo e de um artista cujo nome não podemos distinguir [Guillomet], um interessantíssimo quadro impressionista, de sobriedade de fatura, e de fino colorido, representando uma cerimônia religiosa ao ar livre.

As Senhoritas Cunha Vasco [Anna da Cunha Vasco e Maria da Cunha Vasco], as talentosas amadoras que já adquiriram direito de cidade na comunhão artística, expõem belas aquarelas com vistas de Copacabana e a Senhorita Del Veccio [sic] [Sarah Del Vecchio], o retrato de seu pai, muito semelhante, e uns agradáveis estudos de paisagem, em que já se vai revelando a boa influência do seu mestre nesta especialidade, o Sr. João Baptista.

Do Sr. Eduardo Bevilacqua, outro inteligente discípulo da escola que já em anteriores exposições se fizera notar, há dois quadros grandes, um retrato de seu pai ao piano, e um grande quadro de assunto bíblico; o Sr. Lucilio tem um interessante pastel, uma risonha carinha de criança e o Sr. Thimotheo da Costa [João Timotheo da Costa], outro aluno da escola, um retrato de tamanho natural, feito a fusain.

A. Luiz de Freitas, que há pouco fez uma interessante exposição na praça do Coméercio, tem paisagens com os efeitos de luz que o distinguem.

O Sr. Angelo Agostini expõe um pequeno quadro representando uma caçada e o Sr. August Petit, retratos, quadros de gênero, e um nu, tamanho natural, na sua maneira conhecida [Imagem].

Dá uma nota nova e atraente à exposição a reunião dos desenhos de Raul Pederneiras, de um fino “humour” uns e outros com delicada intenção simbolística.

Na seção de escultura propriamente dita, não há nenhum trabalho exposto; esta seção este ano foi representada fora da escola, com as duas novas e admiráveis estátuas de Carlos Gomes e Teixeira de Freitas, da lavra de Rodolpho Bernardelli.

Na seção de arquitetura, desenhos do arquiteto Victor Dubugras, e na seção de arte aplicada, trabalhos em couro lavrado e de decoração em porcelana e de móveis de Mlle. Brandt, que merecem ser examinados, e trabalhos em couro repoussé e pintado, de Mlle. Mary Hirsch, de variedades e atraentes aplicações artísticas e feitos com muita habilidade e gosto.

As especialidades exercidas por essas duas senhoras são das que mais se prestam a ser cultivadas pelas amadoras, que podem facilmente assenhorear-se da sua técnica e nelas encontrarem elementos para dar expressão ao seu gosto artístico em uma infinidade de objetos decorativos.

Nesta seção devemos também mencionar os trabalhos de talha em madeira e de móveis do Liceu de Artes e Ofícios de S. Paulo.

E last but not least, a variada e numerosa coleção dos primorosos trabalhos do grande artista que é esse modesto operário que se chama Augusto Girardet.

A medalha, essa arte tão fina e tão delicada em que se notabilizaram os artistas do Renascimento e que atingiu, pode-se dizer, ao seu apogeu na França contemporânea com Chaplain, Dubois, Dupuis, Ponscarme, Charpentier e outros, sobressaindo entre eles o grande Rotz, ainda é pouco compreendida entre nós, sendo os poucos colecionadores de medalhas que possuímos, levados a isso mais pela mania da coleção de que pelo amor e pelo prazer, proveniente da apreciação do seu valor artístico. Por isso é que a obra de Augusto Girardet não tem ainda recebido toda a consideração a que faz jus tão consciencioso e hábil artista. A medalha não é, como muita gente pensa, um medalhão em miniatura, porém, uma obra artística em que, para atingir a perfeição desejada o artista tem de tirar os seus efeitos do uso dos planos, com tal delicadeza e segurança que o seu relevo seja pouco saliente.

De tamanho diminuto e de forma bela e delicada, a medalha perpétua, em uma matéria imperecível, a memória de grandes homens e de grandes acontecimentos.

Quer na medalha propriamente, quer no medalhão ou na plaquette, ou nos seus admiráveis trabalhos de gravura em pedras preciosas, as obras de Augusto Girardet apresentam, a par de grande perfeição técnica, inventiva e grande encanto.

Com os seus projetos de medalha com os bustos dos presidentes da República, o Sr. Augusto Girardet pretende elevar um panteão à memória dos que estão servindo a República nesse alto cargo, à guisa do que se tem feito em França.

Com recordação do Salão deste ano, que é realmente superior aos anteriores, o Sr. Girardet gravou uma medalhinha que é uma joia artística.

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A inauguração oficial da Exposição realizar-se-á hoje, à 1 hora da tarde com a presença do Sr. Presidente da República e do Sr. Ministro do Interior.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 set. 1905, p. 3.

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