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NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 set. 1903, p.2.

De Egba

Inaugura-se hoje com a presença do Sr. Presidente da República a Exposição Geral de Belas Artes.

Ontem, ao vernissage compareceram muitas pessoas, notando-se senhoras, literatos, amadores, artistas e jornalistas.

A exposição deste ano não é tão grande nem tão boa como a do ano passado, mas é melhor do que muitas dos anos anteriores a 1902 e contém, no pouco número de trabalhos verdadeiramente bons, alguns de primeira ordem e que farão figura notável em qualquer certame desses.

O quadro que pelas suas proporções, assunto e execução é o que domina a Exposição, é o intitulado Bohemia, de Helios Seelinger, um moço brasileiro que da Alemanha nos voltou há cerca de dois anos, impondo-se logo como um artista de talento, de sólida técnica e originalidade de inventiva.

Naturalmente, teremos que voltar mais tarde a esse seu quadro, nem a presente notícia pode ser outra coisa senão uma rápida enumeração dos trabalhos que nos impressionarão em uma primeira e não demorada visita.

Henrique Bernardelli tem uma exposição muito numerosa e muito variada, mas bastaria o seu pequeno retrato de uma senhora sentada, uma sinfonia em escuro, uma obra prima de execução, para manter o lugar eminente que ocupa entre os nossos artistas.

Do Sr. Amoedo há um bom retrato do Sr. Souza lobo e um pequeno retrato de uma formosa e jovem senhora, feito com o cuidado e a arte que lhe são peculiares.

O Sr. Brocos tem umas boas paisagens e águas fortes excelentes, sobressaindo o retrato do Imperador D. Pedro II.

O Sr. Visconti expõe uma vigorosa cabeça de cristo, um excelente estudo do nu, um belo retrato e uma paisagem que impressiona muito bem; mas onde o Sr. Visconti faz uma excepcional figura, confirmando a nota do fino artista que é, e a sua versatilidade, é com a exposição de seus trabalhos de cerâmica, de uma impressão tão fina, de uma tão delicada e tão original concepção e fatura. Será pena que essa tentativa que logo no seu primeiro início deu resultados tão primorosos, não passe dessa fase e não seja o núcleo de uma indústria para a qual possuímos os melhores elementos e que os objetos expostos mostram poder ter o cunho de originalidade nacional.

João Baptista, o nosso paisagista tão nacional, tem duas paisagens belíssimas, com aquele sentimento tão verdadeiro da nossa natureza. Na paisagem tem também Gustavo Dall'Ara um quadro pintado com a sinceridade a que nos acostumou.

Podemos ainda notar o quadro Daphinis [sic] e Cloé, do Sr. Ed. Bevilacqua, um jovem aluno da escola, que se apresenta revelando muito talento e fazendo honra aos mestres; as duas paisagens enviadas de Paris, por Eugenio Latour, tão boas de impressão, acusando já progresso e já nos desvendando o que ganhará esse estudioso artista na sua estadia na Europa; os dois trabalhos do Sr. Macedo, outro pensionista que acaba de chegar de Paris e que nos promete para breve uma exposição exclusiva de trabalhos seus; os trabalhos do Sr. Evencio e do Sr. Lucilio; os interessantes quadrinhos de gênero do Sr. Raphael Frederico; alguns trabalhos do Sr. Fiuza e um pequeno retrato e uns Chrysonthemus de Mlle. Del-Vecchio, uma talentosa discípula do Sr. Petit, o qual, como sempre, enviou numerosos trabalhos com o caráter conhecido da sua pintura.

A Exposição está cheia de aquarelas, muitas boas, e entre estas chamam logo a atenção as das duas irmãs Mlles Cunha Vascos [sic] [Anna da Cunha Vasco e Maria da Cunha Vasco], as talentosas discípulas de Benno Treidler de quem aprenderam a técnica brilhante e que já vão dando uma nota tão pessoal.

No salão de pintura há ainda uns quadros de uns artistas franceses, que chamam a atenção pela nota impossionista [sic] levada á outrance, mas que afirmam incontestáveis e seguros conhecimentos técnicos.

Na seção de escultura, um magnífico trabalho de Rodolpho Bernardelli, o busto de bronze do Dr. Brissay. E na de arquitetura, o modelo em gesso do projeto planejado pelo Sr. Morales de los Rios, para transformar a atual praça da Glória em Escola de Belas-Artes. Essa maquette, se assim se pode dizer, é de belo efeito, e revela todo o empenho e todos os conhecimentos arquitetônicos do seu autor, e com certeza há de agradar muito.

Mais de espaço voltaremos a tratar mais por miúdo da Exposição, e então corrigiremos as lacunas sempre inerentes à rápida e perfunctória visita.

O visitante deve também entrar na sala oposta à da Exposição e examinar os objetos ali reunidos, que são os adquiridos o ano passado pelo Governo para a nossa galeria de belas-artes, aí terá ocasião de apreciar, além de magníficos trabalhos de pintura, tanto de artistas nacionais como estrangeiros, muitos objetos que se não pensaria existirem entre nós e que constituem importantes elementos de educação artística.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 set. 1903, p.2.

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