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NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 19 ago. 1921, p.6.

De Egba

XXVIII EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES - Conforme já fizemos ver na notícia sucinta que demos do nosso Salão no dia seguinte ao vernissage, não encerra ele nenhum grande trabalho destinado a ficar como o quadro que deve marcar o ano, e isso quer em obra de composição, quer no retrato. Na paisagem há, não sofre dúvida, toda uma série de obras distintas que honram os artistas que as pintaram, sem, todavia, ampliar-lhes a nomeada.

Cumpre, entretanto, patentear que a Exposição contém bom número de quadros com qualidades brilhantes e diversas, composições espirituosas, obras cheias de fortes e finos elementos de execução.

As abstenções foram assaz numerosas: artistas cujas obras exalçariam o valor de qualquer exposição, deixaram de comparecer. Já não falando de Henrique Bernardelli, que há alguns anos não expõe, também não estão representados na Exposição Pedro Alexandrino, Benno Treidler, Modesto Brocos, F. Puidomenech Colom [sic], Carlos De Servi, Gustavo Dalveara [sic], Antonio Rocco, Augusto Luiz de Freitas, Henrique Vio, D. Regina Veiga, Leopoldo Gotuzzo, etc.

Em compensação, há artistas que acusam incontestável progresso e mesmo pode-se dizer que há uma revelação de temperamento artístico do qual há muito a esperar.

João Baptista da Costa, o atual Diretor da Escola, tem cinco trabalhos, dos quais quatro das suas belas paisagens tão atraentes e luminosas e um pequeno quadro de figura.

Apesar do grande valor daquelas, este é o trabalho mais interessante e original da amostra de João Baptista da Costa e tanto mais atraente porque, ao que se sabe do seu gênio aparentemente sério e tristonho, não se esperava dele um retrato de impressão caricatural. Muita gente há de considerar isso como uma coisa de somenos valor, porque ou ignora ou se esquece que na caricatura, como em qualquer outra forma de arte, pode-se fazer coisas notáveis e valiosas.

Para uma caricatura de efeito, são necessárias altas qualidades de desenho, um grande sentimento do grotesco e um fino “humour”; e, como se sabe, um crítico francês já disse que todo bom retrato precisa ter alguma coisa de caricatural. O retrato do ator Edmundo Silva em um papel de uma peça de Raul Pederneiras é bem “réussi” e mostra a habilidade com que João Baptista soube apreender, com o mesmo espírito com que o ator o revestiu, a caracterização caricatural do personagem ideado pela veia humorística de Raul Pederneiras.

É um dos trabalhos da atual Exposição de que toda a gente que a visitar, não se poderá esquecer.

Rodolpho Amoedo expõe um auto-retrato pintado em aquarela.

É um trabalho digno do artista, de uma fatura fina e magistral, belo de cor, bem iluminado e de expressiva caracterização.

Eliseu Visconti é o artista que enviou maior número de trabalhos e todos dignos de sério exame.

É atualmente o nosso artista melhor aparelhado, ao lado dos dois professores que o guiaram no início de sua carreira e cujos nomes ele nobremente mencionou no catálogo - um artista que tem individualidade e que tem um lugar na primeira plana dos nossos pintores, honesta e gloriosamente conquistado.

Em qualquer exposição onde apareça, não se pode passar por ele, isto é, por seus trabalhos como quantidades negligenciáveis.

A agudeza penetrante da sua faculdade de expressão, a finura do seu desenho e modelado, a sua maestria técnica empolgam e impõem-se; e nada que ele faz deixa de impressionar o observador. Se o público entendido o admira e reconhece a excelência da sua obra, ele é eminentemente um artista para artistas - que atestam a sua superioridade.

O seu grupo de retratos, das pessoas de sua família, achando-se no grupo o próprio artista - é uma obra prima de simplicidade e de finura feita na sua maneira antiga - dessa outra obra prima que é o retrato da escultora Nicolina de Assis [Imagem], uma das joias da coleção José Marianno. Nessas cabeças tão divinamente desenhadas, numa tonalidade monocroma, com luz e com sombras, quanta expressão, que admirável ciência de colorido.

Do mesmo privilegiado pincel são os quadros: “Amigos inseparáveis”, numa gravura cinzenta, com as mesmas qualidades de expressão e de desenho, o fino retrato de menino, a “Roupa estendida”, fundo de um quintal, de grande ciência de perspectiva e mais vibrante de luz e de cores vivas.

Mas o interesse da amostra de Visconti não para aí, como se sabe, ele é, sem exagero um dos nossos maiores desenhadores a branco e preto, e um decorador de fina inventiva, e isso evidencia-se exuberantemente da série de seus estudos e desenhos de nu, alguns dos quais fizeram parte do “Salão” de Paris, do ano passado.

