. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 set. 1902, p.2. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 set. 1902, p.2.

De Egba

Exposição geral de Belas Artes - Inaugura-se hoje, à 1 hora da tarde, com a presença do Sr. Presidente da República, a exposição do corrente ano.

A cerimônia do vernissage que se realizou ontem, esteve muito concorrida de jornalistas, amadores e artistas, na sua maioria expositores, e a impressão que a exposição deixou no espírito de todos é que é a melhor de quantas se tem realizado nos últimos dez anos. Tanto pelo número como pela qualidade das obras expostas, a exposição surpreende. A primeira impressão do visitante é que o ano foi de intenso trabalho e que, a despeito de ser ainda contrário o meio, não arrefecem, com pequenas exceções, o ardor e o entusiasmo dos artistas. Em todas as seções há trabalhos dignos de nota e do mais aturado exame, e em uma pequena notícia da rápida visita que ontem fizemos não podemos dar conta minuciosa de tudo quanto há ali merecedor de destaque. Entretanto, desde já chamaremos a atenção para aquilo que mais fundo nos atraiu.

Na seção de pintura que é a mais numerosa, notam-se logo duas correntes em contraste frisante uma com a outra; é a dos artistas mais velhos, pintando em moldes estabelecidos e que já têm foros de cidade, e a dos modernos, ambiciosos de novos ideais, que lutam por formas independentes e novas. Nem sempre os primeiros se contentam em se deixar ficar no terreno sólido e seguro onde adquiriram os seus louros, e os segundos, nos seus esforços de novos tentames, voltam também aos recursos adotados por aqueles, e então dá-se como um ponto de contato. As correntes existem, porém, e é isso o que dá um certo caráter definido à presente exposição.

No primeiro grupo, podem-se por os Srs. Henrique Bernardelli, Thomas Driendl, Amoedo, Aurelio de Figueiredo, Angelo Agostini, Brocos, etc., e no segundo, os Srs. Elyseo Visconti, na primeira [...], e os Srs. Malagutti, Helios Seelinger, Diana Dampf e também os Srs. Latour e Lucilio.

Mais de espaço, frisaremos profundamente esta nota; por hoje, nos limitaremos tão somente a salientar os trabalhos que mais prenderam a nossa atenção.

Dominam na Exposição os quadros de figura, e entre estes os retratos. O Sr. Henrique Bernardelli tem um grupo numeroso de excelentes retratos, em busto todos, em que revela a sua sólida técnica, larga e segura; o Sr. Thomaz Driendl expõe um retrato, corpo inteiro, do Sr. Dr. Joaquim Murtinho, que é uma magnífica interpretação de caráter: o Sr. Visconti, mandou uma série de retratos, notáveis pela maneira original de apresentação e de fatura; há mais dois bons retratos, corpo inteiro, do falecido General Osório, pelo Sr. Aurelio de Figueiredo, e do Sr. Daniel Duran, pelo Sr. Modesto Brocos, e um retrato de senhora, pelo Sr. Macedo, pensionista da Escola na Europa. O Sr. Amoedo tem também um pequeno e fino retrato de senhora, e o Sr. Malagutti um retrato de senhora, feito com certa originalidade.

Nos quadros de figuras domina o Sr. Visconti com o seu esplendido S. Sebastião, com as Oreadas, com a sua Gioventú, com o delicioso Beijo, e outros. O Sr. Amoedo expõe também um S. João o Precursor. Convém citar também o [sic] estudos do Sr. Helios Seelinger no gênero de Hans Thoma; e uma harmoniosa figura de mulher de intenção simbólica, de Henrique Bernardelli.

Na paisagem, ocupa facilmente o primeiro lugar o Sr. Souza Pinto com dois magníficos quadros, um de paisagem, e outro de marinha, uma vista do porto, admirável de simplicidade e finura de efeito. Seguem-se os Sr. João Baptista, com três excelentes estudos; Sr. Henrique Bernardelli, com impressões justas e sólidas da localidade pitoresca de Minas; Sr. Gustavo Dall'Ara com dois estudos feitos no Engenho Novo, um dos quais é vibrante de luz e de ar; as luminosas aquarelas do Sr. Treidler, e os interessantes estudos a óleo e a guache de Sr. Pacheco.

Há também uns quadros de gênero de Wenigartner [sic], do Sr. Driendl, e do Sr. Raphael Frederico.

Na seção de escultura, o único expositor é o Sr. Corrêa Lima, o talentoso e jovem pensionista da escola, que acaba de voltar de Roma. Tem quatro pequenos trabalhos em bronze, um pequeno busto e uma figurinha em gesso, um busto em mármore ainda não acabado, e um grupo em gesso, para ser passado para mármore. Em todos esses trabalhos, de que mais de espaço falaremos detalhadamente, o jovem artista mostrou o grande aproveitamento que tirou dos dois anos que passou na Europa. É de lastimar que a colocação do último grupo não permita que ele seja vantajosamente examinado.

Nesta mesma sala, mais uma vez chama a atenção o Sr. Visconti, com os seus bem lançados desenhos do nu, e a variada e característica série de desenhos de artes decorativa e aplicada.

Na mesma sala notam-se ainda os belos medalhões em gesso e as gravuras sobre pedras do Sr. Girardet, magnífico auto-retrato à pena do Sr. Valle [Antonio Alves do Valle de Souza Pinto]; os retratos a água-forte do Sr. Brocos, e as xilografias do Sr. Cattaneo.

Voltaremos novamente à exposição, e então repararemos as omissões que forçosamente cometemos, como não podia deixar de acontecer em uma primeira e rápida visita.

A impressão geral é, porém, incontestavelmente magnífica, e a exposição merece ser visitada.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 set. 1902, p.2.

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