. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 18 ago. 1920, p.6. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 18 ago. 1920, p.6.

De Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES - A exposição deste ano contém, como já dissemos, muitos elementos que a tornam bastante interessante e, que merecem referências mais ponderáveis do que as simples e perfunctórias menções de uma primeira notícia.

Desses elementos, talvez seja o mais atraente e digno de nota a pequena serie de retratos que ela apresenta.

Para o observador inteligente, um belo retrato talvez seja a obra de arte que maior prazer lhe dê. O retrato é a obra em que mais perfeitamente se pode realizar a unidade completa dos dois elementos constitutivos da arte plástica, a reprodução e a expressão; porque o tema já proporciona a própria unidade, isto é, a coordenação ou harmonia dos elementos constitutivos, que o artista só tem que desenvolver e tornar real. Como diz um escritor, brinca nas mãos do artista. Dá-lhe a cabeça humana, com toda a sua solidez e forma, com a sua vivacidade, para ser um ponto de convergência para os seus pensamentos e um centro para a órbita do seu pincel. A natural subordinação também dos outros membros, [...] ao que é exigido pela arte. O pintor só tem que fazer ideia cabal de quão cheios de graça são os fatos e de saber tirar proveito das sugestões proporcionadas por estes, para estar no limiar de uma criação estética.

Um belo retrato é realmente uma bela coisa rara. A fascinação exercida por um retrato depende dos pontos de simpatia que possa existir entre o artista e o seu modelo, e do modo como ele souber desenvolver esses pontos, afim de que o resultado diga alguma coisa tanto do artista como da pessoa retratada.

Examinando os retratos reunidos na atual exposição, os que de pronto empolgam a atenção, são os dois de senhora enviados pela ilustre pintora americana, atualmente no Rio de Janeiro.

Como já dissemos em outra ocasião, os trabalhos de Mrs. Cecil Clarcke Davies [sic] trazem à memória as obras de artistas ingleses do fim do século décimo oitavo e princípio do décimo nono, como todo o seu encanto característico, mas que ela também sabe ser moderna, - mostrou-o no retrato de militar e no retrato de senhora, cuja tonalidade dominante era amarela, da sua exposição na Galeria Jorge.

Nos seus retratos, vê-se que o seu objetivo é dar à sua obra um sentimento de dignidade, e de distinção, e isso o mais simplesmente possível.

Em ambos os retratos da exposição o colorido é sóbrio, o modelado é feito com muita delicadeza e há certa sutileza de expressão.

No da Sra. Stewart, em que houve talvez um pouco de estilização, a fisionomia emerge cheia de vida do meio quente, formado pelo tom escuro do fundo do vestuário.

No retrato da Condessa de Provanna - tanto a pose como a expressão são perfeitamente naturais - havendo perfeita harmonia nos tons azuis do véu e claros do vestido, e do fundo cinzento.

Em ambas as mãos são finamente desenhadas, e a execução é cuidada e segura.

Será de lastimar que a distinta artista não tenha oportunidade de pintar retratos de algumas das nossas patrícias, com o que só teríamos que ganhar.

Um retrato que honra sobremodo o seu autor é o de D. Georgina de Albuquerque, pintado por seu marido, Lucilio de Albuquerque. A distinta artista é pintada sentada no centro do seu “atelier” - o arranjo é simples e agradável; e a composição tem harmonia e impressiona bem.

Lucilio fez uma bela obra de arte, em que, sem sacrificar as qualidades puramente artísticas, não deixou de lhe dar o requisito primário de um retrato, que é a semelhança.

Talvez a figura ganhasse ainda maior relevo se o fundo fosse completamente neutro, ou se houvesse menos pormenorização dos elementos do quadro que constitui esse fundo; mas compreende-se o sentimento dedicado que levou o artista a dar ao seu trabalho esse fundo, que além de tudo empresta um elemento característico à sua tela e não lhe diminui o valor.

O Professor Amoedo tem um retrato de menina em que não teve a felicidade de mostrar as qualidades que fizeram dele um dos mestres da nossa pintura.

Rodolpho Chambelland expõe dois bons retratos bustos de homem, que devem ser parecidos pela sinceridade e honestidade com que são pintados.

A Sra. Regina Veiga mandou um retrato de senhora, cuja tonalidade dominante é o branco, e que dá testemunho do progresso da distinta amadora, com dificuldades habilmente vencidas.

Retrato cheio de graça também é o da senhorinha A. X. pela Sra. Solange de Frontin Hess, que igualmente acusa progresso.

Carlos De Servi tem um retrato do Dr. Alfredo de Souza, bom de fatura e de expressão e muito feliz na escolha do ponto de vista em que tomou o seu modelo.

Fernandes Machado tem um retrato ao ar livre, interessante pela felicidade com que soube focalizar as singulares qualidades características do retratado.

Arthur Thimoteo da Costa expõe um retrato de senhora, de boas qualidades; e o Sr. Mario Tullio, um interessante retrato, com certo caráter, do poeta Dr. Olegario Marianno.

Não devemos passar em olvido o grupo de retratos do jovem artista Guttmann Bicho, intitulado “Alguns amigos”. Retratos em grupo constituem dos mais difíceis problemas nesse ramo de arte; mas, que, quando solvidos com felicidade, causam bom efeito e evitam a monotonia que é quase inevitável na pintura de indivíduos isolados. Não podemos dizer que Guttmann Bicho soubesse fugir a esses escolhos, mas não sofre dúvida que há vida nos seus retratos e que o seu trabalho revela um esforço respeitável.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 18 ago. 1920, p.6.

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