. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 19 ago. 1927, p. 6. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 19 ago. 1927, p. 6.

De Egba

O SALÃO DE BELAS ARTES - A exposição de Belas Artes, há dias inaugurada sob os melhores auspícios a que tivemos a feliz oportunidade de aludir, por ocasião de sua abertura, continua a chamar a atenção pública.

Frequência desusada nota-se no palácio das Artes para onde estão convergindo nestes últimos dias, não só quantos se dedicam à pintura, escultura ou outra qualquer manifestação artística, mas também um público numeroso que não estamos acostumados a ver em tais lugares.

A que atribuir este fenômeno? A propaganda em prol da nova exposição não tem sido maior do que em outros tempos. Talvez justifique tão grande interesse o número de trabalhos expostos, os nomes dos expositores e a sua qualidade.

Poucas vezes o “Salão” se tem apresentado tão animado em trabalhos como hoje e não é exagero dizer que em número e qualidade de peças exibidas a atual exposição não fará má figura em comparação com outras estrangeiras.

Nossos artistas trabalharam e trabalharam muito. O acervo de quadros, esculturas, planos arquitetônicos, gravuras, artes aplicadas, é quase excessivo para as nossas forças aquisitivas de objetos de arte, em relação à população e à fortuna pública. Como quer que seja, sem que nos preocupem estes problemas, na sua expressão econômico-social, apraz-nos registrá-los e fazemo-lo sob a melhor das impressões.

No artigo que dedicamos à inauguração da Exposição XXXIV frisamos a impossibilidade em que nos achávamos de fazer a merecida referência aos trabalhos apresentados pelos nossos artistas. E assim é. Uma larga série de artigos tal não conseguiria, mas temos o dever de registrar, além daqueles a que já aludimos, nossa impressão sobre outros trabalhos que nos parecem dignos de apreço, sem, contudo, podermos abranger tudo quanto lá existe.

Sem a oportunidade que esperamos alcançar por estes dias, de ver com o merecido cuidado, as seções de medalhas, escultura, arquitetura e artes aplicadas, podemos, entretanto, à vol d'oiseau, apreciar mais uma das salas destinadas à pintura.

Assim, nestas, tivemos o feliz ensejo de deter-nos ante um “Retrato” (n. 88 no catalogo), do Sr. Carlos Oswald que, neste trabalho, apresenta uma verdadeira obra prima. Efetivamente, nesta tela, o artista desdobra as suas qualidades de técnico, conhecedor, como poucos, do seu métier; tons, execução, expressão, planos, modelagem, a tudo ali se atende com êxito absoluto. Os detalhes recomendam ainda o autor quer se procure na fisionomia serena, tranquila humana, dessa figura de mulher, quer se considere a sua atitude de recato, tão compatível com a expressão do rosto, quer ainda se contemple a verdade daqueles cabelos e o seu brilho natural. Do tecido do vestido pode-se, sem exagero, dizer que ele se faria sentir se lhe passássemos a mão... É, em resumo, um trabalho este digno de ser visto e que será contemplado com embevecimento por quanto soem emocionar-se com a expressão da arte.

E, prosseguindo na nossa visita, vimos mais: “Marinha”, do Sr. Ernesto Victor Saadeh, original na sua feitura e de feliz perspectiva: uma graciosa “Eulália”, do Sr. Germinal Artesi; “Veranistas” e “Casa Branca”, da Sra. Haydéa Lopes Santiago, com muita vida e bela perspectiva, na primeira tela, e colorido feliz na segunda; “Loira”, do Sr. José Perissinoto, cabeça de linhas clássicas, visando belo efeito; série de oito pequenas telas, do Sr. Levino Fanzeres, trabalhos em que o pintor afirma as suas magníficas qualidades de paisagista, além do quadro de grandes dimensões “Murmúrios da tarde”, de belas tonalidades e planos perfeitos; seis quadros do Sr. Manoel Santiago, concorrente ao prêmio de viagem, dando-nos, entre outros, a “Helena” bem modelada.

Encerramos a nossa visita de ontem com um demorado olhar a tela do Sr. Theodoro Braga, “Muira-k-itã”.

É um trabalho de difícil execução a que o artista deu grande parte de seu talento, aplicando na lenda do rio Nhamundá, os recursos de sua técnica poderosa. A cor das índias, sob uma luz de luar direta, a margem de um lago, exige na composição pictural, um esforço desorientador. Que tonalidade dar a esses corpos de bronze, sob os raios do astro da noite? Fosse a carne branca e o efeito seria fácil. O moreno escuro dos índios requer imaginação, ciência profunda das cores, efeitos novos, tanta coisa difícil que só um grande artista poderá vencer. E parece-nos que o Sr. Theodoro Braga atinge o seu objetivo com o efeito esplêndido das sombras a que dá realce a forma impecável dos corpos femininos, tão bem tratados pelo seu desenho e na modelagem que lhes imprime.

Para este quadro o artista teve requintes de carinho, a tal ponto de o motivo da sua grande moldura ser uma feliz composição dos “muira-k-itans” e das “gregas” indígenas, estas graciossímas [sic], sendo os ângulos formados pelas tangas das índias, com seus desenhos riquíssimos nos motivos e resultantes dos documentos que nos chegam pela cerâmica, velha de séculos...


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 19 ago. 1927, p. 6.

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