De Lucilio de Albuquerque e D. Georgina de Albuquerque é óbvio que não se deve falar separadamente. Estes dois artistas são marido e mulher; trabalham naturalmente juntos e têm pintado, ao lado um do outro, cenas da natureza e retratos que outra coisa não são os quadros de figura saídos de seus pinceis, quaisquer que sejam as intenções que os determinaram, mas, é justo dizer que cada um tem sabido guardar a sua individualidade. Dos dois, Lucilio é talvez mais forte paisagista com grande vigor de expressão, sem deixar de ser um notável pintor de figura. D. Georgina embora a sua pintura seja também vigorosa possui talvez mais delicadeza de expressão. Em aspecto pessoal, há naturalmente mais diferença entre eles do que entre as suas obras, mais [sic] é fácil reconhecer a obra de cada um. Lucilio considera a esposa como a maior artista dos dois; e ela acha que o contrário é que é a verdade. Ambos são amantes de cores ricas, e como vão sempre ao natural, aprenderam a ver as verdadeiras sombras dos raios do sol projetando-se sobre a terra e conhecem os seus tons desde o laranja ao violeta e vice-versa. São dois artistas modernos na larga acepção deste termo, perfeitamente aparelhados; e do conceito em que são tidos por quem lhes vê as obras, fala alto a excelente recepção que recentemente tiveram da crítica e da sociedade culta de Buenos Aires.

D. Georgina de Albuquerque está representada na exposição por dois quadros de figura o primeiro deles denominados “Acácias” é um retrato de menina aureolada por acácias em um dia de sol. A menina está vestida de violeta claro, e ao [sic] mescla impressionística dos tons amarelos das acácias e violáceos claros do vestuário - faz uma bela simpatia de luz com que esse luminoso dia de sol envolve a interessante figura da menina retratada.

O quadro intitulado Risonha é uma pintura cheia de expressão e riqueza de cor.

Lucilio mandou duas paisagens, pintadas brilhantemente, com muita largueza de pincelada e vigor de colorido.

Antonio Parreiras expõe dois quadros grandes, paisagens com figuras de forte efeito e vigorosamente pintados. Com a longa estadia de Parreiras na Europa, a sua visão da nossa paisagem perdeu algo da perspicuidade que o fazia dar a tudo quanto outrora pintava, […] caráter tão genuinamente brasileiro, e se sua maneira moderna tornou-se mais fina e sábia, foi talvez com o sacrifício daquela qualidade. As suas figuras são boas e bem metidas, e os seus dois quadros são incontestavelmente obras de um maitre-peintre [sic].

Um pintor que, embora não seja a primeira vez que entra no nosso “Salão”, se apresenta este ano com singular destaque é Sr. Angelo Cantú.

Contaram-nos que este artista quando aqui aportou, vindo da Itália, querendo tirar da Alfândega os trabalhos que trazia, teve que sujeitá-los, como é de praxe, à inspeção do diretor da Escola, para atestar sobre o seu valor artístico. Falando com João Baptista, propôs logo a este, para provar a sua capacidade, pintar-lhe o retrato. João Baptista - achando engraçado e fora do comum semelhante oferecimento, prestou-se de boamente a servir de modelo, e parece que logo após o artista recém-chegado obtinha dele o atestado requerido e retirava os seus quadros.

Pelos trabalhos que expõe, reconhece-se que não é somente senhor da sua arte, mas dotado de uma percepção não ordinária das delicadezas de expressão necessárias para se chegar à excelência. Tem desenho fácil, fluente e seguro; pincelada simples, larga e por vezes gordado [sic]; criteriosa graduação de tons e sóbria modulação de cor.

Com os quadros expostos, entre os quais é quase difícil estabelecer primazias, ele define a sua posição artística e esta posição é de irrecusável distinção.

O quadro - Flor Exótica - talvez o que mais impressiona, pode ser um retrato, apesar de ser uma joia de pintura de gênero na sua maneira de falar à imaginação.

O denominado - Perto do Fogo - evidentemente pintado na Europa, representando um canto de atelier com o modelo seminu, de costas junto à lareira - é um bonito estudo de formas femininas e carnação quente.

Qualquer dos seus trabalhos encheria bem e agradavelmente a parede em que fosse pendurado.

Helios Seelinger tem quatro paisagens com figuras, com tonalidades quentes que fazem lembrar alguns dos quadros do célebre pintor Turner, o primeiro dos Impressionistas na opinião de muitos críticos.

Helios Seelinger gosta de tirar os assuntos dos seus quadros de mitos, legendas e cenas da natureza em que possa expandir um pouco a sua imaginação fantástica. Gosta de pintar centauros, sereias e coisas fabulosas. E tudo isto como que sendo elementos ou temas para tratamento decorativo.

É um artista que tem originalidade; pode-se gostar ou não dos seus quadros: mas é quase impossível não os ver e reconhecer, pelo menos, que são pessoais.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 19 ago. 1921, p.6.

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