. NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 17 set. 1907, p. 3. - Egba

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 17 set. 1907, p. 3.

De Egba

Os pensionistas, ou ex-pensionistas, atualmente na Europa não mandaram para a atual Exposição trabalhos na altura do que se poderia esperar dos seus esforços ali.

O que enviou trabalho de mais fôlego, foi o Sr. Lucilio de Albuquerque, que é representado por dois quadros alegóricos, um episódio do Canto V, do “Inferno” de Dante e um Agnus Dei.

O primeiro quadro tem por tema o célebre episódio de Paulo Malatesta e Francesca da Rimini, quando Dante, no segundo círculo do Inferno vê, entre as almas dos que abusaram do amor na Terra e ora ali são condenados a evoluir eternamente tocados por ventos tenebrosos, passarem entrelaçadas as sombras dos dois cunhados apaixonados:

“Quali colombe dal disio chiamate

Coll'ali aperte, e ferme al dolce nido

Volan per l'aer dal voler portate;”

Como se vê, o tema é belo e atraente, por isso mesmo, não é pequeno o número dos artistas que o tem procurado interpretar na tela.

Citando de memória, podemos lembrar-nos de Paul Delaroche, Gustavo Doré, Giabert [sic], o grande G. F. Watts, e entre nós, Aurélio de Figueiredo e Decio Villares, que pintou uma maravilhosa grisaille, uma das joias da escolhida coleção do […] amador, que é o Dr. Fabio Ramos.

Compreende-se que, depois desses pintores, alguns dos quais como Gustavo Doré, Paul Delaroche e Watts fizeram verdadeiras obras-primas, só uma concepção verdadeiramente grandiosa e vigorosamente tratada poderia tornar aceitável e apreciada mais uma versão desses tópico da epopeia dantesca. Infelizmente, o Sr. Lucilio, apesar de seu inquestionável talento, ainda não possui o amadurecimento nem o adiantamento técnico necessário para arcar satisfatoriamente com semelhante assunto. O grupo dos apaixonados, condenados a viver eternamente ligados, não tem saliência distinta, nem a figura do poeta tem a expressão da suprema compaixão e da suma angústia que nele produziu aquela pavorosa visão, que o fez cair como morto.

O outro quadro - Agnus Dei - é feito com mais sentimento e singeleza, e agrada mais.

E aqui podemos dizer [...] palavras acerca de D. Georgina de Albuquerque, sua esposa, que se acha também estudando pintura em Paris, e que mandou dois trabalhos interessantes.

Um deles, intitulados Supremo amor, representa uma jovem mãe com a filhinha no regaço e é impregnado de um puro e sadio sentimento feminino, e o outro seu trabalho, Italiana, é o busto de uma robusta filha do povo, um estudo interessante tanto pelo que diz respeito ao desenho como à cor.

O Sr. Eugenio Latour, que se acha atualmente em Roma, enviou duas paisagens e um quadro de figura. Vê-se que ele anda ocupado em problemas de luz e de fatura. Nos quadros enviados, a sua pincelada é cheia e fresca, um tanto pastosa e firme, e as tintas são um tanto crivas e vibrantes.

O quadro de figura representa uma rapariga na exuberância da mocidade, temperamento vibrante e irrequieto, palpitante do que os Ingleses chamam animal spirits. A fisionomia da rapariga, visivelmente uma frequentadora de ateliers, ressalta com angular expressão de vitalidade, de debaixo de um chapéu vermelho, plenamente batido de sol e que parece iluminar todo o quadro. O vestido preto, pobre e sem a elegância que teria um modelo parisiense, é um esplêndido e harmônico contraste para essa cabeça tão cheia de vida, pintada com grande vivacidade de toque e largueza de execução.

Nos quadros - Bancos de pesca em Veneza - uma Veneza diferente das que estamos acostumados a ver nos quadros de Ziem e suas imitações, e Efeito de sol, nota-se visivelmente como está preocupando ao artista o estudo da luz nas suas múltiplas gradações e nos variados aspectos que estas emprestam às coisas.

Aguardemos como [sic] sentimentos de curiosidade e expectativa simpática os trabalhos que o Sr. Eugenio Latour nos trará da Europa.

O Sr. Eduardo Bevilacqua, prêmio de viagem na Exposição do ano passado, tem apenas duas vistas de Petrópolis, de tão somenos importância que não merecem mais do que as linhas que aí ficam.

Embora não seja pensionista do Estado, mas esteja na Europa estudando à sua custa, o Sr. A. de Alvim Menge não fica muito deslocado no pé desta notícia.

Conquanto não seja da força dos artistas precedentemente citados, o Sr. Menge expõe quadros não isentos de interesse.

Só quem conheceu os trabalhos pintados pelo Sr. Menge antes de sua partida para Europa, há cerca de dois anos, pode fazer ideia dos esforços e dos progressos por ele feitos.

É discípulo atualmente do Sr. Barbazan Lagueruela [sic], e isso se trai no quadro - O Novato - o trabalho seu de que menos gostamos, pintado com demasiado cuidado de detalhes e preocupação de efeito de bonito. O quadro - Ave Maria - tem certo sentimento, e o Velho Garibaldino é uma sólida cabeça de estudo.

O Sr. Menge está em boas mãos e talentoso e diligente e apaixonado como é de sua arte, tem diante de si um belo futuro.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 17 set. 1907, p. 3.

Ferramentas pessoais
sites relacionados