. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 19 set. 1912, p.8. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 19 set. 1912, p.8.

De Egba

Circunstâncias insuperáveis não permitiram ao encarregado desta seção voltar a tratar antes da Exposição Geral de Belas Artes, e já agora não tem ele remédio senão dar conta da sua tarefa de um modo perfunctório.

Já dissemos que a exposição deste ano continha muitos trabalhos interessantes e revelara certa atividade por parte dos nossos artistas mais novos, na luta muito louvável pela conquista do prêmio de viagem, objetivo de todo artista desejoso de se ir aperfeiçoar nos grandes centros do Velho Mundo.

Dentre os mestres, triunfam brilhantemente Elyseo Visconti e João Baptista da Costa.

Elyseo Visconti tem um retrato, um estudo de nu, um quadro alegórico e duas paisagens.

O primeiro, que é o retrato de Gonzaga Duque, já visto na Exposição da Praia Vermelha em 1909, é melhor dos seus trabalhos na atual exposição e no gênero, se tem superior ou rival entre as suas produções tem-no no admirável retrato da escultora Nicolina da Assiz.

Este retrato deve ter sido difícil de pintar devido a não poder o artista aproveitar-se do principal elemento de expressão em uma figura, a saber, os olhos, cobertos pelas lunetas azuis, de que usava Gonzaga Duque: mas, apesar das dificuldades a vencer, o resultado foi extremamente feliz, e o artista conseguiu dar a caracterização própria, como o reconhecerão todos quantos estimaram e amaram o falecido escritor.

A postura do retrato, de perfil, é natural e a cabeça fina e fidalga de Gonzaga Duque está pintada com grande vigor.

Cumpre também evidenciar a grande habilidade com que o artista soube harmonizar os simples elementos do vestuário, sóbrio de cores, com o fundo.

Do nu não gostamos tanto: a figura da menina, entrando quase na puberdade, está em uma posição desgraciosa, meio acaçapada e encolhida, como que envergonhada de expor o seu jovem corpo ao olhar indiscreto e desrespeitador de todo o mundo: e, demais, não é tratado com a finura dos seus quadros anteriores do mesmo gênero, como por exemplo, o Sonho Místico.

O pintor intitula esse quadro Primavera, e naturalmente, quis simbolizar essa estação lembrando-se do verso do poeta: “Oh! Primavera, gioventú del’anno; oh, gioventú, primavera della vita!” Mas, admira que não tivesse pintado a sua figura ao ar livre, como ele o sabe fazer tão bem, em vez de metê-la em um quarto fechado, como a tiritar de frio.

O quadro - Mensagem - tem um tema alegórico cuja intuição confessamos humildemente não ter compreendido bem, mas, é bem pintado como fatura, e a sua impressão seria completamente agravel [sic] se não fosse o efeito desarmônico da tonalidade azul da figura diáfana.

As suas duas paisagens são finas e possuem um sentimento delicado da natureza. Afigura-se-nos que há um efeito demasiado carregado nas sombras.

Os reparos que acima fizemos, não passam da maneira de ver do escritor destas linhas, e em nada pretendem amesquinhar a obra do ilustre artista.

O Sr. Rodolpho Amoedo é representado na Exposição com um quadro de figura, de uma mulher deitada, a que ele intitula Juventude.

O Sr. Amoedo tem na nossa Pinacoteca quadros de tamanho valor artístico, que, logo que foram expostos a sua volta do pensionato na Europa, o colocaram na primeira plana dos nossos pintores.

Mas a suprema excelência dessas suas obras faz com que se exija dele que tudo quanto saía do seu amestrado pincel possua as mesmas qualidades superiores: e é, por isso que não nos agrada a sua tela deste ano, a qual nos parece não ter sido cuidadosamente estudada e não estar acabada.

João Baptista da Costa tem diversas paisagens de Petrópolis, iguais as que nos tem acostumado a ver nas anteriores exposições, quadros mais ou menos cheios de sol e de luz com o verde característico da nossa terra que ele sabe reproduzir como ninguém, e que tem quase todos motivos muito semelhantes, pintados em geral na mesma tonalidade e com o mesmo cuidado. Todos eles possuem o cunho inconfundível do seu pincel e não podem deixar de agradar; mas, confessamos que nos impressionaram mais simpaticamente os dois pequenos - Villa Marianna e Serra dos Órgãos, menos vibrantes que os outros, mas possuindo tons muito finos e harmoniosos, e quiçá mais poesia.

Todos os trabalhos que emanam do seu pincel são provas do talento e do cuidado com que o distinto artista procura entender a nossa natureza; mas, não podemos deixar de lembrarmos com saudade do seu Volta do Trabalho, que parecia ser o início de uma nova direção.

O Sr. Fiuza Guimarães expõe um nu, uma Salomé.

Parece que a heroína de Oscar Wilde, tão graficamente representada pela Bellincioni, impressionou os nossos artistas, pois temos mais de uma versão dessa personagem bíblica no Salão deste ano.

A do Sr. Fiuza, que não é a de menos valor, é um tanto masculina nas suas formas.

O Sr. Carlo de Servi tem três trabalhos dos quais nos agradou sobremaneira o intitulado Carioca, o mais forte dos três, e que é pintado com certo vigor, talvez em virtude do modo como está iluminado.

É uma das coisas atraentes da Exposição.

Benno Treidler, que há tempos tem andado arredado do Salão, enviou este ano um pequeno trabalho, bastante interessante, um retrato a cavalo.

É trabalho que tem valor artístico; mas, manda a verdade dizer que gostamos mais do modo como estão pintados o cavalo e a paisagem, do que da figura do retratado que se nos parece demasiado rígida.

o Sr. Arthur Thimotheo fez-se representar apenas pelo seu belo quadro Idílio, que na atual exposição, bem colocado e em mais favoráveis condições de luz, melhor mostra as suas boas qualidades, podendo-se mais francamente apreciar o seu incontestável valor.

O Sr. Lucilio de Albuquerque expõe nove trabalhos, alguns já vistos na sua exposição quando chegou da Europa, e outros pintados depois. Dos primeiros, já em notícia anterior lhes mostramos o valor e só teríamos agora que repetir o que então dissemos. Dos seus novos trabalhos, aquele de que mais gostamos é a paisagem - Margens do Tietê - muito quente de cor e de interpretação.

Helios Seelinger destacou da sua recente exposição apenas dois quadros para o representar na Exposição Geral - o Combate Naval e a Cleópatra, que, nas melhores condições em que se acham expostos, mostram a largueza do modo como são tratados, o vigor e a originalidade da sua concepção. As impressões que tivemos quando vimos esses quadros pela primeira vez, mais se acentuaram, fazendo-nos cada vez mais desejar acompanhar o desenvolvimento de um artista que se não confunde com nenhum outro.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 19 set. 1912, p.8.

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