. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 ago. 1915, p.6. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 ago. 1915, p.6.

De Egba

XXII EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES - Com a presença do Sr. Presidente da República inaugura-se hoje, à 1 hora da tarde, a vigésima segunda Exposição Geral de Belas Artes.

Ontem efetuou-se ali a cerimônia usual do vernissage que esteve bastante concorrida de artistas, jornalistas e amadores, ultimando-se os preparos para a exposição como o geral do público a verá.

Apesar do estado incompleto em que ainda se achavam a ornamentação e arranjo geral, e da azáfama em que os expositores e os empregados da Escola se empenhavam porfiadamente para que tudo ficasse inteiramente preparado para a cerimônia de hoje, as pessoas que ontem tiveram a ventura de percorrer os dois salões da Exposição, de lá trouxeram profunda e grata impressão tanto do efeito do conjunto como particularmente de muitas das obras expostas, impressão que é de esperar se torne mais intensa e agradável com visitas repetidas.

Como de costume, a seção mais numerosa é a de pintura, na qual o catálogo acusa 182 números; a de escultura, se bem que menos numerosa apresenta o total de quarenta obras, quantidade respeitável em comparação com os anos anteriores; a de gravura e litogravura, apenas três trabalhos; e a de arquitetura, treze desenhos.

Isto é, um total de 264 obras expostas, que, para o nosso meio e as circunstâncias atuais representam um resultado muito satisfatório.

Na visita rápida e perfunctória que ontem ali fizemos, se não podemos colher elementos para externar uma opinião definitiva, as impressões que trouxemos, são, como já dissemos, as mais agradáveis possíveis, e aguçam o desejo de voltar repetidas vezes à Exposição.

Dos artistas mais velhos só o Sr. Aurelio de Figueiredo e o Sr. João Baptista da Costa expõem. Nem o Sr. Rodolpho Bernardelli, nem o Sr. Rodolpho Amoedo, nem o Sr. Henrique Bernardelli, nem o Sr. Elyseo Visconti mandaram trabalhos; mas, pode-se francamente dizer que esses ilustres artistas se acham brilhantemente representados com as obras de alguns dos seus discípulos.

A exposição este ano é dos artistas mais jovens, como os Srs. Corrêa Lima e Cunha e Mello na seção de escultura, e como a Sra. Sylvia Meyer, e os Srs. Henrique Cavalleiro, Eugenio Latour, Rodolpho Chambelland, Carlos Oswald, aos quais cumpre acrescentar outros até agora desconhecidos, como o Sr. Leopoldo Gottuzo.

O quadro que imediatamente chama a atenção é o retrato de Sua Eminência o Cardeal Arcoverde, pelo Sr. Aurelio de Figueiredo, pelo seu tamanho e pelo vivo escarlate das amplas vestes sacerdotais; impressiona agradável e surpreendentemente, um retrato pequeno de senhora, corpo inteiro, do jovem artista Henrique Cavalleiro, de tonalidade sóbria e harmônico de cor, e boa compreensão; dois quadros de figura, fatura larga, nervosa e fina, do Sr. Eugenio Latour; dois retratinhos de crianças, muito finos e simpáticos do Sr. Rodolpho Chambelland; os retratos, tão bem estudados e de boa fatura, da Sra. Sylvia Meyer; os dois quadros de figura da Sra. D. Georgina de Albuquerque; os quadros de figura, de uma fatura que tem seu que de original, do nosso jovem patrício Leopoldo Gottuzo, atualmente na Espanha; um quadro de figura de mulher deitada em um sofá, um busto bem pintado, com um braço em escorço muito bem feito, da Sra. Maria Pardos, etc.

As paisagens de João Baptista impõe-se sempre, e nesse campo o veterano artista Sr. Auguste Petit continua a produzir a impressão agradável com que nos surpreenderá na sua recente exposição.

Na seção de escultura, o jovem mestre Corrêa Lima tem um belo trabalho inspirado numa poesia de Machado de Assis, uma figura de mulher aflorando à puberdade, em que as formas começam a arredondar-se e a sexualizar-se , modelada com muita finura e recato, traduzindo com muita felicidade a delicada imagem do poeta.

Nesta seção notam-se ainda diversos trabalhos do jovem artista Cunha e Mello, entre os quais um projeto de estátua a Odorico Mendes; diversos trabalhos assaz interessantes de um artista argentino, Sr. Chalo: um mármore da Sr. Nicolina Pinto do Couto; bustos do Sr. Aurelio de Figueiredo, etc.

Na de gravura de medalhas há diversos trabalhos interessantes, que demandam exame mais aturado.

Não devemos também deixar de notar as águas fortes do Sr. Carlos Oswald.

Nesta rápida resenha dos trabalhos que ontem mais de pronto impressionaram, é natural que tenhamos passado por alto muitos que mereçam destaque. Mais de espaço voltaremos a tratar pormenorizadamente da exposição; mas, devemos desde já deixar aqui registrado o modo brilhante como a comissão diretora da Exposição soube desempenhar-se da sua tarefa.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 ago. 1915, p.6.

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