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NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 16 ago. 1914, p.6.

De Egba

EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS-ARTES - A atual exposição, a vigésima-primeira exposição anual realizada depois da reforma por que passou a Escola Nacional de Belas Artes, prova que, apesar de não haver da parte do público o encorajamento e a apreciação que são os incentivos mais poderosos para a produção artística, há entre nós grupo bastante numeroso de moços que trabalham, que se esforçam por se aperfeiçoar na sua arte e que apresentam obras interessantes.

É fora de dúvida que a maioria das obras expostas, conquanto acusem certo conhecimento das qualidades mecânicas da arte que professam, no [sic] possui a nota de inspiração pessoal, de individualidade, que é a que fornece o elemento mais interessante e mais atraente a todo trabalho artístico.

O momento é muito pouco propicio para que os artistas vejam as galerias da Exposição visitadas mesmo por aqueles poucos que nunca deixam de ir ver e apreciar com simpatia os esforços anuais dos nossos artistas.

Vamos fazer aqui uma resenha rápida dos principais trabalhos expostos, sentindo que provavelmente deixaremos de enumerar alguns com qualidades apreciáveis.

Já em anterior noticia nos referimos as obras de João Baptista da Costa, e agora encetaremos esta nota com o veterano artista Modesto Brocos, que mandou um autorretrato, bastante vigoroso de expressão e que não estaria sujeito a reparo se não fosse a cor demasiado terrosa que o artista se deu a si próprio.

O Sr. Eugenio Latour expõe sete trabalhos que traem, se assim se pode dizer, a sua proveniência francesa e a sua educação artística, bem guiada aqui e aprimorada em meio francês.

Em todos os seus quadros, sem se notar a procura de originalidade, reconhece-se nele um artista que se delicia na sua arte, que se esforça por adquirir pureza de forma e de estilo, emprestando a quase todas as suas figuras certa elegância, pela maneira fina com que as pinta, e dando-lhes qualidades extremamente atraentes.

O retrato oval N. 161 é uma das melhores telas da Exposição, muito feliz de pose e de expressão.

O quadro 162 - “No Salão de 1913” - é interessante por mostrar um conhecido amador, o homem mais retratado dos nossos tempos, em ato de autoadmiração perante um retrato. O Sr. Carlos Oswald, outro moço, quer nos seus quadros a óleo, quer nas suas finas águas-fortes, águas tintas e pontas secas, é um artista possuidor de nota pessoal, de uma visão individual que nunca é banal. Tem muito talento, mas diríamos que o seu talento é feito mais de ternura do que de vigor, de uma imaginação graciosa e delicada, um tanto sonhadora.

Tem boas qualidades de técnica e de cor, e sabe colocar as suas figuras em meios decorativos.

Todos os seus quadros são atraentes: o retrato do maestro Henrique Oswald ao piano, é pintado com muita simplicidade, é expressivo de pose, e o quadro n. 50 – “No jardim fantástico”, é uma bela composição decorativa.

O Sr. Rodolpho Chamberland está representado por um único trabalho, um retrato de menino; mas, está muito bem representado.

Esse retrato é uma bela obra, viril no arranjo, viril no modo direto como é pintado e viril de expressão.

O rapaz, vestido de uma camisa esporte de lã creme, de calças brancas curtas e sapatos amarelos, está encostado a uma parede de tons verdoengos. Junto aos pés, uma grande bola de couro demonstra que o retratado é adepto do foot-ball, e a sua pose e o seu ar de lassidão revelam que ele acaba de sair de uma partida desse fatigante exercício.

O modelo é um rapaz forte que promete vir a ser um homem varonil, e sente-se tão bem debaixo das roupas que envolvem, como no rosto, toda a anatomia do jovem e robusto corpo.

Feito em tons verdoengos claros e cor de creme, o quadro é uma bela obra de grande harmonia decorativa.

Outro moço que está bem representado este ano é o Sr. Alvim Menge.

O seu quadro - N. 12 - Cair da tarde - é uma bela tela; a impressão do por de sol foi muito bem estudada e o efeito perfeitamente alcançado. Pintado numa maneira mais larga do que nos acostumou o artista, a impressão do momento é bem dada.

O pôr-do-sol, avermelhado e luminoso, é harmonioso e traduz bem a nostalgia da hora. E como é um efeito passageiro, de pequena duração, exige da parte do pintor uma boa memória.

Tem poder de transmitir uma forte impressão recebida pelo artista, e em arte isso é tudo.


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

NOTAS DE ARTE. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 16 ago. 1914, p.6.

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